Beatriz Nascimento: uma intelectual que todo mundo precisa (re)conhecer

A autora tem sido alvo de contínuos processos de apagamento e invisibilidade, algo recorrente nos percursos das intelectuais negras

Créditos: Divulgação

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Opinião

Maria Beatriz Nascimento nasceu em Aracaju, Sergipe, em 12 de julho de 1942. Oitava filha do casal Rubina Pereira do Nascimento e Francisco Xavier do Nascimento, teve nove irmãos. Como milhares de famílias nordestinas, a família Nascimento migrou, em 1949, para a região Sudeste. Mais precisamente para o Cordovil, bairro do subúrbio carioca.

 

 

 

Em 1969, aos 28 anos, Beatriz Nascimento passou no vestibular para História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Concluiu o curso em 1971. No mesmo período, fez estágio em pesquisa no Arquivo Nacional, sob orientação do historiador José Honório Rodrigues. Tempos depois, tornou-se professora da rede estadual fluminense.

Ao longo de sua trajetória, a historiadora sergipana sempre aliou a militância e vida acadêmica. Ao lado de pesquisadores e pesquisadoras negras, fundou o Grupo de Trabalho André Rebouças na Universidade Federal Fluminense (UFF). Na mesma instituição, em 1981, concluiu o curso de pós-graduação Lato Sensu em História do Brasil. Entre os anos finais da década de 1970 e o início dos anos 1980, foi presença constante na retomada dos movimentos sociais negros organizados, mantendo vínculo inclusive com o Movimento Negro Contra a Discriminação Racial (MNUCDR, nome mais tarde reduzido para MNU).

Enquanto pesquisadora, Beatriz Nascimento debruçou-sobre a formação dos quilombos no Brasil. Nos dizeres do antropólogo Alex Ratts, autor de sua biografia intelectual, Beatriz pensava os territórios de resistência de escravizados e seus descendentes de maneira cientifica, mas também a partir de sua trajetória pessoal e do seu ativismo político antirracista. Beatriz Nascimento propunha e defendia o reconhecimento e a titulação das terras quilombolas. Em 1983, ela escreveu: “Que os movimentos negros apurem onde existem terras ocupadas por comunidades negras, e providenciem por meios legais a aplicação do usucapião evitando os problemas de usurpação das terras.” Esse reconhecimento só começaria a acontecer tempos depois, a partir de 1995.

Embora seja seguramente uma das maiores estudiosas do País a respeito do tema, Beatriz Nascimento é mais conhecida pelo documentário Orí, palavra em yorubá para “cabeça” — que para os candomblecistas relaciona-se à mente, à inteligência, à alma. Disponível no YouTube, foi lançado em 1989 e dirigido pela cineasta Raquel Gerber, a partir dos textos e da narração de Beatriz, Orí recupera os percursos dos movimentos negros que emergiram no Brasil entre 1977 e 1988, entrelaçados pela diáspora africana, tendo os quilombos como fio condutor.

Beatriz Nascimento exerceu papel fundamental nas reflexões e ações referentes à denúncia e ao combate ao racismo “virulento” e, ao mesmo tempo, “tolerante” de uma sociedade entorpecida pelo mito da democracia racial, que impunha aos sujeitos negros condições desfavoráveis de vida e maiores dificuldades de acesso aos bens públicos. A partir disso, a historiadora definia a existência negra como uma história marcada por “quase quinhentos anos de resistência à dor, ao sofrimento físico e moral, à sensação de não existir”.

O pensamento de Beatriz Nascimento também foi fundamental para o entendimento das práticas discriminatórias que pesavam sobre os corpos das mulheres negras, sendo um dos expoentes do que hoje é conhecido como feminismo negro. Nos anos 1980, chamou atenção para a condição de subalternidade a que a maioria das mulheres negras estavam sujeitas no mercado de trabalho. Tal fenômeno, afirmava, decorria dos resquícios da escravidão e das barreiras construídas pela sociedade brasileira para garantir a ausência de mobilidade social deste grupo. Nos dizeres da ativista, se a mulher negra hoje permanece ocupando empregos “similares aos que ocupava na sociedade colonial, é tanto devido ao fato de ser uma mulher da raça negra, como por terem sido escravos seus antepassados”.

Beatriz Nascimento também dissertou sobre os impactos do racismo na educação. Seus apontamentos partem da experiência enquanto estudante negra, como também de estudos e observações de campo. A teórica sergipana pontuou sobre a violência contra os corpos negros nos espaços escolares e a solidão das crianças nas instituições de ensino. A esse respeito, ela escreveu: “Acho que muita criança negra tem esse problema [da solidão] e é por isso que não estuda, muitas vezes não passa de ano, tem dificuldade na escola por causa de um certo tipo de isolamento que não é facilmente perceptível”.

 

 

Nesse trânsito entre História, ativismo e educação, Beatriz Nascimento também percorreu o caminho das letras, tendo se dedicado à escrita de poemas. No âmbito acadêmico, sua última parada foi na faculdade de Comunicação Social, onde deu início ao curso de mestrado, sob a orientação de Muniz Sodré. A dissertação não pôde ser defendida, pois ela teve sua vida ceifada pelo companheiro de uma amiga, que em 28 de janeiro de 1995 disparou cinco tiros à queima-roupa contra Beatriz.

Passados 26 anos da morte dela, sua produção tem sido lembrada em congressos e seminários justamente por pesquisadores e pesquisadoras afro-brasileiros. Por outro lado, Beatriz Nascimento ainda é uma voz silenciada em planos de ensino de cursos de graduação e pós-graduação, o que nos leva a afirmar que a autora tem sido alvo de contínuos processos de apagamento e invisibilidade, algo recorrente nos percursos das intelectuais negras.

No momento em que as grandes editoras e veículos da mídia hegemônica têm voltado a atenção para as pensadoras afrodescendentes, em junho deste ano, a Zahar Editora lançou Uma história feita por mãos negras, edição primorosa organizada por Alex Ratts, que reúne 24 textos de Beatriz Nascimento, publicados entre 1970 e 1994.

Mais do que nunca, é tempo de (re)conhecer Beatriz Nascimento.

* Texto publicado originalmente no Literafro: Portal da Literatura Afro-brasileira.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. Atualmente tem se dedicado à Formação Inicial e Continuada de Professores. É autora do livro Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula, lançado em 2018 pela Mazza Edições.

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