Luana Tolentino

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Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. É autora do livro 'Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula' (Mazza Edições)

Opinião

Até o direito de chorar os nossos mortos nos tem sido usurpado

Aos familiares de Bruno Pereira e Dom Phillips, todo meu respeito e solidariedade

Foto: Kenzo Tribouillard/AFP
Foto: Kenzo Tribouillard/AFP
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Nos últimos dias, acompanhei com apreensão as notícias em torno do desaparecimento do indigenista Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips, que atuavam na defesa da Floresta Amazônica e dos direitos dos povos originários. As informações desencontradas, a demora nas buscas por parte de órgãos oficiais, o descaso do governo, tornaram tudo ainda mais angustiante.

Na quarta-feira, o que fazia o coração tremer, apertar, aconteceu. Com participação ativa de indígenas do Vale do Javari nas buscas, os restos humanos de Bruno e Dom foram encontrados. Bruno e Dom tiveram os corpos esquartejados e incinerados. De acordo com depoimentos, seus algozes estavam envolvidos com a pesca ilegal.

O episódio que interrompeu precocemente a vida de Bruno e Dom Phillips ocorreu semanas depois da chacina da Vila Cruzeiro e do crime hediondo de que foi vítima Genivaldo Santos, morto por agentes da Polícia Federal em uma câmara de gás improvisada.

Como se vê, neste país, tem sido usurpado até mesmo o direito de chorar nossos mortos. O estado de barbárie que assola o Brasil não permite isso. Não dá tempo.

As informações acerca da morte de Bruno Pereira e Dom Phillips e as tentativas incessantes de agentes públicos de detratar a trajetória, a honra dos dois, ganharam as páginas de jornais do mundo inteiro. Além de sermos conhecidos como um país que destrói a maior floresta tropical do planeta, ocupamos o quarto lugar na lista dos que mais matam ativistas ambientais no mundo. 

Durante a leitura de jornais da Inglaterra, dos Estados Unidos e da América Latina, foi fácil perceber que, ao contrário do que ocorre em grande parte do noticiário nacional, veículos da imprensa estrangeira não se furtam em nomear as razões da carnificina que nos sufoca e amedronta.

Como prova disso, reproduzo um trecho da edição de quinta-feira do periódico inglês Financial Times: “Indígenas e funcionários de organizações não governamentais há muito suportam o peso da agressão de grupos que operam ilegalmente na área. Ambientalistas dizem que a situação se deteriorou dramaticamente desde a eleição em 2018 do presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro, cuja retórica em apoio a garimpeiros e madeireiros ilegais foi tomada como sinal verde para arrasar a floresta tropical”.

Pesquisas, denúncias e o recente dossiê produzido pelo Inesc (Instituto de Estudos Econômicos) em parceria com o INA (Indigenistas Associados – Associação dos Servidores da Funai) mostram que a Fundação Nacional do Índio é mais uma instituição destruída pelo atual governo, impedida de cumprir sua função social, com vistas a garantir os interesses de grupos ligados ao agronegócio, à extração ilegal de madeira, à pesca predatória e ao garimpo em territórios indígenas.

Segundo o documento, a redução drástica de verbas, a paralisação dos processos de demarcação de terras, a leniência com os criminosos que atuam em áreas de preservação ambiental e a perseguição a funcionários de carreira têm sido uma constante na autarquia. 

Passados quatro anos da morte de Marielle Franco, nos vemos diante da mesma pergunta: quem mandou matar Bruno Pereira e Dom Phillips? Ambos foram vítimas do processo de deterioração da democracia, da política de governo vigente, baseada na violência, no ódio, na miséria e na morte.

Na atual gestão, somente um grupo social é considerado humano: o de homens brancos ligados às grandes corporações, ao grande capital. Aos demais, não é dada nem mesmo palavras de respeito e compaixão em momentos extremos, de dor.

Bruno Pereira e Dom Phillips, amantes do Brasil, da floresta, da diversidade que marca os povos indígenas, perderam a vida lutando por um país em que “tudo parece que ainda era construção e já é ruína”, conforme canta Caetano Veloso na canção “Fora de ordem”.

Bruno Pereira e Dom Phillips deixaram seus amores, as viúvas Beatriz Matos e Alessandra Sampaio. Deixaram também um imenso vazio e a incerteza de que teremos justiça. 

O momento é de dor, tristeza, desalento, choque e consternação. Como eu disse no início desse texto: sequer temos tempo para chorar nossos mortos. O estado da barbárie não deixa.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Luana Tolentino

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