Ataques de hackers a professor indígena evidenciam ranço colonial

Sob ataques e ameaças de morte, professor indígena Álvaro de Azevedo Gonzaga reage: 'não é possível calar a voz da ancestralidade!'

Ataques de hackers a professor indígena evidenciam ranço colonial

Opinião

“Não é possível calar a voz da ancestralidade!”. Essa foi uma das respostas dadas pelo Prof. Álvaro de Azevedo Gonzaga – Indígena, Mestre, Doutor e Livre-docente em Filosofia do Direito pela PUC/SP e Pós-Doutor pela Universidade Clássica de Lisboa e pela Universidade de Coimbra, ao ser brutalmente atacado por hackers durante a apresentação pública dos resultados de sua pesquisa de pós-doutorado sobre Decolonialismo Indígena realizada junto à Universidade Federal da Grande Dourados.

Em 27 de abril, semana passada – marcada por inúmeros retrocessos, sobretudo pela negativa do Censo Demográfico do IBGE em 2021 – que a sala virtual da UFGD foi invadida por cerca de 20 perfis e a fala do professor interrompida por hinos, músicas, gritos, além de agressões verbais e ameaças de morte, acompanhadas de repetidas mensagens de “Bolsonaro 2022 antes de ser derrubada.

Não é de hoje que Gonzaga se dedica à causa indígena. Em 2006, trabalhou no Conselho Indigenista Missionário (CIMI); em 2008, no Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) na representação América Latina; entre 2009 e 2015, esteve em diversas aldeias indígenas nas regiões de Maturacá (AM) e de Dourados (MS); e, atualmente, integra o Comitê Intersetorial de Assuntos Indígenas da Secretaria de Justiça e Cidadania do Governo do Estado de São Paulo.

Neto de Miguel da Costa Kaiowá – indígena fruto da diáspora Guarani-Kaiowá e com quem conviveu na infância e mantem profunda ligação ancestral, Gonzaga vê a pesquisa sobre a questão indígena não apenas como um objeto de estudo acadêmico, mas, sobretudo, como um encontro com sua própria história, encontro este, que lhe permite garantir a continuidade da luta em defesa dos povos originários.

 

Muito abalado, o professor lamentou os ataques, mas, de forma contundente, vociferou em nome de sua ancestralidade e, em respeito a ela, não se calou diante de haters que, segundo ele, usam instrumentos totalitários para intimidar aqueles que lutam pela Democracia e por um mundo menos desigual, e completou: “a resistência consiste naquilo que muitos costumam não fazer, que é estudar! E essa é a forma que eu optei por resistir! ”

Sua pesquisa dará vida a seu mais novo livro – Decolonialismo Indígena, que será publicado em breve. Nele, Gonzaga explica que a dimensão decolonial é central para compreensão dos povos originários e que é preciso entender que “esses povos devem viver da forma que quiserem e que não devem ceder a pressões de se adaptar a tudo aquilo que os colonizadores disserem que devem”. Veja a aula na íntegra:

 

De acordo com Gonzaga, “o decolonialismo é a negação do etnocentrismo; da leitura europeia. Seria exatamente a compreensão do onde estamos e do por que lutamos (…). O tema é importante, o tema preocupa. Debater a questão indígena, debater a questão de terra, no Brasil, incomoda as pessoas que entendem que o indígena deve ser descolonizado (…)”, afirma o professor.

A verdade é que vivemos num país que pouco tem feito para reparar o vexame de ter sido construído às custas de sangue preto e indígena. Num país que, até hoje, ou mata o indígena e destrói seu habitat, ou o mata através da catequização; do apagamento de suas epistemologias e da inferiorização de suas formas de organização social, econômica, política e ritualística.

É preciso romper com essa síndrome do colonizado!

Os ataques não podem ser pensados no campo da individualidade. Buscou-se deslegitimar um conjunto de vozes que tem na resistência sua estratégia de existência. Mas, sabemos que um indígena na academia incomoda! Um indígena que articula e direciona seu legado acadêmico em prol daqueles a quem o colonialismo tenta usurpar, incomoda muito mais!

Como nos ensinou Fanon, em Os Condenados da Terra, é o “colono que fez e continua fazendo o colonizado”. E nós seguimos sendo o colonizado alienado que rejeita seu mato para mais branco se sentir[1]. E é sob essa pretensa imbecialização dos povos originários que construímos e sustentamos nossa vergonhosa “civilidade”.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Doutoranda em Relações do Trabalho, Desigualdades Sociais e Sindicalismo pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Mestra e Especialista em Direito do Trabalho pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Pesquisadora voluntária no Núcleo de Pesquisa e Extensão "O trabalho além do Direito do Trabalho: dimensões da clandestinidade jurídico-laboral" da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP). Advogada.

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