Opinião

As reais possibilidades de nos livrarmos da demência governista

Aquilo que no passado era esperança e alento tornou-se, mais do que nunca, conformismo, resignação, apatia

 Foto: Wanezza Soares/CartaCapital
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Lembra-me a Frente Ampla surgida na segunda metade dos anos 60 do século passado. Nasceu da aliança entre os principais visados pelo golpe de 1964, João Goulart e Juscelino Kubitschek, e o arrependido Carlos Lacerda, a repudiar seu recentíssimo passado golpista. O conceito estava certo, todos contra a ditadura, na prática deu em nada. O Brasil de então era, porém, melhor do que o atual e deu trabalho aos donos do poder. Houve manifestações de peso e a resistência de uma luta armada, desassombrada, embora incipiente. Valeu de todo modo como prova de vitalidade, até as imponentes greves do ABC comandadas por um certo Luiz Inácio da Silva, apelidado Lula.

Ouço novamente falar em frente ampla, para combater a demência bolsonarista e os seus monstruosos efeitos. E quem seria capaz de aviar a receita salvadora? O Brasil de hoje é infinitamente pior do que aquele do golpe, ostentava então pensadores, círculos intelectuais e ambientes universitários de todo respeito, uma imprensa empenhada ao menos em lidar corretamente com a língua, boas livrarias e um teatro muito presente e ativo, afinado com as encenações das capitais do mundo. 

Com a fatal contribuição do neoliberalismo destinado a enriquecer um punhado de indivíduos e infelicitar bilhões, na terra prometida da casa-grande e da senzala talhada para aplicar seus princípios com fervor religioso, o Brasil acentuou as feições que merece. Aquilo que no passado era esperança e alento tornou-se, mais do que nunca, conformismo, resignação, apatia.

 

Ideal seria uma frente ampla capaz de reunir debaixo da mesma bandeira todos os capacitados a esquecer diferenças sociais e pendengas antigas para oxigenar de vez o País agredido física e moralmente de forma irreparável a curto ou médio prazo. Imagino, não sem ousadia, a autêntica conciliação nacional, oposta àquela que foi sempre a das elites. Imperdoáveis exageros da minha imaginação? Talvez. Há, contudo, o exemplo de uma unidade que faz a força e, perdoem o lugar-comum, embora de inesgotável sabedoria.

O Nordeste é um instrutivo exemplo que o ex-fundão oferece a quantos assim o definiram. A frente ampla nordestina construiu um consórcio empenhado em promover a unidade regional de propósitos e realizações políticas, econômicas e sociais. A entrevista do governador da Bahia à Veja, assunto entre outros desta edição, recebe a resposta irada da Executiva Nacional do PT, conquanto exponha aquela que aos olhos de CartaCapital é apenas a verdade factual. Na semana passada, neste mesmo espaço, pedia desculpas ao meu caríssimo e admirado amigo Lula por constatar que o PT, incapaz de chegar ao povo e, portanto, mobilizá-lo, insiste nos erros que Rui Costa aponta, a distanciá-lo mais e mais de uma vocação traída para aparentá-lo aos demais chamados partidos da história brasileira, clubes recreativos de uma minoria em busca de poder.

Não é por aí que se consolida a grande aliança nacional, que obviamente não dispensará a liderança de Lula, o único líder em condições de levar a este gênero de união. Diante deste Brasil abandonado ao seu destino, entregue a questões menores, quando não insignificantes no confronto com a gravidade da situação, apresenta-se a oportunidade de um profundo exame de consciência para reconhecer os erros, elevar-se acima de rancores e picuinhas e definir em conjunto a saída justa.

CartaCapital receia que este gênero de expectativa não passe de um dos costumeiros devaneios de quem facilmente se inclina à ilusão. O Brasil assiste impassível, em impenetrável silêncio, à demolição do Estado, à dilapidação do patrimônio doado pela natureza generosa, à devastação do ambiente, aos crimes cometidos em nome da Justiça, à imbecilização progressiva, ao jogo de faz de conta conduzido pelos demais poderes, Executivo e Legislativo, de uma República que participa da queima diária da Constituição.

CartaCapital vasculha o olho do ciclone que avassala o País, para avaliar a situação em todos os quadrantes da disputa política. A única região fiel a si mesma e aos interesses do Brasil é o Nordeste. As demais estão entregues ao reacionarismo mais irresponsável e à indiferença popular. Bolsonaro mal terminou nove meses de governo e a política nativa já se volta para o debate eleitoral na ainda longínqua perspectiva do problemático pleito de 2022, como se atravessássemos um momento de normalidade institucional, aparentada pela abjeta atuação da mídia nativa, sempre disposta a praticar a propaganda em lugar do jornalismo.

A conclusão, moral da história, nos condena à incerteza. A nossa tentativa de decifrar o País atual indica a excepcionalidade dos Varões de Plutarco, a ausência do líder necessário, a solidão honrosa e bem-vinda do ex-fundão do Brasil.

Mino Carta

Mino Carta
Diretor de Redação de CartaCapital

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