As mulheres escrevem

Ainda bem que, apesar dos tantos pesares, existiram e existem Virginias, Clarices, Cecílias, Carolinas de Jesus, Chimamandas...

A escritora Carolina Maria de Jesus. Foto: Acervo UH/Folhapress

A escritora Carolina Maria de Jesus. Foto: Acervo UH/Folhapress

Opinião

Embora elas sustentem e percorram diversos corpos, lugares, saberes, atos e nomes, as mulheres estão historicamente deslocadas da palavra. Portanto, quando afirmo que elas escrevem, digo que as mulheres criam mais do que filhos ao alcançarem um lugar legítimo do poder gerado pela possibilidade da fala e pela não invisibilização do que se é dito.

Ocupar também esse lugar visível, audível e escrito, além do lugar de mulher funcional em casa, é um resgate do espaço-tempo e corpo-gozo que nos é dado enquanto existências, há muito guardados nas margens frágeis do que é nomeado como “feminino” e colocado na categoria de “outro”, descrita por Beauvoir e revisada por outras pensadoras atuais do feminismo. Margens e conceitos que, não raramente, contornam violências e aprisionam destinos.

Assim, ao abrir a porta do espaço doméstico e alcançar a circulação do espaço público aos homens socialmente destinado, as mulheres se apoderaram do tempo em que vivemos, e afirmaram que estão no presente e não no passado. O fizeram desfazendo, com novos fazeres, diversos atrasos relacionados ao acesso à alfabetização, à escola, às universidades, ao voto, à arte, a lugares de tomadas de decisão no mercado de trabalho, a salários adequados, à vivência da sexualidade sem extrema subordinação. Logo, a conquista do “viver em seu tempo” a que me refiro está relacionada à conquista de direitos e à diminuição das desigualdades sociais relacionados ao gênero, e à conquista do corpo enquanto não completamente subserviente ao outro.

Nesse sentido, ainda há muito a ser ouvido, vivido, gozado e escrito, é claro. Dizendo isso, também não pretendo eliminar diferenças constitutivas, nem assumir que com as conquistas não existiram outras perdas. Afinal, somos sujeitos divididos, mas o básico de dignidade e possibilidade criativa de vida não deve ser negligenciado e nem queimado em fogueiras, sobretudo quando algo quer ser imperativamente falado para abrir espaço a uma vivência.

Vivas, as mulheres também desejam, e por isso queimam, e por isso falam. Por que uma mulher falou, por exemplo, Freud fundamentou a psicanálise. Contudo, como toda comunicação se faz de um emissor, uma mensagem, e um receptor, ela falou porque alguém a escutou. E, neste caso, foi um homem que ouviu uma mulher. Finalmente. E porque elas têm mensagens, as mulheres também escrevem – contrariamente ao que se acreditava sobre “a debilidade feminina em seus interesses sociais e capacidade de sublimação”, sobre a qual Freud felizmente e humildemente assumiu a possibilidade de “o futuro trazer informações mais coerentes”. E cá as trazemos escrevendo e sublimando, por exemplo.

Assim sendo, aproprio-me da escrita como exemplo de possibilidade de emancipação da mulher e reivindicação adquirida, pois ela combina o acesso à fala e à educação, à inscrição da sua palavra na história e no tempo e à assumpção de uma autoria.

Visto que, além de aprenderem mais tardiamente a escrever, muitas mulheres  que o sabiam fazer deviam utilizar pseudônomios masculinos para terem o conteúdo produzido consumido. Elas também levaram mais tempo para serem aceitas no mundo acadêmico. Para muitas, a falta de tempo e de condições materiais também mortificaram seus desejos e posicionamentos, e ainda o fazem. Ou, ainda, o medo das consequências em uma sociedade machista também as silencia. Isto posto, a falta de interesse ou de capacidade antes pensadas podem ser questionadas facilmente.

Ainda bem que, apesar dos tantos pesares, existiram e existem Virginias, Clarices, Cecílias, Carolinas de Jesus, Chimamandas…que conseguiram segurar as palavras com a força de seus desejos para não caírem no precipício do não dito e do não feito. Ainda bem que emitiram e que estamos recebendo. Mas todas pagamos um preço. Como disse Angela: a liberdade é uma luta constante.

Assim como a realidade é uma criação constante. Portanto, quando uma mulher conquista a palavra, ela conquista também um território, a história e o próprio corpo, corpo não outro, que permite eventualmente sentir o sopro de vida que nele se origina. No movimento, então, podemos alcançar a palavra que nos faz nascer mais uma vez. Pois,
embora a linguagem crie laços, ela também nos desamarra, através da língua e da fala, de pré “conceitos” sobre nós mesmos. Aproveito o famoso “não se nasce mulher, torna-se mulher” e acrescento “não se nasce mulher, se renasce mulher”.

Creio que escrever é uma das possibilidades de renascermos.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Médica, escritora e mestranda em psicanálise na Sorbonne em Paris

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