Letícia Cesarino

Antropóloga, professora e pesquisadora na Universidade Federal de Santa Catarina. Autora de 'O Mundo do Avesso: Verdade e Política na Era Digital'

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As ‘leis de mercado’ da misoginia contemporânea

Na linguagem mercadológica, os relacionamentos afetivos e sexuais são entendidos em termos financeirizados de investimento, consumo, trabalho e otimização

As ‘leis de mercado’ da misoginia contemporânea
As ‘leis de mercado’ da misoginia contemporânea
(Reprodução/Instagram)
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Nas relações entre tecnologia e sociedade, parece haver um padrão em que ecossistemas extremos que surgem e crescem protegidos em ambientes mais fechados chegam, em algum momento, a um ponto repentino de ebulição, subindo de vez à superfície e tomando de assalto a esfera pública.

Foi o caso da explosão do bolsonarismo nas eleições de 2018, da desinformação em saúde na pandemia da Covid-19, da pedofilia e abusos contra crianças com o vídeo viral da “adultização”. Atualmente, parece estar em curso mais um processo desse tipo, com um crescimento de violências offline contra mulheres e meninas associadas à ideologia misógina de comunidades online.

Nas últimas semanas, ideias e termos associados a essa subcultura digital tornada mainstream foram extensivamente divulgados e explicados: incels, PUAs, MGTOWs, MRAs, red pill, black pill… A machosfera, contudo, não oferece apenas novos nomes para um fenômeno antigo, mas conforma todo um sistema de pensamento próprio que, erigido sobre as bases da nossa cultura machista e patriarcal, passou a se diferenciar dela enquanto uma forma de radicalização. Como tal, fundamenta-se em supostas verdades eternas e imutáveis — no caso, relativas à desigualdade e à hierarquia entre homens e mulheres.

A base mais evidente dessa crença é, provavelmente, o conservadorismo cristão, com seu peculiar mito de criação dos dois gêneros no livro do Gênesis. Contudo, na machosfera, essa gramática religiosa parece ser menos central do que uma composição pós-neoliberal entre psicologia evolutiva e gestão financeira. Por um lado, teses pseudocientíficas naturalizam hierarquias entre machos provedores e fêmeas submissas, bem como entre machos “alfas” e “betas”, que competiriam entre si pelo acesso às “melhores” fêmeas. Esse determinismo biológico é repaginado no fatalismo típico dos incels, segundo o qual características genéticas como altura, constituição corporal e inteligência (medida por QI) restringiriam suas chances em um mercado sexual supostamente corrompido pelo feminismo, que teria retirado de boa parte dos homens a liberdade de escolha de parceiras.

Por outro lado, essa gramática biologizante se retroalimenta de uma linguagem mercadológica, na qual os relacionamentos afetivos e sexuais são entendidos em termos financeirizados de investimento, consumo, trabalho e otimização. Na machosfera, há todo um repertório para categorizar machos e fêmeas em termos de seu ‘valor de sexual de mercado’ (VSM), que poderia ser manipulado para compensar déficits biológicos por meio do dinheiro. Assim, “defeitos” físicos poderiam ser compensados por meio de procedimentos , como cirurgias (às vezes caseiras) para alcançar uma “mandíbula de Chad” – o chamado looksmaxxing. Os Pickup Artists (PUAs) — mestres da sedução e manipulação da machosfera clássica — transformaram-se hoje em uma verdadeira indústria mainstream de dicas, cursos, palestras, produtos e até excursões voltadas a conseguir mulheres consideradas de “nível compatível”.

Existe, portanto, toda uma base mercadológica da misoginia contemporânea que entende as mulheres como objetos de consumo e ostentação (“esposas troféu” a serem exibidas para outros homens), suscetíveis ao dinheiro (e portanto interesseiras e pouco confiáveis) e passíveis de investimento (em sustento diário, viagens, procedimentos estéticos) a ser realizado – e cobrado – pelos homens “provedores”.

No Brasil, esse aspecto da misoginia redpill ficou evidente no caso recente da morte de Gisele Santana. Mensagens trocadas entre ela e o acusado, seu então marido Geraldo Neto, revelaram uma associação tão explícita com essa ideologia que chega a ser caricatural. Geraldo se auto-intitulava “macho alfa provedor”, se referindo à esposa como “fêmea beta obediente e submissa”; insistia que, enquanto ela vivesse “na minha comanda”, não poderia “ter liberdade”; confrontado com a perspectiva de separação, afirmou peremptoriamente que, solteira, ela “nunca será”.

O controle obsessivo demonstrado pelo agressor tinha a ver não apenas com valores conservadores, mas financeiros. Geraldo falava abertamente da troca de “carinho, atenção, amor e sexo” por dinheiro, exigindo da esposa retorno pelo seu investimento. Na conversa gravada entre ele e outro policial ainda no local do crime, se preocupou em detalhar todos os gastos que tinha com Gisele e a filha dela: colégio, aluguel, condomínio, água, luz e internet, e ainda uma quantia mensal para “ajudar”, uma vez que o pai da menina só contribuía com “500 reais”.

Na machosfera , mulheres que passam dos 30 anos tornam-se objeto de extrema suspeição, especialmente se forem mães solo. Em geral, são vistas como oportunistas que, após “gastarem” a juventude com ‘machos alfa’, passariam a buscar ‘homens beta’ para financiar seus gastos e os de seus filhos. Gisele, com 32 anos e uma filha de relacionamento anterior, parecia se encaixar nesse perfil. Aparentemente, seu agressor fazia de tudo para não ser percebido como um “beta” explorado por ela: controlava desde as roupas que a esposa podia vestir, o perfume e a maquiagem que deveria usar, até com quem poderia conversar e que fotos postar.

Por fim, a inversão prometida pela redpill, em que homens passariam de escravos a senhores, se manifesta na listagem de virtudes auto-atribuídas que Geraldo, enviou à esposa: “Sou Rei. Religioso. Honesto. Trabalhador. Inteligente. Saudável. Bonito. Gostoso. Carinhoso. Romântico. Provedor. Soberano.”

Tomados em conjunto, esses atributos extrapolam o ecossistema redpill para resvalar em segmentos adjacentes como o conservadorismo cristão, o libertarianismo e a extrema direita política – sugerindo que a misoginia está deixando de ser um nicho específico de radicalização para se tornar a base comum de um extremismo cada vez mais mainstream.

A opinião de colunistas e convidados não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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