Paulo Nogueira Batista Jr.

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Economista. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, e diretor-executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países

Opinião

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À ‘turma da bufunfa’ interessa domesticar um provável governo Lula

Vemos um deslocamento da atividade política para uma disputa de espaço dentro de um provável governo Lula. Não adianta, leitor, dizer que isso é prematuro. O processo já começou

O ex-governador Geraldo Alckmin (sem partido) e o ex-presidente Lula (PT). Foto: Ricardo Stuckert
O ex-governador Geraldo Alckmin (sem partido) e o ex-presidente Lula (PT). Foto: Ricardo Stuckert
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Começo o ano tratando daquilo que é a principal fonte de esperança para todos que se preocupam com o nosso país, as eleições presidenciais de 2022. Para colocar o tema em perspectiva, talvez seja útil retroceder no tempo, digamos, seis ou sete meses, para meados de 2021.

Qual era a situação naquela época?

Lula já aparecia como favorito nas pesquisas de intenção de voto, mas com duas ressalvas importantes. Primeira, havia a expectativa, alimentada intensamente pela mídia, de que se pudesse viabilizar uma “terceira via”. E, segunda ressalva, existia a percepção de que Bolsonaro, que atravessava um ponto baixo, iria se recuperar politicamente.

A terceira via, como se sabe, não decolou. O fiasco do lançamento da candidatura Moro parece ter sepultado esse caminho. Digo “parece” porque, em política, as previsões são sempre altamente temerárias. Mas como apostar que, em menos de dez meses, ainda seja possível tornar competitivo Moro ou algum outro nome? Possível, talvez. Provável, não.

O fortalecimento de Bolsonaro também não se materializou. Ao contrário, as suas dificuldades políticas aumentaram, uma modificação crucial em comparação com o quadro de seis ou sete meses atrás. Em meados de 2021, o professor Marcos Nobre, da Unicamp, um qualificado analista da cena política brasileira, sustentava que Bolsonaro seria um candidato “fortíssimo” à reeleição. Eu mesmo, sem chegar a esse extremo, alertei aqui nesta coluna para o risco de que Bolsonaro viesse a se fortalecer até as eleições.

Essa expectativa de recuperação de Bolsonaro se baseava em previsões que não se confirmaram, pelo menos não até agora: 1. A melhora do quadro econômico. 2. O avanço da vacinação e a diminuição do ônus político representado pela pandemia. 3. O uso da máquina governamental e dos instrumentos de poder pelo presidente no exercício do cargo, ponto para o qual alertou o próprio Lula.

Nada disso aconteceu. O nível de atividade econômica, medido pelo PIB, estagnou desde o segundo trimestre de 2021. O desemprego cedeu, mas pouco, permanecendo em nível muito elevado. Os postos de trabalho gerados foram sobretudo empregos informais, de menor remuneração e pior qualidade. Para os analistas da conjuntura econômica, o mais surpreendente foi a persistência da inflação. A inflação alta corroeu o poder de compra dos salários. Desemprego e carestia – receita para o insucesso político.

O avanço da vacinação ocorreu, sim, salvando vidas. Mas esse sucesso não foi, nem poderia ser, creditado ao governo federal. A CPI da Pandemia, com grande cobertura da mídia corporativa, que tentava sem sucesso abrir caminho para uma terceira via, desgastou Bolsonaro, colando nele a imagem de responsável pela maior parte das mais de 600 mil mortes. A ideia de que os brasileiros esqueceriam gradualmente a tragédia e suas vítimas não se confirmou, felizmente. E o novo surto da doença desde dezembro, resultante da chegada da variante Ômicron, mantém viva a questão da pandemia e a da irresponsabilidade e incompetência do governo Bolsonaro no seu enfrentamento.

Quanto ao uso da máquina e dos instrumentos de poder, o que se viu foi uma desorganização crescente do governo. Bolsonaro conseguiu comprar a sua sobrevivência, evitando o impeachment, mas foi incapaz de atuar de maneira coordenada e eficiente. Caiu nas mãos do “Centrão”, que sabe defender suas pautas específicas, mas não dá norte a governo nenhum. As tentativas de Bolsonaro de “fidelizar” a sua base radical, com declarações e medidas estapafúrdias, aumentaram a sua rejeição e agravaram o seu isolamento.

Assim, o favoritismo de Lula cresceu e já parece possível, ainda que talvez não provável, uma vitória no primeiro turno. Crescem as adesões à sua candidatura, com apoios que transcendem a esquerda e a centro-esquerda. Quase diria que, a exemplo de Getúlio Vargas na eleição de 1950, Lula pode vencer “sem sair de São Borja”.

O que estamos vendo agora é um deslocamento da atividade política para uma disputa de espaço dentro de um provável governo Lula. Não adianta, leitor, dizer que isso é prematuro. O processo já começou.

Do ponto de vista dos meus queridos amigos da “turma da bufunfa”, o que interessa é domesticar ou colonizar o futuro governo, garantindo que o Lula 3 seja o mais parecido possível com o Lula 1 – período em que Palocci era o ministro da Fazenda e Meirelles, o presidente do Banco Central. No Lula 1, o que aconteceu foi um plágio descarado. A política de Palocci era uma cópia pura e simples da política do seu antecessor, Pedro Malan. Faltou pagar direitos autorais.

Lula aceitará repetir o script? Veremos. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1192 DE CARTACAPITAL, EM 26 DE JANEIRO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “As eleições de 2022”

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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