As canções que vocês fizeram pra mim

Mesmo aqui confinado eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços, tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva

Fonte: Roberto Parizotti/FotosPublicas

Fonte: Roberto Parizotti/FotosPublicas

Opinião

Não são mais oito milhões de habitantes, de todo canto e nação, que se agridem cortesmente, correndo a todo vapor e amando com todo ódio, se odeiam com todo amor. São muito mais, se multiplicaram, cresceram, são bem mais que oito milhões. Nunca tinha vivido confinado por tanto tempo desde que aqui cheguei, quando ainda não havia Rita Lee para mim e os Novos Baianos passeavam na sua garoa, curtindo numa boa. Hoje, de noite, eu não rondo mais a cidade a te procurar, sem encontrar. Não volto mais pra casa abatido, desencantado da vida. Só o sonho alegria me dá porque nele você está. Nas bancas, não existe mais o Notícias Populares. Por isso, não sei se amanhã vai dar na primeira edição: cena de sangue num bar da Avenida São João. O povo oprimido continua nas filas, nas vilas, favelas. A força da grana ainda ergue e destrói coisas belas. A feia fumaça ainda sobe apagando as estrelas. Mesmo aqui confinado eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços, tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva. Nenhum outro som no ar pra que todo mundo ouça. Eu agora vou cantar para todas as moças, eu agora vou bater para todas as moças, eu agora vou dançar para todas as moças, para todas Ayabás, para todas elas. Eu não posso mais ficar aqui a esperar que um dia de repente você volte para mim. Aqui dentro, o sol não queima mais o meu rosto. Ainda existe um resto de esperança de ver de perto o seu olhar que eu trago na lembrança. Não me pergunte, não me responda, não me procure e não se esconda. Não diga nada, saiba de tudo, fique calada, me deixe mudo. Preciso acabar logo com isso, preciso lembrar que eu existo. 

Hoje eu vou fugir de casa, vou levar a mala cheia de ilusão. Vou deixar alguma coisa velha esparramada toda pelo chão. Vou correr num automóvel enorme e forte, a sorte e a morte a esperar. Vultos altos e baixos que me assustavam só em olhar. Pra onde eu vou, venha também. Eu vou pra Maracangalha. Eu vou de liforme branco, eu vou de chapéu de palha, eu vou convidar Anália e se a Anália não quiser ir, eu vou só! Faróis altos e baixos que me fotografam a me procurar. Dois olhos de mercúrio iluminam meus passos a me espionar. O sinal está vermelho e os carros vão passando e eu ando, ando, ando. Minha roupa atravessa e me leva pela mão do chão, do chão, do chão. Como vai? Eu vou indo e você, tudo bem? Tudo bem, eu vou indo correndo pegar meu lugar no futuro, e você? Tudo bem, eu indo em busca de um sono tranquilo, quem sabe? Vamos fugir deste lugar, baby. Estou cansado de esperar que você me carregue. Vamos fugir pra onde haja um tobogã e que a gente escorregue. Todo dia de manhã, flores que a gente regue, uma banda de maçã, outra banda de reggae. Vamos pegar o primeiro avião com destino a felicidade. Eu quero ir, minha gente, eu não sou daqui. Eu não tenho nada, quero ver Irene rir, quero ver Irene dar sua risada. 

Sonho com serpentes, com serpentes do mar, largas, transparentes. E quando a mato, aparece uma maior. Sonho também com bichos escrotos saindo dos esgotos, bichos estranhos, metade peixe, asas de dodô, metade cão. Mas sonho também com nuvens de chumbo, branquinhas, viagens de avião. Sonho com muitas aves, de todos tipos, de todas as cores. Garças, flamingos, tuiuiús, pelicanos, gaivotas meninas de asas paradas voando no sonho. Eu tive um sonho que eu estava certo dia num congresso mundial discutindo economia. Argumentava em favor de mais trabalho, mais emprego, mais esforço, mais controle, mais-valia. Falei de polos industriais, de energia. Demonstrei de mil maneiras como que um país crescia e me bati pela pujança econômica baseada na tônica da tecnologia. Nos sonhos, estou sempre nu, como um índio do Xingu. Entre uma da madrugada e seis da manhã, é a hora que saio de casa para sonhar, há cento e dezessete dias. E de repente, quem diria? Etelvina, acertei no milhar! Ganhei quinhentos contos, não vou mais trabalhar. Você dê toda roupa velha aos pobres e a mobília podemos quebrar. Até que enfim agora sou feliz, vou passear a Europa toda até Paris. Eu vou! Por que não? Por que não? Por que não?

Músicas citadas:

São São Paulo (Tom Zé), Sampa (Caetano Veloso), Ronda (Paulo Vanzolini), As Ayabás (Maria Bethânia), Sentado à beira do caminho (Erasmo Carlos), Me deixe mudo (Walter Franco), Fuga número 2 dos Mutantes (Mutantes), Maracangalha (Dorival Caymmi), Vamos Fugir (Gilberto Gil), Irene (Caetano Veloso), Liga pra mim (Leandro e Leonardo), Sueño com Serpientes (Milton Nascimento e Mercedes Sosa), Bichos Escrotos (Titãs), Gaivota (Gilberto Gil), Um sonho (Gilberto Gil), Etelvina (Jorge Veiga), Alegria Alegria (Caetano Veloso.)

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Jornalista e escritor, prepara o lançamento do “Almanaque Maurício Kubrusly”, pela Panda Books.

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