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As ameaças ainda não esvaziaram, mas seu ocaso tampouco está distante
‘As trevas relutam sempre em partir, porque sabem nada poder com as luzes’
“Quando perguntavam a Sócrates de onde ele vinha, respondia que era um cidadão do mundo. Ele se considerava um cidadão do universo.”
Cícero
Um dos episódios mais obscuros da Farsa Jato foi a prisão do almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, principal responsável pelo programa nuclear brasileiro, que permitiu ao País dominar toda a cadeia produtiva da energia nuclear – por meio da tecnologia da ultracentrifugacão.
No Irã, com coautoria de Israel, o império assassina cientistas responsáveis pelo desenvolvimento nuclear. Como somos considerados mero quintal, ou “jardim da frente”, nas palavras de Biden, aqui os cientistas foram presos, poupando os algozes, induzindo-os ao suicídio. Não somos mais o País do futebol, mas estávamos nos tornando o de juízes ladrões.
Até na metrópole, a situação não é menos grave: a congressista negra Cori Bush teve seu carro recentemente baleado em Saint Louis. Ela defendera a redução do orçamento das polícias.
Na verdade, os detentores de prisões e de armas – policiais e militares – agem como poder moderador, exclusivamente na medida em que as sociedades estejam polarizadas do ponto de vista socioeconômico. Na proporção em que essa situação arrefece, perdem a “legitimidade” que as oligarquias temerosas dos conflitos sociais lhes conferem ao arrepio da lei e da legalidade constitucional.
O histórico das intervenções militares no Brasil confirma essa tese. Por isso, esperar daqueles segmentos a promoção da justiça e da paz é simplesmente augurar o irrealizável, desejar que defendam a própria extinção, o que não configura expectativa razoável.
A esse respeito, valem as reflexões de Ivo Andric, diplomata iugoslavo e Prêmio Nobel de Literatura 1961, em um de seus livros mais importantes, Ponte sobre o Drina (editora Grua): “As pessoas que não trabalham e nada realizam na vida perdem a paciência facilmente e cometem erros quando julgam o serviço alheio.”
No posfácio àquela obra, Aleksandar Jovanovic recorda-nos que em Crônica de Travnik, outro importante romance de Andric, encontra-se belíssima reflexão sobre o desafio da alteridade: “Ninguém sabe o que significa nascer e viver sobre a borda existente entre dois mundos, conhecer e entender a um e a outro, e nada poder fazer para que eles se expliquem um ao outro e para que se aproximem, amar e odiar um e outro, hesitar e manter-se fiel a vida inteira, ter duas pátrias sem ter nenhuma, estar em casa em toda parte e permanecer estrangeiro para sempre (…) Esses são seres da fronteira, espiritual e física, de uma linha negra e sangrenta traçada após um desentendimento grave e absurdo entre as pessoas, entre criaturas divinas, entre as quais não deve haver nem pode haver fronteiras. Essa é aquela borda entre o mar e a terra, condenada a movimento e intranquilidade eternos. Esse é o terceiro mundo em que se depositou toda a maldição que se seguiu à divisão da terra em dois mundos.”
No belo romance do escritor gaúcho Menalton Braff, Além do Rio dos Sinos (editora Reformatório), um sentimento de conforto, de vitória sobre o medo nos vem ao encontro, em tempos ainda tão difíceis para nós: “Agora eles sabem que a sobrevivência é possível, difícil e trabalhosa, mas possível. As ameaças, que pareciam vir de qualquer lado, não fazem mais sentido. Esvaziaram.”
No caso brasileiro, ainda não esvaziaram, mas seu ocaso tampouco está distante.
Em O imperialismo sedutor, de Antonio Pedro Tota (editora Companhia das Letras), o autor nos recorda: “A Política de Boa Vizinhança foi obra do governo de Franklin Delano Roosevelt… E na 7ª Conferência Pan-Americana, realizada em Montevidéu em 1933, Cordell Hull, o secretário de Estado, disse: ‘Nenhum Estado tem o direito de intervir nos assuntos internos e externos de qualquer outra nação’… Apesar das declarações do presidente e do secretário, houve intervenções veladas e não armadas. O exemplo mais evidente foi o caso de Cuba.”
Mais recentemente, o caso do Brasil também fica cada dia mais evidente.
Na obra citada, o professor Tota esclarece como os mecanismos de manipulação da opinião pública nacional para os interesses do império foram se transmutando ao longo do tempo e ao sabor das conveniências: “A agência criada em 1940, sob o nome de Office for the Coordination of Commerce and Cultural Relations between the American Republics, que em 1941 mudou seu nome para Office of the Coordinator of Inter-American Affairs e, em 1944, passou a chamar-se Office of Inter-American Affairs, foi finalmente extinta por um ato do presidente Harry Truman, em maio de 1946. A ‘fábrica de ideologias’ havia sido fechada. Não tinha mais serventia.”
Sim, o terreno aqui fora lavrado com o joio, que aprisionaria o trigo, pelo lawfare, a manipulação do direito com fins político-partidários.
Sumariando a obra, o professor Tota aclara: “Os meios de comunicação…foram usados pedagogicamente para americanizar o Brasil. Houve um projeto de americanização, quer dizer, ações deliberadas e planejadas visando a um objetivo. A existência desse projeto não exclui o processo de americanização conduzido pelas forças de mercado. Ao contrário, há evidências da imbricação dos dois processos.”
As trevas relutam sempre em partir, porque sabem nada poder com as luzes.
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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