Opinião
Arrancada Heroica
Entre a mudança de nome em plena guerra e a histeria virtual por causa da camisa a Bad Bunny, o Palmeiras já enfrentou acusações bem mais graves do que as de hoje
O burburinho desatado na mídia, motivado pela apresentação da camisa alviverde com dizeres Benito 1964 forneceu argumentação para os adversários. Nas redes sociais, a turma do contra despejou uma saraivada de increpações que sublinhavam o caráter fascista das origens palestrinas.
A tigrada ressentida interpretou Benito como referência a Benito Mussolini, líder da Itália fascista. No entanto, o Benito, inscrito às costas da camisa alviverde, é o nome do artista portorriquenho que adotou o pseudônimo artístico Bad Bunny. Benito, o Bad Bunny vai apresentar seu talento no Allianz Parque, dias 20 e 21 de fevereiro
Diante dos atropelos dos adversários, ocorreu-me relembrar o episódio de 1942.
Pois, nos idos de 1942, um “paraíba”, capitão do Exército Brasileiro, fincou a paixão ítalo-brasileira em minha alma de nascituro. Prestes a abandonar o útero de minha mãe, ouvia meu pai narrar a Arrancada Heroica. Não acreditam? No dia 20 de setembro de 1942, Palmeiras nascia campeão das entranhas do Palestra Itália, assim como eu deixaria as entranhas de minha mãe para viver esse amor intenso por toda a vida.
Transferido para São Paulo naqueles anos, o Capitão Adalberto Mendes apaixonou-se pelo clube dos italianinhos. Os carcamanos eram massacrados pelos “patriotas” de então. Empenhados em surrupiar o patrimônio dos desqualificados “quintas-colunas”, os precursores nativos dos admiradores de Brilhante Ustra e Bolsonaro deflagraram uma campanha devastadora.
Em um depoimento à mídia palmeirense, o capitão Adalberto Mendes descreveu as ameaças que pairavam sobre o Palestra às vésperas da decisão contra o São Paulo Futebol Clube. “A pressão aumentava de forma espantosa. Jornais estampavam manchetes colocando o Palestra Itália como ‘camisas pretas’, uma alusão às nações inimigas do País. Foi quando o presidente Ítalo Adami decidiu, durante uma reunião que se estendeu até as 4 horas da madrugada e contra a minha vontade, alterar o nome do clube para Sociedade Esportiva Palmeiras.
Estávamos as vésperas de um jogo decisivo contra o São Paulo Futebol Clube, a equipe do Dr. Paulo Machado de Carvalho. Boatos diziam que haveria um clima de muita hostilidade por parte da torcida para com nossos jogadores, que realmente estavam preocupados. Percebi isso e notei também que nosso treinador, Del Debbio, tinha em mãos uma bandeira brasileira.
Eu sabia que a exibição do pavilhão nacional só era permitida em eventos internacionais, mas chamei a responsabilidade para mim e orientei nossos atletas a entrarem, ao meu lado, carregando-o e exibindo-o à toda a torcida que superlotava o Estádio do Pacaembu. Após alguns segundos de surpresa de todos, fomos muito aplaudidos e nenhum ato hostil nos foi desferido.”
O capitão Adalberto Mendes não se acovardou. Na decisão contra o São Paulo FC, entrou à frente da esquadra ex-palestrina, agora palmeirense. Enfunada, a bandeira brasileira era empunhada por Oberdan, Waldemar Fiume, Cláudio Cristóvam Pinho, Og Moreira, Etchevarrieta, Lima.
Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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