Armai-vos uns aos outros

'O cidadão que agora se sente protegido por esse discurso se sentirá frágil frente à vida. Com mãos vazias ou armadas', escreve Talitha Haia

Foto: Agência Brasil

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Opinião

Em um estado não-laico, não estamos a salvo dos mandamentos de Bolsonaro. “O que eu vos mando é que armai-vos uns aos outros, assim como eu estou armado”. Na sexta feira 12 deste mês, o atual presidente assinou decretos que flexibilizarão a compra e uso de armas no Brasil. Mãos aos alto! Já somos um dos países mais violentos do mundo e, vê-se, a paz ainda não está ao nosso lado.

Em teoria, isto facilitaria o acesso a armas ao cidadão comum, ou cidadão de bem, termo que já vem acompanhado de disfarces violentos relacionados à alteridade, que bem se defenderia de um outro alguém percebido, pela lente de seus interesses, como não “de bem”.

Na ânsia de acreditar no porte de armas como medida de segurança, o brasileiro comum dará um tiro no pé. O cidadão que agora se sente protegido por esse discurso, será o mesmo que, com mãos vazias, ou armadas, se sentirá frágil frente à vida ou à morte inescapável. A literatura de Guimarães Rosa, na voz de um sábio homem comum, já anunciava: “Uma coisa é pôr ideias arranjadas, outra é lidar com País de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias…”.

Bolsonaro com seu discurso, que se transforma em atos, abstém-se propositalmente da realidade do lugar de onde fala, um País com já altos índices de violência doméstica, homicídios, suicídios…Um país já controlado por milicianos e os ditos bandidos. Os que já tem nas mãos o gatilho.

O cidadão que agora se sente protegido por esse discurso, será o mesmo que, com mãos vazias, ou armadas, se sentirá frágil frente à vida ou à morte inescapável

Esta medida, é um fast food das políticas públicas ineficientes que, além de não nutrir, faz mal à saúde. Ou seja, além de não agir contra a violência, a alimenta. É um retrato da biopolítica de Foucault ou ainda da Necropolítica de Mbembe: a possibilidade da violenta morte ameaçando e controlando a vida de determinados corpos. Com licença para matar, o discurso e as relações de poder definem quem vai e quem pode ficar.

 

Sabendo sobre o sertão de ser homem, Rosa, na mesma obra, o Grande Sertão Veredas, escreveu: “O senhor não duvide – tem gente, neste aborrecido mundo, que matam só para ver alguém fazer careta…”

 

Grande Sertão também fala sobre o perigo dos diabos que não queremos ver. “A gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo”. Por isso, é necessário que reconheçamos a existência dos demônios entre e em nós. Veredas pode significar caminho estreito, atalho ou senda. Neste caso, em nome da segurança, acreditar no porte de armas como medida de proteção é um atalho que custará, em valor de vida, caro.

Freud também falou sobre a mesma inclinação do homem à violência. Em uma carta em resposta à Albert Einstein Por que a Guerra?, diz que embora não possamos escapar de nossos impulsos agressivos, podemos desviá-los dos caminhos da guerra. Indo ao encontro do Eros, o antagonista da pulsão de destruição, chegamos aos laços afetivos, ao sentimento de comunidade, à identificação, estruturas da sociedade humana, e à civilização.

Milícias dentro do governo e mandamentos à parte, alguns cidadãos no momento da cruz, ao lado de semelhantes ou bandidos, se perguntarão “Pai, ou estado, por que me abandonaste?”. E, como resposta, ainda não se sabe se o som audível será o do silêncio ou o do gatilho entre os dedos…

Shakespeare, outro grande nome da arte de escrever e pensar a humanidade, em A Tempestade escreveu: “O Inferno está vazio e todos os demônios estão aqui.”

Então, que encontremos a tempo saídas, ou veredas, na educação, na comunidade, na política e na arte. É importante não esquecermos que ainda vivemos.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Médica, escritora e mestranda em psicanálise na Sorbonne em Paris

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