Aposta nos colégios militares é um projeto de conservadorismo moral

Educar é preparar as pessoas para o pleno exercício da cidadania, o que exige capacidade de pensar por si próprio e de questionar

Imagem de Paulo Freire em muro de escola em Salvador

Imagem de Paulo Freire em muro de escola em Salvador

Opinião

A militarização das escolas públicas no país tem sido proposta como resposta à violência no ambiente escolar. A estudantes supostamente violentos, a farda, a imposição de regras, o ensino da obediência cega como soluções. Não é incomum que se argumente que a educação militar é necessária para estudantes que não recebem disciplina em casa. Famílias desestruturadas, com filhos sem respeito por limites, que precisam de disciplina rígida, pelo bem de si mesmos e dos estudantes da mesma escola – é a narrativa de muitos conservadores que justificam a militarização das escolas públicas. Narrativa que tem como premissa a indignidade – do povo pobre da periferia, das famílias chefiadas por mulheres, e das próprias crianças e adolescentes tidos por violentos.

Educação gratuita e de qualidade é direito de todos – e, para isso, os colégios militares não são a solução. Filhos de militares têm prioridade na matrícula, e são cobradas taxas administrativas, além dos custos com fardamento. Os índices de desempenho educacional, de fato, sobem; mas porque o perfil socioeconômico da escola muda. A aposta nos colégios militares, assim, não é um projeto de educação pública – é um projeto de conservadorismo moral. É a tentativa de conter algo que se percebe rompido e que transborda: a liberdade, a possibilidade de crítica à autoridade, a convicção de que é necessário ser quem se é. Em uma das escolas militarizadas no Distrito Federal, havia um muro com um grafite, com o rosto de Mandela, e a frase “a educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”, que foi pintado de branco. A repercussão provocada pelo apagamento fez com que a arte fosse refeita. A dignidade não se contém.

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É de dignidade que falamos. É o texto constitucional que afirma que um dos objetivos da educação é “pleno desenvolvimento da pessoa” – de cada pessoa, em sua individualidade e singularidade. É só em nossa individualidade e diferença que vamos aprender a viver sem violência e com respeito. É esse o sentido de educar para a cidadania. Mas, no Distrito Federal, quatro escolas foram escolhidas para receberem o projeto de militarização. Entre os critérios anunciados pelo governador, está o elevado índice de violência do ambiente escolar. Em suma: aos violentos, a farda. Policiais armados na função de bedéis. É certo que a violência na escola é um problema grave – e, para isso, há soluções adequadas, como os batalhões escolares. Mas a disputa é no campo moral, e o que se quer é ensinar a obedecer.

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Educar é preparar as pessoas para o pleno exercício da cidadania, que por sua vez, exige capacidade de pensar por si próprio e de questionar, especialmente aqueles em posição de autoridade. Há quem diga que a palavra convence, mas o exemplo arrasta – se é verdade, a lição que se tem dado no Distrito Federal é de indignidade. Foram selecionados “os violentos” – residentes de regiões pobres e periféricas, com índices altos de criminalidade violenta. Não para a eles destinar maiores e melhores investimentos – mais professores de carreira, mais escolas de tempo integral e produção de emprego e renda. Mas para fazê-los marchar e ensiná-los a obedecer sem questionar dentro da escola. Há violência nas escolas, mas não só lá. E a violência dos poderosos é mais perigosa.

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