Após ser farol para o mundo, o Brasil virou uma paródia com Bolsonaro

As demais delegações, atônitas, pareciam perguntar-se como um ser daquela espécie poderia ser um presidente eleito

Foto: POOL / AFP

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Opinião

De fato, os humanos – talvez os seres vivos em geral – estejamos regidos pela leis do coração, da sístole (expansão) e da diástole (contração).

Como viver esse determinismo depende, em grande parte, das nossas culturas e da nossa individualidade.

A lei da alternância verifica-se igualmente nas vidas dos povos. A eras de prosperidade sucedem-se tempos de escassez, por vezes sombrios.

O discurso ultrapassado, raivoso e mentiroso do desgovernante brasileiro na abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (AGNU) pode ser visto sob essa ótica.

Após termos sido um farol para o mundo, tornamo-nos paródia, para dizer o mínimo, pois além de ridículo o assassino assumiu naquela tribuna, perante toda a humanidade, o caráter genocida do desgoverno dele, propugnando terapias de charlatão, responsáveis pelo assassinato de centenas de milhares de brasileiras e brasileiros, inclusive povos originários, além da brutal destruição da fauna e da flora, que resultou na alteração do clima de todo o planeta.

As demais delegações, atônitas, pareciam perguntar-se como um ser daquela espécie poderia ser um presidente eleito (o golpe de 2016 e o lawfare que permitiu a eleição do genocida em 2018 não são de todos plenamente conhecidos).

 

 

 

Provavelmente, a manipulação religiosa também jogou um papel importante na eleição do Mefistófeles brasileiro.

Tomando trecho do maravilhoso romance da ganense Ayesha Harruma Attah, O imenso azul entre nós (Editora Globo), vemos como a religião é utilizada para a exploração humana, ao sul do Equador: “A mudança na minha história começou no ápice da estação da noz-de-cola. Perdi a conta, como sempre, de quantas árvores de noz-de-cola Wofa Sarpong nos fez subir. Nós, os pequenos – os filhos dele e as crianças que ele comprou -, subíamos como lagartos, procurando lugares distantes um dos outros para colher o máximo de frutos que conseguíamos. Wofa Sarpong nos dizia que a noz-de-cola era um presente de Deus, e que Deus ficaria zangado se não pegássemos tudo o que ele nos tinha dado.”

Se estivesse na bancada da delegação de Gana na abertura da AGNU, provavelmente a pequena Hassana também teria feito a mesma reflexão que fizera sobre as formigas, a seguir: “Eu poderia observar as formigas por dias. A forma como realizavam o trabalho, uma de cada vez, e se uma delas entrasse em apuros, todas se juntavam para ajudar. Naquele dia, fui tomada por uma tristeza impressionante ao perceber como criaturas tão pequenas podiam demonstrar tanta gentileza umas com as outras, enquanto pessoas como Wofa Sarpong e os homens que nos sequestraram não tinham nada para oferecer, além de crueldade.”

De Gana para a Nigéria, Chimanda Ngozi Adichie, em Hibisco Roxo (Companhia das Letras), vem em nosso auxílio para definir importante habilidade que mais de um diplomata terá exercitado naquele momento de constrangimento da abertura da AGNU: “Ele esconde bem o que sente.”

No belo e forte romance da escritora nigeriana, somos recordados da vida na Nigéria, após o golpe de estado militar, movido pelas potências do Norte, em nome das petroleiras com sede em seus países de origem (as semelhanças com a carestia do Brasil pós-golpe não são meras coincidências): “Veja o que esse tirano militar está fazendo com nosso país…Não temos combustível em Nsukka há três meses. Na semana passada fiquei a noite toda no posto de gasolina esperando abastecer. E, no fim, o combustível não chegou. Algumas pessoas deixaram os carros no posto, pois não tinham combustível suficiente para voltar para casa…Tirei meu velho fogão a querosene do armário…É ele que usamos agora; nem sentimos mais o cheiro de querosene na cozinha. Sabe quanto custa um cilindro de gás de cozinha? É um absurdo.”

“Ela se coçou, aborrecida, pensando em como a vida nunca era constante. Bons tempos pareciam nunca durar.” Ayesha Harruma Attah.

No livro, a nigeriana adverte-nos sobre o preço da omissão dos adultos sobre as gerações futuras: “…Okafor não devia ficar surpreso nem desperdiçar energia quebrando um galho no corpo de seu pobre filho. É isso que acontece quando você fica de braços cruzados e não faz nada para impedir a tirania. Seu filho vira alguém que você não reconhece.”

Com efeito, as consequências dos golpes de estado só não mais similares do que suas causas (o controle estrangeiro sobre o petróleo nacional). Lembra-nos a escritora nigeriana, mais uma vez, sobre as dramáticas consequências da ruptura democrática: “Os que estudaram vão embora, aqueles que têm potencial para consertar o que está errado. Eles deixam os fracos para trás. Os tiranos continuam reinando porque os fracos não conseguem resistir. Você não vê que é um círculo vicioso? Quem vai quebrar esse círculo?”

Ao notar que os povos caminham e que a caminhada inclui íngremes subidas, raros atalhos e múltiplas emboscadas, a autora reflete com sua personagem sobre a sorte dos países na estrada que conduz a se tornarem nações: “Existem pessoas…que acham que nós não conseguimos governar nosso próprio país, pois nas poucas vezes em que tentamos nós falhamos, como se todos os outros que se governam hoje em dia tivessem acertado de primeira. É como dizer a um bebê que está engatinhando, tenta andar e cai de bunda no chão que ele deve permanecer no chão. Como se todos os adultos que passam por ele não houvessem engatinhado um dia.”

As últimas pesquisas apontam que, apesar das rasteiras imperialistas de 2016 e 2018, estamos a um ano de ficar novamente de pé.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da Organização das Nações Unidas (ONU) e representante, alterno, do Ministério das Relações Exteriores no extinto Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

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