Ao (re)pensar a escola, é fundamental levar em conta os impactos da Covid sobre os estudantes

O fechamento das escolas e as mais de 540 mil mortes tiveram impactos severos na trajetória dos estudantes, sobretudo dos mais pobres

Créditos: EBC

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Opinião

Nesta semana, assistindo ao MG1, jornal local da TV Globo Minas, me deparei com uma reportagem a respeito de um bairro de Juatuba, município da região metropolitana de Belo Horizonte. Além da falta de asfalto nas ruas, os moradores não tinham acesso ao saneamento básico, água encanada ou energia elétrica. Um retrato fiel do País desigual e excludente em que vivemos.

Em meio às perguntas da repórter e aos depoimentos dos moradores, me questionei se, nessa situação de tanta precariedade e injustiças, as crianças e jovens que vivem naquele espaço puderam exercer o direito de aprender, uma vez que, ao longo da pandemia, o ensino presencial deu lugar ao remoto. Levando em consideração as imagens e as falas apresentadas no jornal da hora do almoço, é bem provável que a maioria não tenha acesso à internet.

As observações que fiz encontram eco em uma pesquisa realizada pelo Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Infância e Educação Infantil (NEPEI), da UFMG, que ouviu mais de 2.200 crianças mineiras com idade entre 8 e 12 anos ao longo do segundo semestre de 2020. No que diz respeito ao acesso a computadores, celulares, tablets e internet, constatou-se que meninos e meninas que se autodeclararam brancos dispunham desses equipamentos com mais facilidade do que os negros. Ainda de acordo com o estudo, as que residem em regiões de alta vulnerabilidade social são as que mais têm dificuldades para acessar os recursos tecnológicos citados.

Também nesta semana, a BBC Brasil trouxe uma reportagem evidenciando que os impactos da pandemia são muito maiores e mais perversos do que possamos imaginar. Segundo o texto dos jornalistas Mariana Sanches e Matheus Magenta, de março de 2020 a abril de 2021, 113 mil menores de idade perderam o pai, a mãe ou os dois para a Covid-19. O vírus da morte e a negligência no combate à pandemia colocam sobre o Brasil uma cifra assustadora: a cada cinco minutos, uma criança fica órfã no país, o que joga por terra a falsa ideia de que esse grupo é o menos afetado pelo novo coronavírus.

A esses dados, somam-se os números relativos ao abandono escolar precoce por parte dos jovens. Em muitos casos, o fim do vínculo com a escola se dá em função das dificuldades de acesso à internet para o acompanhamento do ensino remoto. Em tantos outros, resulta da necessidade premente de ingressar no mercado de trabalho para ajudar nas despesas familiares, como consequência do desemprego dos responsáveis pelo sustento do lar e também do óbito de pais, mães e avós.

Como se pode ver, a necessidade do fechamento das escolas para preservar a vida da comunidade escolar e as mais de 540 mil mortes ocorridas ao longo dos últimos 17 meses tiveram impactos severos na trajetória dos estudantes, sobretudo dos pertencentes às classes mais pobres. Diante desse cenário, é fundamental que os indicadores aqui apresentados, assim como as várias pesquisas disponíveis sobre o tema, orientem as políticas e práticas pedagógicas no retorno das aulas presenciais.

A necessidade de (re)pensar a escola, juntamente com as metodologias de ensino e os processos avaliativos a partir dos impactos da pandemia, de modo que sejam assegurados os direitos de ingresso, permanência e êxito dos estudantes, se dá em um contexto no qual a negligência e o descaso têm sido a política do Ministério da Educação. Em 2020, o MEC registrou o menor gasto em educação básica da década. Conforme tenho repetido quase que diariamente, a possibilidade de aprender e a manutenção do vínculo com a escola ao longo da pandemia têm ocorrido em grande medida graças aos esforços de professores, gestores e das famílias. São esses atores que exercem protagonismo onde as esferas públicas vêm agindo de forma totalmente omissa.

Na reabertura das escolas e no planejamento escolar, faz-se necessário lembrar das palavras do mestre Paulo Freire: “É impossível ensinarmos conteúdos sem saber como pensam os alunos no seu contexto real, sua cotidianidade. (…) Não podemos deixar de levar em consideração as condições desfavoráveis materiais, que muitos alunos de escolas da periferia experimentam. A precariedade das suas habitações, a deficiência de sua alimentação, a falta, em seu cotidiano, de atividades de leitura da palavra, de estudo escolar, a convivência com a violência, com a morte do que se tornam quase sempre íntimos”.

Mais do que nunca, é preciso elaborar o exercício de aprender e ensinar com foco nos sujeitos, nas famílias. É imprescindível olhar seus percursos com lentes ampliadas, como também estar atento às oportunidades que lhes são dadas e aos direitos que têm sido sistematicamente negados.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. Atualmente tem se dedicado à Formação Inicial e Continuada de Professores. É autora do livro Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula, lançado em 2018 pela Mazza Edições.

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