Opinião

Ao recusar acordo UE-Mercosul, diplomacia francesa faz o que a nossa não fez (e é um alívio)

O tratado em apreço iria dificultar ainda mais a reindustrialização brasileira, tão urgente e necessária

O presidente Lula e o presidente da França, Emmanuel Macron, durante a COP28, em Dubai, em 2 de dezembro de 2023. Foto: Ludovic Marin/AFP
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“Lembre-se de que o passado e o futuro não têm poder sobre você. Em vez de pensar nas coisas negativas que podem lhe acontecer, concentre-se na sua situação atual e pergunte-se: neste exato momento, aqui e agora, tenho algum problema tão sério que não possa administrar? E verá que o presente é sempre mais administrável” Marco Aurélio

O fim do ano vai chegando e parece atrair boas notícias.

Uma delas é a recusa do presidente da França, Emanuel Macron, em assinar o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia.

O que a nossa diplomacia não fez, a francesa fará – e isso é um grande alívio.

O tratado em apreço iria dificultar ainda mais a reindustrialização brasileira, tão urgente e necessária.

É notório que o êxito econômico da China passa, em grande medida, pela prioridade que o país acordou à indústria, tornando o Império do Meio a virtual Fábrica do Mundo.

Ainda temos muitos obstáculos pela frente, mas não podemos descurar, de forma alguma, do desenvolvimento industrial e tecnológico do País. Sem isso, a própria noção de soberania se esvai.

Mas ainda há provas de monta a serem superadas internamente.

Por exemplo, o volume desnecessário de recursos que são alocados às forças armadas, cujo retorno, com exceção de pareceres técnicos e algum apoio logístico à defesa civil, não justifica a enxurrada de dinheiro e emendas parlamentares que recebem anualmente.

Pior, tramita no Congresso proposta de emenda constitucional que visa a destinar 2% do Orçamento Federal às forças armadas.

Evidentemente, o desvario conta com o apoio do ex-vice-presidente e paquita da ditadura, senador pelo RS, um certo moirão…

No front externo, apesar das guerras, genocídios e tanta morte, assistimos a um reviver diplomático, em meio aos escombros da ONU.

Catar e Egito – além de Arábia Saudita e Irã – têm dado um baile de perfeitas relações internacionais: conversam com todas as partes em conflito, algo que ultrapassa a capacidade de entendimento da mídia oligopolizada local.

Com efeito, o provincianismo da imprensa brasuca permite duvidar que exista vida inteligente nas redações – pelo menos em política externa.

À esquerda, o quadro é matizado pelo ufanismo, que rapidamente nos ultrapassa, sendo o perfeito inverso de nosso complexo de vira-lata, situação triste de inferioridade em que vivemos, quando não estamos sob o fugaz efeito da exaltação patriótica.

Nesse sentido, a participação do Brasil na COP28, a Conferência da ONU sobre o Clima, foi impecável, mas ainda nos falta muito chão para alcançarmos um nível mínimo de prevenção e resiliência às mudanças climáticas.

De fato, em Virtudes para um outro mundo possível (editora Vozes), Leonardo Boff relembra:

“A ‘Carta da Terra’ postula ‘prevenir o dano ao ambiente e, quando o conhecimento for limitado, assumir uma postura de precaução; impor o ônus da prova àqueles que afirmarem que a atividade proposta não causará dano significativo e fazer com que os grupos sejam responsabilizados pelo dano ambiental”.

Infelizmente, vimos recentemente o Congresso aprovar o “pacote do veneno”, que flexibiliza ainda mais as regras para a comercialização e a utilização de agrotóxicos.

Isso aumentará ainda mais o ataque do homem à natureza, trazendo danos incalculáveis aos demais seres humanos, animais, vegetais e até minerais.

Destarte, o tema da prevenção e da geração de resiliência deveria ser amplamente debatido pelos setores progressistas.

Falta uma visão estratégica para prevenir e responder aos efeitos das mudanças climáticas sobre todo o território nacional, os quais diferem enormemente entre o norte e o sul, o leste e o oeste do País.

Ao lado disso, caberá decidir se queremos continuar a ter uma “defesa civil” ou se preferiremos “proteção civil”, que talvez seja conceitualmente mais adequada, inclusive para bem demarcar a diferença com relação à “defesa” externa.

Nesse debate, deve-se inserir a posição dos bombeiros, esteio da proteção civil: devem continuar a ser militares, como em muitos estados? Seu trabalho guarda relação com o estamento militar? Não seria preferível que tivessem carreira e formação exclusivamente civis?

Ao lado disso, deve-se discutir a questão dos meios logísticos, atualmente nas mãos das forças armadas.

Não caberia a proteção civil contar com helicópteros, aviões de carga, barcos, hospitais e pontes móveis?

Não deveria contar com estoques próprios de alimentos, tendas de campanha e meios de comunicação, em armazéns espalhados por todo o território nacional?

São perguntas que deveremos buscar responder, o quanto antes, ao lado de levantamento nacional de ocorrências e da visualização dos novos mapas de tendências climáticas, para toda a extensão do País.

Não será trabalho pequeno, mas urgente – e poderá salvar inúmeras vidas. Quanto antes iniciar, menos os mais fragilizados, como populações empobrecidas, indígenas, população carcerária, quilombolas e agricultores familiares sofrerão pela incúria com o meio ambiente de uma minoria que colocou o lucro de poucos à frente da vida, de muitos.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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