Ao contrário do populismo europeu, bolsonarismo é antipopular

A tendência que se observa até aqui: manutenção de um pequeno grupo de bilionários e a pauperização ainda maior da grande massa

Foto: EVARISTO SA / AFP

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Opinião

A nova concepção de autoritarismo em nosso século – a qual chamo de autoritarismo líquido, e que se dá por meio de medidas de exceção no interior de regimes democráticos, e não mais pela formalização de governos de exceção – tem produzido novas formas políticas de populismo. Sobre as modalidades de populismo de extrema-direita é interessante observar uma diferença marcante entre a maneira como se realiza na Europa e nos Estados Unidos e o que ocorre no Brasil, cujas características, tão distintas, tendem a levar a destinos diferentes.

Na Europa, o populismo de extrema-direita também se fundamenta em valores repudiáveis e que devem ser rechaçados por qualquer humanista – o ódio ao estrangeiro, à diferença, a tudo aquilo que, nessa visão, representa uma ameaça à ideia de unidade social. Esse modelo de populismo não reconhece a sociedade como produtora de interesses conflitantes e que disputa decisões – como se pressupõe em regimes democráticos –, mas como algo que deve ser um corpo homogêneo, o que remonta aos valores do totalitarismo e que levou o mundo ocidental a resultados trágicos, como a história nos mostrou.

Contudo, se, por um lado, a receita do novo populismo europeu não se distingue dessa tradição de pensamento e ação de forte negação ao que vem de fora, por outro é caracterizada por uma diferença essencial em relação à modalidade brasileira, que é, como sempre foi, a defesa dos interesses e dos direitos dos seus cidadãos, daqueles nascidos em seus territórios e que integram o seu corpo social. Dessa forma, a extrema-direita europeia acaba por substituir a esquerda num papel clássico de defesa dos trabalhadores, dos desempregados e, atualmente, dos excluídos do processo de globalização, precarizados em relações de trabalho que não lhes oferecem as mesmas garantias de antes.

O congênere brasileiro do fenômeno implica o que a revista The Economist chamou de “a perversão do liberalismo”, por tratar-se de uma versão ainda mais cruel, que conjuga uma ideia de extrema liberdade econômica com autoritarismo político. A vertente brasileira propõe um modelo autoritário de Estado, embora sob uma roupagem democrática, mas, em vez de ocupar o papel na defesa dos direitos sociais e trabalhistas e de busca de uma distribuição de riqueza mais equânime para os seus cidadãos, impõe, para todos, a precarização típica do liberalismo globalizado, acirrando as desigualdades, retirando direitos e fragilizando ainda mais a condição de sobrevivência daqueles mais pobres, mais desprotegidos. Esses fatores colocam o bolsonarismo e o populismo europeu em caminhos opostos.

É de se lamentar que a oposição a Bolsonaro ainda não se tenha centrado nesse aspecto do atual cenário e continue a cair, talvez ingenuamente, na tentação de discutir questões de natureza ideológica no âmbito dos costumes, em vez de aprofundar e desenvolver a crítica no âmbito econômico e social, verdadeiro “calcanhar de aquiles” do governo. Há fartura de argumentos e de evidências. A reforma trabalhista, que tanto benefício acarretaria à economia, segundo seus defensores, nada trouxe. O desemprego segue em ritmo crescente, o que piora os indicadores sociais. A reforma da Previdência, apontada como panegírico, da forma como foi definida, certamente não produzirá o alívio alardeado nem salvará as contas públicas. O mais provável é que beneficie o setor financeiro. Nem mesmo a área de segurança pública, que Bolsonaro elegeu como ponto central de seu governo, apresenta resultados palpáveis.

A tendência que se observa do modelo econômico desenhado até aqui deve ser a manutenção de um pequeno grupo de bilionários e, sobretudo, a pauperização ainda maior da grande massa. Eis o foco, o vértice principal da ação de oposição a esse populismo que não entrega o que promete. Esse é o ponto nevrálgico desse populismo sem povo, que não atende aos interesses daqueles que o apoiam. Um populismo tendente a ter curto espaço de tempo de poder pela desatenção em relação às questões mais imediatas da maioria da população.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Jurista e professor de direito constitucional.

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