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Antissemitismo e antissionismo
O ponto central é a confusão perigosa que os sionistas, poderoso lobby transnacional, tenta fazer entres os dois fenômenos
Volto a um tema que tem dado pano para manga. Qual é o ponto essencial do debate sobre antissemitismo e antissionismo no mundo? Talvez seja a confusão desonesta e perigosa que os sionistas, um poderoso lobby transnacional, tenta fazer entre os dois fenômenos.
O tema é complexo. Remeto o leitor ou a leitora à versão completa deste artigo publicada no site de CartaCapital.
No Brasil, há muitos intelectuais que escrevem com grande competência sobre esse tema – entre outros, Paulo Sérgio Pinheiro, Reginaldo Nasser, Cláudia Assaf, Arlene Clemesha, Glenn Greenwald, Breno Altman e Bruno Huberman. Os três últimos são de origem judaica.
Vamos tentar esclarecer didaticamente a diferença, ainda que correndo o risco de resvalar para o óbvio ululante. Mas não importa. Como dizia Nelson Rodrigues, o óbvio deve ser cultivado, pois ele sempre teve e terá inimigos implacáveis, refletindo uma mistura de burrice, ideologia e interesses.
O que é o antissemitismo? É uma das muitas formas de racismo ou discriminação. Condena-se um povo inteiro, uma raça ou uma etnia, apontando os vícios e as violências de uma parte. Ainda que essa parte seja numerosa e influente, isso constitui uma generalização e, em geral, uma injustiça.
Antissionismo é algo essencialmente diferente. Trata-se da condenação de um projeto político, o sionismo, originado na Europa no fim do século XIX, com o judeu germânico Theodor Herzl, e que resultaria na implantação de Israel na Palestina, em 1948. Uma terra para os “judeus errantes”, pedia-se. Mesmo que isso significasse roubar as terras dos palestinos e cometer contra eles, desde o início e mesmo antes de 1948, toda sorte de violência, terrorismo e discriminação.
Mas, notem bem. Nem todo judeu é sionista. E nem todo sionista é judeu. Há uma sobreposição importante entre judeus e sionistas, mas há muitas exceções. Os três judeus brasileiros mencionados acima, por exemplo. No exterior, o cientista político Norman Finkelstein e o historiador Ilan Pappé, entre muitos outros ilustres.
Há muitos sionistas não judeus. Por exemplo, os sionistas cristãos, em especial os pentecostais e neopentecostais, representados politicamente no Brasil pelas figuras deploráveis de Jair Bolsonaro, seus filhos e Tarcísio de Freitas, que não se envergonham de abraçar a bandeira de Israel e confraternizar com o genocida Benjamin Netanyahu.
De qualquer maneira, os judeus sionistas constituem, provavelmente, a maior parte dos sionistas influentes e endinheirados, o que facilita a confusão que o lobby israelense quer promover entre antissionismo e antissemitismo. No Brasil, conseguiram, por exemplo, fazer com que a deputada Tabata Amaral apresentasse um projeto infame que tenta criminalizar como antissemitas as críticas a Israel e ao sionismo.
Vejam o paradoxo escandaloso. Quem é a principal força antissemita na atualidade? Ninguém menos que Israel! Por dois motivos, pelo menos. Primeiro, porque promove o maior genocídio contra semitas desde a Alemanha nazista. Não podemos esquecer que os palestinos e os árabes em geral são povos semitas. Netanyahu é o maior genocida antissemita desde Hitler.
Segundo, porque o comportamento criminoso de Israel, apoiado pelo lobby sionista no resto do mundo, deu nova vida ao antissemitismo, entendido como discriminação e até ódio contra os judeus. Os praticantes e defensores do assassinato em massa de crianças e mulheres na Palestina por Israel, transmitido em tempo real, tornaram-se ironicamente os principais propagadores do antissemitismo.
Em defesa de Israel deve-se dizer que o país não é o único, longe disso, a ter praticado sistematicamente o genocídio. Israel é na realidade a continuação e desdobramento de algo maior – o colonialismo genocida europeu, uma das piores pragas da humanidade. Nenhuma região do mundo escapou da sanha criminosa dos europeus. Nem a América do Norte, nem a Central, nem a do Sul, nem a África, nem a Austrália, nem a Ásia. E nem os próprios judeus. São tantos os exemplos que nem vou começar a mencioná-los.
Israel dá continuidade a essa tradição tenebrosa. Não por acaso, em geral, os governos norte-americano e europeus deram e ainda dão tanto apoio ao projeto criminoso de Israel.
A verdade é que a história mundial teria sido muito melhor sem a expansão da civilização ocidental ou europeia, principalmente depois da Revolução Industrial, que colocou armas poderosas nas mãos de povos relativamente primitivos, a começar pelos ingleses.
Civilização? Quando questionado certa vez o que achava da civilização ocidental, Mahatma Gandhi respondeu: “Seria uma boa ideia”. •
Publicado na edição n° 1409 de CartaCapital, em 22 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Antissemitismo e antissionismo’
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