Anotações dentro de 100 metros quadrados durante a pandemia

Vivo agora entre água e sabão, entre álcool gel e setenta, entre lives e luvas

Anotações dentro de 100 metros quadrados durante a pandemia

Opinião

A Terra é chata

É não, ficou. Acho que desde que uma voz humana foi substituída por uma metálica fingindo ser gente, pedindo para esperarmos um minuto enquanto encontrava os nossos dados. Até por volta de dois mil e quinze depois de Cristo, acredito eu, era melhor. Ficou chata quando começamos a gritar Fora Temer, quando começamos a postar #foratemer.

Foi ficando cada dia mais chata, essa Terra. Amassei panelas, cheguei a ficar rouco de tanto gritar, fui salvo por lascas de gengibre desidratado e o homem lá, firme. Só largou o osso quando venceu a sua data de validade. Hoje, não suporto usar máscara, e olha que só coloco para receber as encomendas que chegam na minha porta, para lavar frutas e legumes, passar um pano com álcool nas embalagens dos mantimentos.

Meus óculos embaçam e a Terra, além de chata, fica fora de foco. Ligo a televisão, todos de máscara, pego os jornais, todos de máscara. E é no mundo inteiro. Nos países ricos, nos países pobres. Na Suécia, na Suíça, na Islândia e na Finlândia. No Zaire, no Quênia, no Burundi e no Havaí. Metade de dois mil e vinte já se foi e eu não vi. Contei mortos, contei infectados, contei curados.

Procurei notícias de vacina na Recherche, na New Scientist, na Lancet. Vi a policia branca matando pretos e pardos, de João Pedro e Guilherme a George Floyd. Não posso mais fotografar as pessoas lendo nos ônibus, a vida lá fora pela janela quando o motorista para no ponto. Não posso mais escolher os limões com casca fina, os tomates mais durinhos, o abacaxi mais doce, os caquis mais firmes, a cebola mais graúda, a banana mais nanica.

Vivo agora entre água e sabão, entre álcool gel e setenta, entre lives e luvas. Estou começando a levar a sério aquela velha canção do Raulzito: pare o mundo que eu quero descer.   

Pluct Plact Zum

Imagine de repente a gente virar um drone, ultrapassar a janela, alcançar uma altura imune ao corona, observar a vida lá de cima. Sobrevoar São Paulo inteira, do Jardim Europa ao Jardim Ângela. Queria ir até Cataguases, sobrevoar a Praça Santa Rita. o campo do Flamenguinho, o Rio Pomba.

Chegar a Belo Horizonte, observar a avenida do Contorno, as ruas simétricas dentro dela e o caos do lado de fora. Rio de Janeiro, a praia de Ipanema, a Praça Nossa Senhora da Paz, a Cena Muda, passar raspando nos braços abertos do Cristo Redentor sobre a Guanabara e chegar a Duque de Caxias. Queria sobrevoar São Miguel dos Milagres, o Mercado Ver o Peso de Belém do Pará, o Teatro Amazonas.

Queria ir a Paris só pra ver se a Place des Voges já está florida, ver os meninos manipulando barquinhos no Jardin du Luxembourg, as verdejantes Tulherias, como dizem aqui. Queria sobrevoar as plantações de tulipas perto de Amsterdam, a estátuas vivas na Rambla de Barcelona, a catedral de Milão, o Holand Park de Londres, o design de Viena, as ruas de Abidjan onde mulheres vendem sopa de pimenta, ver de perto as ruínas de Atenas, a Ponte Vecchio de Florença, o Mercado de Montevidéu, a beleza dos balões no céu da Capadócia, os cubanos dançando salsa nas praças públicas de Havana, queria sim chegar ao Museu da Memória em Santiago do Chile.  

Aguenta coração

Não sei se o meu é bobo ou vagabundo. Lembro-me dele desde menino, quando desenhava em papel de seda a aorta direita e a aorta esquerda, Uma vermelha, outra azul. Eu era craque em desenhar coração nas aulas de ciências naturais quando ainda sonhava em ser médico, desses doutores que abrem o peito dos outros e arranca o coração e troca por outro. Queria ser o Doutor Christiaan Barnard.

Veio a Tropicália, foi quando eu conheci os versos de Vicente Celestino: Mas diga tua ordem espero/Por ti não importa matar ou morrer/E ela disse ao campônio a brincar/Se é verdade tua louca paixão/Partes já e pra mim vá buscar/De tua mãe inteiro o coração. Mudei de rumo, achei que estava mais pra poeta do que pra doutor. E segui observando as letras das canções: Eu lavo e passo/Sirvo à mesa e faxino/Aprendo e te ensino/Posso até dirigir/Comprar um táxi/Só pra lhe servir. 

Procuro no livro dos sonhos o que significa sonhar com um coração vermelho, sangrando, bobo, bola, balão, coração São João. Que não vai ter esse ano, eu sei, como não vai ter Olimpíada, Flip, Fla-Flu, a festa do couscous marroquino no meu aniversário, quem sabe a festa do Círio de Nazaré, a festa do boi. A minha dúvida nas primeiras horas da manhã de uma semana que começa é saber se o meu coração é garantido ou caprichoso.  

O dia de amanhã

Caminhando para cem dias confinado, fotografo detalhes da minha casa para que a história seja contada no futuro. Uma Frida Kalo estampada num prato de porcelana dependurado na parede, uma sardinha de pano vinda do Mercado da Ribeira exposta numa estante do escritório, uma motocicleta de lata de 1943 e na revistaria, um brinquedo francês comprado num mercado de pulgas. São detalhes importantes de nós dois.

Remexo o baú de fotografias em preto e branco deixadas por meu pai, muitas delas com legendas no verso: Bebendo uma água de coco em uma barraca na aprazível praia de Fortaleza, cidade hospitaleira. Se Gilberto Gil ouvia Cely Campelo pra não cair, aqui coloco na vitrola um vinil novinho em folha vindo da Rússia, em que Caetano muito tropicalista canta que em volta da mesa, longe do quintal, a vida começa no ponto final.

No Spotify, tento traduzir os novos versos de Bob Dylan, como Tom Waits, dizendo que ele não é um cachorro na coleira. Fotografo para a eternidade o Pato Donald dirigindo uma baratinha, talvez a coisa mais antiga que tenho aqui no meu lar. O museu de mim mesmo não me deixa cair. Tenho perdido live, uma atrás da outra. De vez em quando capturo uma aqui, outra ali. João Bosco cantando Agnus Sei, Tom Zé cantando menina, amanhã de manhã quando eu acordar quero lhe dizer que o mundo vai desabar sobre nós. O meu dia precisaria de pelo menos 32 horas, fiz as contas, pra dar conta do recado.

Tem dias que o novo livro fica parado e as ideias na cabeça se atrapalham e me incomodam. Será que as páginas que prometi pra Iara vão ficar pro São João? Não aguento mais ouvir na televisão a frase foram liberados para reabrir, mas com restrições. Viro o disco. Toda essa gente se engana ou então finge que não vê que eu nasci pra ser o superbacana. Era uma época de Superist, um comprido com três camadas, uma de cada cor, infalível contra a gripe e a dor de cabeça.

São coisas que guardo de criança, que ficaram na minha cabeça pra nunca mais sair. O drops Supra-Sumo com as balinhas de laranja e limão embaladas em papel alumínio, o suco Yuki, o primeiro em lata, as figurinhas dos chicletes Ping-Pong, os soldadinhos que vinham dentro do vidro de Toddy. E a emoção de tirar com uma faca a cortiça da tampinha de Coca e ver se estava premiada? O dia está apenas começando.        

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Jornalista e escritor, prepara o lançamento do “Almanaque Maurício Kubrusly”, pela Panda Books.

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