André Mendonça, uma escolha profundamente terrível

Bolsonaro indicará como ministro do STF o AGU André Mendonça, uma decisão terrivelmente evangélica e profundamente terrível

O ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, atual Advogado Geral da União do governo Bolsonaro, André Mendonça. Foto: Isaac Amorim/MJSP

O ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, atual Advogado Geral da União do governo Bolsonaro, André Mendonça. Foto: Isaac Amorim/MJSP

Opinião

Na véspera do Dia dos Namorados, em 11 de junho de 2021, Bolsonaro aponta o seu candidato favorito a ocupar a vaga do ministro Marco Aurélio, no STF, que se aposenta em 5 de julho, vaga essa que o advogado-geral da União, André Mendonça, o possível nome indicado pelo presidente, namora há longa data.

Segundo comentários que circulam nos corredores do Senado Federal, que promoverá a sabatina do nome, os flertes já começaram. André Mendonça tem rodeado senadores, com cantigas e juras de amor eterno, a fim de conquistar os corações, como em um típico romance de cavalaria.

As perfumarias, como em todo bom amor cortês, já se iniciaram, repleto de trovas, promessas, heróis, mitos e símbolos. A história se irriga por uma profunda falsa espiritualidade, afinal, o ideal místico do candidato bolsonarista ao cargo de ministro da Suprema Corte é o “terrivelmente evangélico”, já prometido em épocas de campanha para a base evangélica e neopentecostal.

Como o “bom samaritano”, o candidato deve ser “terrivelmente evangélico”, mas nada cristão, da forma que manda o roteiro. Um ministro profundamente moralista e irrigado por pautas antiprogressistas e conservadorismo anticristão.

Com vistas a isso, o espírito de galanteio de André Mendonça tem feito o dever de casa com louvor, para conquistar o coração amado: enquanto advogado-geral da União, demonstrou total submissão e servidão ao chefe do Executivo, pagando qualquer preço para ganhar seu lugar ao sol.

Suas proezas e façanhas são de dar inveja aos corações bolsonaristas mais fiéis. Usou diversas vezes do escudo cavaleiresco da Lei de Segurança Nacional (LSN), promulgada durante a ditadura militar, para reprimir críticas de opositores ao governo de Jair Bolsonaro, mais do que quando Moro perseguiu os punks. Como bom cão de guarda, fez uso de notícias-crimes para atacar opositores do governo, como no caso do outdoor em Tocantins, que falava que o seu chefe não valia “um pequi roído”.

Em total inversão de valores, foi o autor de um polêmico — e explicitamente fascista — dossiê que tinha como foco apontar servidores que se identificavam como “antifascistas”, movimento, além de servil, absurdo e ditatorial, que teve que ser paralisado pela Corte Constitucional.

Suas façanhas bolsonaristas “heróicas” se estendem, ainda, às suas promessas: enquanto Ministro de Justiça e depois reconduzido ao comando da AGU, afirmou que se estivesse no cargo da AGU teria assinado conjuntamente com Bolsonaro a ação contra os governadores, para questionar medidas restritivas, não aceita pelo STF pela recusa de José Levi, então AGU, em assinar o documento, que tinha compromissos com a aliança de Bolsonaro com o coronavírus, pois questionava medidas de restrições de governadores contra a disseminação da covid-19.

Não bastasse esses feitos, enquanto AGU, advogou pessoalmente, como em advocacia privada, para o ex-ministro da educação Abraham Weintraub, impetrando habeas corpus. O objetivo era impedir que Weintraub prestasse depoimento ao STF no inquérito da fake news, porque este, na reunião ministerial de 22/04/2020, referiu-se aos ministros do STF como “vagabundos”, dizendo que mereciam ser presos, em nítido ataque institucional.

Pastor da Igreja Presbiteriana Esperança, André Mendonça também defendeu, enquanto AGU, na semana de Páscoa, em ação ingressada no STF, a abertura de cultos, em um dos piores momentos da pandemia da covid-19. Na ocasião, o ministro Gilmar Mendes criticou a postura de Mendonça, dizendo que “tomam o nome de Deus para sustentar o direito à morte” e que a Constituição Federal não pode tutelar o direito à morte.

Assim, fica a sensação de que, com a terrível escolha de nome do novo ministro do Supremo, nessa estratégia necropolítica de Bolsonaro, toma-se o direito de indicar um guardião da Constituição apenas para condená-la à morte.

Um lobo prometeu ao pastor cuidar do rebanho — disseram. Nada surpreendente para a futura escolha de um ministro “terrivelmente evangélico”, mas, igualmente “terrivelmente anticristão”, no sentido mais genuíno da palavra.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Doutoranda em Direito na FND/UFRJ. Pesquisadora, escritora, ensaísta, professora e advogada.

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