

Colunas
Alice nos Limites da Percepção
Ainda que não haja comprovação de que Lewis Carroll tenha feito alusões intencionais a substâncias psicoativas, o livro apresenta elementos frequentemente lidos sob essa chave interpretativa
Quando Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, foi publicado em 1865, nada indicava que a obra se tornaria, um século depois, um dos principais símbolos da cultura psicodélica. Ainda assim, poucas narrativas foram tão completamente absorvidas por esse imaginário quanto a jornada da menina que cai em um buraco e passa a habitar um mundo onde a lógica se dissolve.
Em 1967, Grace Slick, do Jefferson Airplane, transformou Alice em trilha sonora da psicodelia com a canção White Rabbit. Ao associar pílulas, mudanças de tamanho e o Coelho Branco ao uso de substâncias, a música cristalizou uma leitura que já circulava na contracultura: Alice não era apenas uma história infantil, mas um mapa involuntário de estados alterados de percepção.
Ainda que não haja comprovação de que Lewis Carroll tenha feito alusões intencionais a substâncias psicoativas, o livro apresenta elementos frequentemente lidos sob essa chave interpretativa. A lagarta que fuma sobre um cogumelo, as poções que alteram o tamanho do corpo e os alimentos que provocam transformações súbitas evocam, para muitos leitores, associações com efeitos de substâncias presentes em cogumelos psicoativos — como a Amanita muscaria ou o Psilocybe cubensis —, além do ópio, sugerido pela própria imagem da lagarta. Essas correspondências, no entanto, permanecem no campo da leitura e da analogia, e não de uma intenção explícita do autor.
A experiência de Alice dialoga com descrições de estados visionários presentes em Moksha, de Aldous Huxley. A expansão da consciência não cria um novo mundo, mas reorganiza a forma como ele é percebido. Algo semelhante ocorre aqui: o estranho não substitui o real, mas o desloca, revelando fissuras no que parecia estável.
Nesse sentido, a imaginação infantil — com sua lógica fluida e percepção lúdica — já opera em um regime próximo ao visionário. A criança não distingue com rigidez fantasia e realidade, transitando entre ambas com naturalidade.
A redescoberta da animação da Disney (Alice no País das Maravilhas, 1951) por jovens nos anos 1960 reforçou essa associação. O que antes era visto como exagero infantil — cores saturadas, personagens distorcidos, narrativas fragmentadas — passou a ser interpretado como representação visual de estados alterados de consciência. Sem qualquer modificação, a obra encontrou um novo público e um novo significado.
Tanto o livro quanto a animação — assim como filmes inspirados na obra — abrem margem não apenas para interpretações psicodélicas, mas também para leituras psicológicas e psicanalíticas. A jornada pode ser compreendida a partir de arquétipos e de manifestações do subconsciente, revelando processos internos que acompanham essa travessia por um mundo onde identidade, lógica e percepção estão em constante transformação.
Talvez por isso essas versões tenham sido amplamente incorporadas ao imaginário psicodélico ao longo das décadas, aparecendo inclusive em artes para selos de LSD e atravessando diferentes manifestações da cultura pop, da estética hippie às culturas rave contemporâneas.
Curiosamente, em 1969, o filme Alice in Acidland — frequentemente traduzido como Alice na Terra dos Ácidos — foi lançado como propaganda antidrogas, explorando essa mesma associação para alertar o público sobre os efeitos do LSD e outras substâncias. O recurso direto à figura de Alice evidencia o quanto sua imagem já havia sido absorvida por esse imaginário.
Essa lógica de ruptura perceptiva reaparece em Matrix (1999), de Lana e Lilly Wachowski, que retoma diretamente a iconografia de Alice — o Coelho Branco, a queda em outro nível de realidade — para traduzir, em linguagem tecnológica, a experiência de atravessar camadas da percepção.
A leitura psicodélica de Alice, no entanto, não revela uma origem, mas uma afinidade. O que a contracultura reconheceu na obra de Carroll não foi necessariamente um código oculto, mas uma forma de percepção que já escapava aos limites da racionalidade convencional. Alice não se torna psicodélica por intenção, mas por ressonância onírica: uma travessia pelos limites da consciência, onde realidade e imaginação deixam de se opor e passam a coexistir — como se, ao atravessar o espelho, tocasse também os antípodas da mente e as paisagens instáveis do subconsciente.
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.



