Além de entregar o pré-sal a preço de banana, o desgoverno queima nossas riquezas

Sem falar na destruição da pesquisa e da ciência no País

CERCA DE 40% DA FLORESTA AMAZÔNICA PODE VIRAR SAVANA, DIZ ESTUDO. FOTO: CARL DE SOUZA / AFP

CERCA DE 40% DA FLORESTA AMAZÔNICA PODE VIRAR SAVANA, DIZ ESTUDO. FOTO: CARL DE SOUZA / AFP

Opinião

“Aqueles que possuem terras em quantidade maior do que seria necessário para alimentar suas próprias famílias podem ser tratados como culpados de causar a pobreza de muitas outras pessoas.” – Leon Tolstoi.

Enquanto a devastação da Amazônia bate recordes (aumentou em mais de um quinto no último ano, com fazendeiros pulverizando agrotóxicos sobre a floresta para transformá-la em pasto), os Estados Unidos investem no plantio da maconha, que já é o quinto cultivo de maior valor no país, atrás apenas do milho, da soja, do feno e do trigo.

A inteligência dos agricultores estadunidenses deixa ainda mais clara a burrice do atual desgoverno local e os apoiadores dele no agronegócio, devastador da Amazônia, do Cerrado e do Pantanal; assassino de indígenas e povos tradicionais.

Vale recordar que a floresta amazônica encerra a maior biodiversidade da Terra. A riqueza dela vem disso: de sua diversidade, que resulta na capacidade de prover princípios ativos para a indústria alimentícia, farmacêutica e cosmética, valendo lembrar que as plantas medicinais e os fitoterápicos são os produtos agrícolas de maior valor agregado existentes no mercado.

De fato, a principal valia da floresta não está no solo, frágil, pois coberto há milênios pelo húmus das folhas, mas na riqueza da flora e fauna que nela prosperam.

Ou seja, além de entregar o pré-sal a preço de banana, o desgoverno literalmente queima outra das nossas maiores riquezas, sem falar na destruição da pesquisa e da ciência no país.

Ao contrário, no governo Lula, com o apoio da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) e do Fundo das Nações Unidas para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA) os assentamentos da reforma agrária, ligados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), passaram a produzir não apenas plantas medicinais, mas também manipulá-las para a produção de produtos medicinais fitoterápicos, agregando-lhes, dessa forma, valor social e econômico.

Por quê ficamos cegos perante essas evidências?

Em “Olhar Iluminista”, Sérgio Paulo Rouanet, na coleção “O Olhar” (Companhia das Letras), aclara-nos com a seguinte perícope: “O olhar cego, o olhar cativo, o olhar supersticioso, o olhar intimidado pela tirania e pelo dogma, não podem ver. Ou veem miragens, ‘fantasmas hediondos e quimeras sedutoras’ [na expressão de Holbach]. A falsa visão é correlativa de um olhar deficiente.”

Na gênese da incapacidade, está a deficiência na educação, na formação, na cultura.

Destarte, agrega o autor: “A educação repressiva cria os preconceitos, que funcionam como anteparos, bloqueando a visão, e como refratores, que dão do mundo social uma visão tão distorcida como a produzida no mundo físico, pela ilusão de ótica…e cuja principal função é manter o homem no medo e na ignorância, perpetuando com isso a hegemonia dos poderosos. Mas a verdadeira educação, exercida pelos legisladores, filósofos e pedagogos, poderá remover as vendas que bloqueiam o olhar.”

Na mesma coleção, citando o Padre Vieira, Antonio Alcir Bernárdez Pécora, no artigo “O Demônio Mudo”, complementa: “Olhai para o passado e para o futuro, e vereis o presente.”

Os EUA gastaram trilhões no combate às drogas, destruindo florestas; estigmatizando agricultores e agricultoras; inundando de recursos públicos empresas de aliados no próprio país e na América Latina para terminarem plantando: maconha.

Pelo menos, um dos pretextos mais usados para a ingerência política do império na América Latina ruiu. Se eles podem, nós também poderemos.

Ainda daquela coleção, em “A Medusa e o telescópio ou Berggasse 19”, Renato Mezan, busca na Ilíada táticas usadas pelo dominador para gerar medo e manter a subordinação: “…na Ilíada, a cabeça da Medusa está ligada à aparência e à mímica do guerreiro…Vários detalhes apontam nessa direção: o brilho do seu olhar aterrorizador remete ao fulgor do bronze de que seriam feitos capacetes e escudos, a fim de ofuscar o adversário; ela é constantemente descrita como emitindo uivos agudíssimos, sons horripilantes e ranger de dentes que reproduzem os gritos com que os guerreiros buscavam assustar o inimigo. O tema da cabeleira eriçada de cobras faz parte do mesmo contexto: os combatentes de Esparta deixavam crescer o cabelo e o untavam com substâncias que o tornavam brilhante, sempre com o intuito de compor uma aparência aterrorizadora…Outro elemento que remete à guerra é a associação de Medusa com o cavalo: assustado, ele tem um aspecto terrível, relincha agudamente, bate as patas, ajuda a semear o pânico nas hostes adversárias.”

De fato, o medo bloqueia, dificulta a reação, facilita a rendição.

Por isso, essa foi a principal diretiva da CIA para os agentes locais, no golpe de 64 e, possivelmente, no de 2016: gerar medo. Não foi assim que os poderes capitularam em 2018, com um simples Twitter de um general criminoso?

Portanto, amigos, nada de medo, como o Cristo alertara: “Não tenham medo”.

Efetivamente, sendo contrarrevolucionário, o temor é antípoda do amor, a sombra dele; como o ciúme é a escuridão da confiança e da cooperação; ambos, temor e ciúme, resultam – derradeiramente – em inveja, trevas da felicidade.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da Organização das Nações Unidas (ONU) e representante, alterno, do Ministério das Relações Exteriores no extinto Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

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