Alberto Villas

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Jornalista e escritor, prepara o lançamento do “Almanaque Maurício Kubrusly”, pela Panda Books.

Opinião

Aí veio a pandemia…

Está difícil acordar, abrir os olhos, escancarar a janela e respirar fundo o ar puro

Imagem: iStock
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Não está nada fácil retomar o dia-a-dia, viver a vida como ela era. Sem medo, sem máscara, sem vacina, abraçando, beijando. Está difícil acordar, abrir os olhos, escancarar a janela e respirar fundo o ar puro.

Quem sabe esse vírus ainda está voando por aí?

Pedro estava com a mala pronta para passar quinze dias em Paris. Na mala, casacos fortes, meiões, ceroulas, blusas de lã. Lá estavam também cachecóis, chalés e gorros.

Aí veio a pandemia…

Pedro teve que adiar a viagem, adiar de novo e, finalmente, resolveu reembolsar o dinheiro, já que a pandemia estava com cara de que não ia acabar tão cedo. Desfez a mala, guardou os guias da Folha, os euros dentro de livros na estante do seu escritório e tocou a vida. Dentro de casa.

Eduardo estava com tudo pronto para fazer uma reforma daquelas no apartamento, já meio caído. Ia pintar as paredes de colorido, reformar a cozinha, mudar o piso, trocar o sofá, colocar pastilhas no banheiro. Tudo pronto, pensava em trocar a geladeira, já com pontos de ferrugem perto da porta e o micro-ondas que, na verdade, já não esquentava mais sua sopinha como antigamente.

Aí veio a pandemia.

Eduardo guardou o projeto feito por uma arquiteta amiga, passou um pano úmido na parede encardida, o piso continuou gasto e o banheiro sem pastilhas.

Helena ia começar a trabalhar de estagiária numa firma e estava toda animada, já que havia possibilidade de ser contratada com carteira e tudo mais: plano de saúde, vale-refeição, vale-transporte, décimo-terceiro e bônus no fim de ano. Chegou a comprar roupas novas na Renner e um sapato novo na Arezzo.

Aí veio a pandemia…

Helena recebeu um e-mail da firma cancelando seu acordo. Pediram para que ela esperasse a situação melhorar. Em dois anos, a firma acabou pedindo concordada, ela leu na Folha. As roupas novas da Renner ela chegou a usar, mas os sapatos continuam novinhos, guardados na caixa.

Wellerson ia, finalmente, construir a sua casa de alvenaria na comunidade onde mora há dez anos. Dar adeus ao barraco de madeira com separações de compensado. Já tinha comprado tijolos e alguns sacos de cimento, que guardou na garagem da casa da sogra.

Aí veio a pandemia…

Wellerson adiou a obra porque ficou desempregado. O material de construção continua na garagem onde está morando a cunhada. A sogra morreu vítima da Covid, depois de quinze dias entubada.

Emerson tinha planos de trocar o seu Kadett ano 1984 por um Celta seminovo.

Leonor queria abrir o seu próprio negócio. Seu ateliê de cerâmicas decoradas estava crescendo e ela era pura animação.

Lucas ia começar o curso de Letras na USP e não via a hora de ir para a faculdade, mesmo sabendo que ia ter o rosto pintado e o cabelo raspado. Craque no alemão, queria mergulhar de cabeça na língua para concretizar o sonho de fazer uma pós em Berlim.

Luiz Miguel ia começar na segunda os treinos no Palmeiras. Já tinha comprado chuteiras, meias, calção e camisa verde. Bom na ponta esquerda desde pequenininho, sonhava em tornar-se profissional, artilheiro famoso.

Vanessa ia se casar com Leonardo quando ouviu no Jornal Nacional a OMS decretando pandemia. Gelou, mas tinha certeza absoluta que aquilo não passava de uma nuvem passageira, que não ia chegar até aqui. Já tinha visto o ebola, a gripe aviária e a vaca louca e não se assustou. Só ficou muito aborrecida quando teve de adiar a data porque a igreja fechou por tempo indeterminado.

Eu, ah, eu tinha certeza que, com a pandemia, trabalhando em home office, ia finalmente terminar o meu novo livro. Separei toda a bibliografia, duas pilhas de metro e meio cada uma, mas somente ontem tirei a poeira dos livros e dos recortes e comecei a fazer a pesquisa. Mas este ano, o livro sai. Se não voltar a pandemia.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Alberto Villas

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