Alberto Villas

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Jornalista e escritor, prepara o lançamento do “Almanaque Maurício Kubrusly”, pela Panda Books.

Opinião

Ah, se o meu pai voltasse…

O Doutor Bouçada ia ficar louco com tantas novidades

Imagem: iStock
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O Doutor Bouçada era um tipo inesquecível. Já nos deixou há mais de 30 anos e não tem um dia sequer que o seu nome não é lembrado no grupo dos Villas Brothers, no WhatsApp. Ora pela bacalhoada que fazia, ora pelas manias que tinha, ora pelas piadas que fazia.

De tempos em tempos eu fico imaginando se ele, de repente, voltasse ao planeta Terra, aqui chegasse e encontrasse o mundo como ele está sendo. Louco por tecnologia, foi dele que lembrei quando vi, pela primeira vez, um aparelho de fax funcionando.

Imagine o que diria o Doutor Bouçada ao ver um papel saindo do telefone!

Diz a lenda que a primeira geladeira que chegou em Belo Horizonte foi a dele. Sempre chamou de Frigidaire aquela peça enorme que esfriou nossas coisas durante décadas na casa da Rio Verde.

Comprou também o primeiro liquidificador, a primeira torradeira, o primeiro micro-ondas, a primeira TV em cores, ele era daqueles que entrava na fila de espera, antes mesmo do produto ser inventado.

No inicio dos anos 1960, lembro-me bem, ele trouxe da América do Norte – era assim que ele chamava os Estados Unidos – talvez a primeira faca elétrica a entrar em território mineiro. Trouxe também de lá uma televisão cuja tela era do tamanho da palma de uma mão. Um espanto, na época.

Minha mãe tinha pavor daquela faca elétrica, uma engenhoca que a gente levava uma meia hora só para montar e colocar em funcionamento. Mas ele amava.

Doutor Bouçada foi embora para sempre sem conhecer, além do fax, o celular, o aspirador-robô, a Lexia, o vidro automático do automóvel, a TV a cabo, o Spotify, o CD, nem mesmo o DVD ele conheceu.

Ele não chegou a conhecer o carro com injeção eletrônica, o Waze, o drone, a leitura facial, o chip, o computador, o WhatsApp, o Instagram, o Orkut, o TikTok, o código de barras, o QR-Code, o Putin, nada disso.

Então eu fico imaginando ele chegar aqui, assim de repente, e topar com essas coisas todas. Tenho certeza que, ao ver todo mundo conectado, a primeira coisa que ele ia querer comprar era um celular de última geração.

Já o imagino nervoso querendo aprender tudo de uma só vez, e em poucos minutos soltar essa: “Comigo, essa merda não funciona!”

O Doutor Bouçada ia ficar louco com tantas novidades. Meteorologista, não ia acreditar vendo a Jacqueline Brasil no JN dando todas aquelas informações naqueles mapas em movimento. Ele nem ia prestar atenção no tamanho do salto alto dela, como a gente repara.

Ele ia se espantar ao ver cachorro sendo chamado de pet e comendo ração, ia sentir falta do cheque, do talão de zona azul, do bilhete da Varig com 20 páginas, da máquina de bolinha da IBM que ele achava o máximo do progresso, do crac crac da televisão quando mudávamos de canal, do radinho de pilha com capa de couro, essas coisas todas.

Mas acho que o que mais ia o espantar era ver tanta gente chique com calça jeans rasgada andando nas ruas. Ele ia pirar.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Alberto Villas

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