Alberto Villas

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Jornalista e escritor, prepara o lançamento do “Almanaque Maurício Kubrusly”, pela Panda Books.

Opinião

Ah… essa tecnologia!

Durante muito tempo ainda usei agenda de papel e levei minhas fotografias pra revelar. Hoje, se você se negar a usar a tecnologia, é melhor não sair de casa

Foto: AFP
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Minha relação com a tecnologia, com essas máquinas, nunca foi boa. E é todo tipo de máquina. Nunca me esqueço quando aquele caminhão da Bemoreira parou na porta da minha casa e de lá saiu uma máquina de lavar roupas Bendix, uma das primeiras de Belo Horizonte. Quando o técnico colocou aquele monstrengo pra funcionar, pensei: isso num vai dar certo!

Vi chegar a secretária eletrônica, o telefone sem fio, o micro-ondas, o fax, o aparelho de CD, o controle remoto, o celular, o computador, é de perder a conta o que vi surgir assim, de repente, pra meu espanto.

Na primeira viagem a Amsterdam, nunca vou me esquecer a encrenca que foi conseguir guardar a minha mochila naqueles nichos que funcionavam sem ajudante nas estações ferroviárias. Os holandeses chegavam tranquilos, tranquilos, tiravam uma moeda do bolso, enfiavam no buraquinho, a portinha abria, eles colocavam tudo lá dentro, fechavam e saíam assobiando.

Eu, de longe, tentava decifrar aquele enigma. Que diabo de ficha é essa? Onde vende? Funciona por tempo determinado? E o medo de enfiar minhas coisas ali dentro e, quinze minutos depois, a porta abrir e deixar minha matula à vista?

E aquele dia em que demorei bons trinta minutos para entender como funcionava aquela maquininha numa rua de Pádua, onde a gente enfiava uma moeda e saia um papelzinho que você colocava no painel do carro pra não ser multado?

Aí vieram as caixas eletrônicas, custei a ter um relacionamento sério com elas. Vieram as vozes eletrônicas e quantas vezes não dei bom dia pra ninguém, e fiquei falando feito bobo?

Um abismo existiu entre este cronista e um celular, isso lá nos primórdios. Como fazer foto, como mandar uma mensagem, como baixar um aplicativo, como colocar o despertador pra funcionar, onde achar a lanterna? E como pedir um Uber? A primeira vez me atrapalhei e quando vi, tinham cinco automóveis estacionados na porta do meu prédio e cinco motoristas avisando pro porteiro que era pro apartamento 21.

Durante muito tempo continuei a ir ao banco para pagar contas. Só parei quando o banco passou a não receber mais conta de luz, de água, de telefone, condomínio, boleto de cartão de crédito…

Durante muito tempo ainda usei agenda de papel, bloquinho de zona azul e levei minhas fotografias pra revelar.

Hoje, se você se negar a usar a tecnologia, é melhor não sair de casa. O negócio é pedir a filha pra ligar no Netflix, pra ela pedir uma pizza pelo iFood e ficar quietinho.

Minha nova encrenca agora são as máquinas de autoatendimento nos supermercados. Uma vez vi as primeiras em Milão e pensei: ainda bem que o Brasil é um país atrasado e isso vai demorar décadas até chegar entre nós. Que nada! No Pão de Açúcar do meu bairro já instalaram quatro.

Pra minha infelicidade e raiva, tem gente que adora essas engenhocas. Preferem as caixas de autoatendimento do que dar bom dia pra uma mocinha de carne e osso. Fico só olhando.

Talvez tudo isso seja fruto do meu pessimismo. Sempre acho que a danada da máquina não vai ler o código de barra, que vai dar CPF inválido e que vai vir escrito na tela: transação não aprovada.

Fico na minha. Sonhando que um dia vai voltar o Armazém do Seu José, aquele que vendia biscoitos Aymoré e fiado, só amanhã.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Alberto Villas

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