Afogando em números

'Era um rebelde, um pequeno guerrilheiro que lutava com as minhas armas contra a raiz quadrada, o grau do ângulo reto, a bissetriz'

Foto: Reprodução

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Opinião

Desde pequenininho, odiava matemática, odiava números, fórmulas, equações. Tinha furúnculos e mais furúnculos às vésperas de provas de aritmética, como chamávamos. Era um rebelde, um pequeno guerrilheiro que lutava com as minhas armas contra a raiz quadrada, o grau do ângulo reto, a bissetriz, uma semirreta que divide um ângulo em lados congruentes.

Aprendi a tabuada, não teve jeito. Minha mãe me cobrava diariamente, perguntando se havia decorado a tabuada. Ela me tomava: Quanto é cinco vezes sete? Nove vezes quatro? E sete vezes oito? Eu nunca sabia de cor e fazia contas nos dedos.

Me amarrava nos números redondos. Estava na ponta da minha língua quanto era seis vezes seis, sete vezes sete, oito vezes oito. Não havia maquininha de somar dessas pequenininhas, nem mesmo o celular onde a gente coloca 247 mais 621 mais 338 e aperta o igual e lá está o resultado.

Minha bronca maior era com a tal da raiz quadrada. Toda vez que levava pra casa aquele boletim cor de rosa do Colégio Marista era uma briga. Com aquele 5, nota mínima, e muitas vezes abaixo disso, em vermelho, o meu pai, engenheiro, das exatas, tentava me mostrar a utilidade da matemática na vida. Não era fácil.

Eu argumentava e argumentava que nunca, mas nunca na minha vida, eu precisaria responder a alguém qual é a raiz quadrada de um número qualquer.

A bronca acabava, cada um pro seu canto, até o mês que vem com a chegada do boletim e do quatro e meio em matemática. Confesso que era quatro e meio graças a equações óbvias ou a cola. Todo dia de prova de matemática eu sentava perto do Salim, um craque dos logaritmos.

Na verdade, eu era uma pequeno mala. Apesar de gostar das outras matérias, ficava pensando com os meus botões, que dia, quando crescesse, precisaria saber os afluentes do rio Amazonas, a capital da Suécia e, de cor, que ilha era um pedaço de terra cercado de água por todos os lados.

Não, eu não precisaria.

No dia que coloquei os pés em Estocolmo, ah… como lembrei da minha professora de Geografia. O mesmo aconteceu quando peguei uma voadora e sai singrando pelas águas do Amazonas em busca dos seus afluentes. E foi em Paquetá que confirmei que ilha era mesmo um pedaço de terra cercado de água por todos os lados.

Meus irmãos, uma professora, um engenheiro, uma psicóloga e uma advogada, costumam dizer que o que salvou a vida deles foi o tal do Trajano. É verdade. Na minha casa tinha um livro chamado Aritmética Progressiva, de Antônio Trajano, a Bíblia do meu pai. Qualquer duvida que os filhos tinham, o meu pai pedia pra minha mãe:

– Traz lá o Trajano.

O meu problema é que eu odiava aquele livro cheio de números. Mas uma coisa eu aprendi: a raiz quadrada de 49 é 7! Pra quê, não sei.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Jornalista e escritor, prepara o lançamento do “Almanaque Maurício Kubrusly”, pela Panda Books.

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