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Adeus, mano velho

Opinião

Apesar de 2017, continuo acreditando que o diálogo é possível e tem poder.

Não me escapa que a palavra seja usada como simulação de si mesma, mas é fácil perceber quando o conceito não está sendo aplicado: basta observar a dissonância entre fala e ação, como quando o presidente Michel Temer sugere que diálogo é característico de seu governo enquanto apressa reformas sem nenhum.

Quando falo do poder do diálogo me refiro ao diálogo de fato, não a simulações. O diálogo exige escuta, e quem quer dialogar reconhece a própria humanidade e a de seus interlocutores, não tutela, não insiste em ser voz dominante, pergunta, e não se ressente quando outras vozes enriquecem o debate, principalmente quando apontam para o que os enquadra como responsáveis por, e beneficiários de desequilíbrios e injustiças.

Uma das mais óbvias evidências do falso diálogo é a escuta seletiva. Não adianta acreditar estar participando de um diálogo sem estar escutando, e isso é especialmente importante no que diz respeito a questões de vida digna e risco de morte, seja o diálogo privado entre indivíduos ou social envolvendo grandes públicos. Esta escuta precisa ser ativa, não passiva ou reativa, pois o poder de escolher não ouvir sobre certas violências é sempre privilégio de quem não está sob o risco de sofrer com elas.

Uma questão que divide opiniões no feminismo é homens poderem ou não ser feministas. Muitas afirmam não ser possível, já que o feminismo é o movimento que visa erradicar a opressão masculina, portanto opressores não podem fazer parte dele.

Outras pensam que é possível, afinal feminismo não é identidade, mas uma ideia e luta coletivas de um projeto político e intelectual de emancipação. Faço parte do segundo grupo, mas ressalto que há diferenças fundamentais entre homens feministas e “omis feministos”, e a mais importante delas é o reconhecimento do papel de coadjuvante, compreensão de que mulheres têm plena capacidade de liderar a articulação das próprias demandas.

Assim, entendo a ressalva quanto a homens feministas, e 2017 foi um ano em que ela ganhou contornos de urgência. Para quem acredita na capacidade de pessoas entenderem sistemas de opressão a partir da sua própria responsabilidade por eles, este ano foi triste.

Masculinidade em crise 

O primeiro texto que publiquei aqui fazia um chamado para que homens se despissem de suas próprias amarras egoicas e nos escutassem melhor. Mas o crescimento exponencial de comentários de internet, artigos nos jornalões e livros publicados sobre supostas discriminações e violências sofridas por homens (brancos, que são a maioria destes “articulistas”) pelas mãos de mulheres, beirou o ridículo.

Michael Kimmel, um dos mais proeminentes estudiosos de masculinidades, examinando o antifeminismo dos homens expõe o óbvio: eles se baseiam em argumentos tradicionais e socialmente darwinistas que reafirmam a família patriarcal e temem uma suposta feminização da masculinidade.

Para ele, toda “crise de masculinidade” é medo frente a emancipação das mulheres. Esta conclusão casa com o conceito de backlash proposto por Susan Faludi, que explora a guerra não declarada contra mulheres constituída a partir de forças conservadoras que se organizam para nos destituir de nossas conquistas por direitos, dignidade e respeito.

Mulheres sempre foram silenciadas.

Ontem mesmo assisti ao filme Mãe!, dirigido por Darren Aronofsky e estrelando Jennifer Lawrence e Javier Barden, e a obra me lembrou bastante Anticristo, de Lars Von Trier com Charlotte Gainsbourg e Willem Dafoe.

Ambos exploram a desatenção de homens quanto a própria responsabilidade na opressão das mulheres, e apontam para o fato de que esta negligência é causa e consequência dos benefícios que acumulam ao não se posicionarem contra o estado das coisas.

Assim, ambos também mostram que, apesar dos desastres explicitamente consequentes do desequilíbrio de poder entre os gêneros, quem termina na pior são as mulheres.

As duas protagonistas precisam enfrentar os silenciamentos mesmo sem garantia de que romper com ele vai beneficiar suas próprias vidas. Nos dois filmes esse rompimento só piora a situação, e assim vem sendo na vida real.

É um acinte que, no ano em que perdemos direitos básicos e corremos o risco de perder mais, se perca tempo argumentando a respeito de potenciais ameaças, para pessoas que visível e comprovadamente estão em posições de poder, de terem suas reputações manchadas por justiçamentos online ou serem discriminados por conta de políticas públicas de proteção às mulheres.

Foram estes os temas que guiaram a produção de dois livros que conseguiram um feito inédito: unificar feminismos em disputa. O primeiro se chama “A vítima tem sempre razão?”, de Francisco Bosco, e o segundo “A discriminação do gênero-homem no Brasil em face à Lei Maria da Penha”, do excelentíssimo juiz de direito criminalista Gilvan Macedo dos Santos. Soube do segundo por conta do lançamento recente (e cancelado), mas li o primeiro, e já voltaremos a discuti-lo aqui.

Estes dois livros se enquadram nos apontamentos feitos até agora, e representam bem a falta de noção de homens frente ao sistema de opressão que os beneficia, o falso diálogo que pensam estar tendo conosco, e as crises forjadas de masculinidade para a qual apontam Kimmel e Faludi.

A dita primavera das mulheres é um marco da mudança radical nas narrativas sobre gênero no Brasil, e dada a imensa adesão de mulheres nas denúncias contra figurões de Hollywood, é evidente que estamos categoricamente rompendo silêncios. E ainda que nossas táticas de denúncia caminhem a passos tortos, elas não deixam de estar funcionando.

Judith Butler, que esteve no País e foi alvo de achincalhamentos on e offline, escreveu sobre o acontecimento declarando que não há mais como silenciar o barulho que mulheres vêm fazendo sobre a própria opressão, e ela tem razão: seguiremos falando.

Estamos falando entre nós, produzindo e compartilhando epistemologias e práticas de emancipação, e conhecemos bem as técnicas masculinas de silenciamento: quando não podem ou não querem nos calar com coerção e força, nos chamam de doidas, exageradas, vitimistas. “Triste, louca ou má”, como na letra da canção homônima de Juliana Strassacapa. Conhecemos estes cerceamentos, e não estamos nem aí para eles.

O backlash desta crise de masculinidade é forte porque eles precisam manter – e pego emprestada a articulação de Maria Aparecida Silva Bento para branquitude – o pacto narcísico. Projetamos o que não conseguimos aceitar em nós mesmos, e isso sempre me fez pensar que “mimimi” quem faz são os homens quando expomos seus podres. E até eu, fortemente investida no diálogo, desisti de tentar estabelecer troca com caras que fazem esse tipo de birra.

Minha intenção até 2017 era fazer como Beyoncé naquele elevador e permanecer elegante, mas em 2018 a meta é agir como Solange com quem não dialoga.

Ponto cego

Tomas Chamorro-Premuzic, professor de psicologia empresarial da University College London e Columbia University, recentemente publicou um artigo em que declara que nossa tendência a equiparar “liderança” com características tradicionalmente masculinas torna o homem médio mais propenso a ser apontado como líder do que a mulher média.

O resultado “é um sistema patológico que recompensa os homens por sua incompetência e pune as mulheres por sua competência, em detrimento de todos”. Longe de mim dizer que os homens que produziram conteúdo obviamente antifeminista em 2017 sejam incompetentes. Mas – como os personagens de Bardem e Dafoe – eles se beneficiam ao permanecer na ignorância sobre epistemologias feministas. Voltemos assim ao livro de Bosco.

Francisco, o homem, escreveu um livro eloquente e bem amarrado para defender o indefensável. Soube dele a partir de uma resenha da fundadora do fórum #AgoraÉQueSãoElas, Manoela Miklos, que com a sofisticação que lhe é peculiar elegantemente compôs um texto criterioso e referenciado, cujos pontos principais de crítica são a reprodução de clichês e tentativa de regular a atuação de grupos identitários vistos na obra.

O autor não gostou da crítica, e escreveu uma réplica ressentida, na qual não fez muito além de reforçar as platitudes que sustenta na publicação. Mas mesmo sem esta “treta” – que é como Bosco marca os debates que julga inferiores – o livro teria me intrigado já no título, por sua falta de sentido.

O que seria uma vítima sem razão? A pessoa ou é vítima e tem razão em denunciar seu algoz, ou então é mentirosa, e o problema daí não é ser vítima, mas mentir. Vítimas são vítimas, ponto. O conceito em disputa, aqui, parece ser a própria razão.

Não bastasse isso, o livro se utiliza da expressão “linchamento” para descrever justiçamentos online, palavra cuja origem e aplicações concretas acometem desproporcionalmente grupos identitários que definitivamente não são compostos por homens brancos heterossexuais, e este uso é indicativo do descaso do autor perante o que dizem os grupos que ele julga não terem razão.

O livro é bastante raso, sobretudo porque não investiga as perspectivas sobre as quais discorre conforme elas são produzidas pelos grupos que critica. Um exemplo é o debate feminista sobre identidade.

Bosco até cita Wendy Brown, mas via Safatle e sem passar perto de Wounded Attachments, justamente a obra na qual ela discorre sobre os riscos da política de identidade – dentre os quais está incluso, ironicamente, o ressentimento.

Desconhecendo o debate interno, o livro também falha em articular o chamado de Susan Bickford, em Anti-Anti-Identity Politics, que sustenta que pensar em reivindicações de identidade como obsessão com sofrimento é ignorar que é a perspectiva dominante de uma cultura o que pauta a identidade de suas vítimas. Isso ecoa e se expande em Iris Marion Young, para quem clamores por justiça não são nem identitários, mas sim pela liberdade para ser quem se é sem que isso acarrete em desvantagens, sociais ou econômicas.

Outro exemplo é a afirmação de Bosco sobre dizer-se psicologicamente abusada, o que para ele implica admissão ou reivindicação de não ter autonomia. Se tivesse pesquisado melhor, Bosco saberia que autonomia é outro enorme debate feminista – e não somente na torre de marfim da academia hegemonicamente branca de onde tiro estas parcas referências.

Marilyn Friedman sugere que autonomia envolve escolher viver de acordo com os próprios padrões na medida do plausível, Stoljiar explora a possibilidade de autonomia feminista institucional, e Anne Phillips indaga a viabilidade das duas proposições. E como esquecer Foucault, para quem agência (uma indiscutível manifestação de autonomia) é um efeito, e não uma causa de reconfigurações de poder? De que autonomia Bosco fala?

Um autor que explica poder de forma tão sucinta deveria aplicar a lógica que desenha à articulação crítica que faz sobre políticas de identidade e autonomia, ou ao menos buscar o que dizem sobre isso os grupos que critica. Mas o que dizemos parece ser exatamente o ponto cego para homens, e é aí que o título da resenha de Miklos é certeiro: o livro é mesmo o crepúsculo do esquerdomacho, que ainda não compreendeu não ser o bastião da razão por não precisar conhecer outra perspectiva além da que já o autoriza a questionar a razão de outros grupos.

Me pergunto se homens como Bosco pensam estar genuinamente contribuindo ao apontar de fora sem conhecer a visão de dentro, que é crítica e racional. Esta certeza de poder falar sobre o que falamos sem de fato nos pesquisar denota a presunção e a mediocridade a que se refere Chamorro.

O feminismo é recorrentemente operacionalizado por homens, mas reconhecemos os espantalhos teóricos e falácias articuladas a partir de alusões preguiçosas a fragmentos de argumentos que nós mesmas desenvolvemos. É justiçamento eu apontar isso? Recalque? Ou exposição de um certo abuso de um certo poder que reside em certas posições de privilégio? A mente ferve.

O reducionismo teórico e do perfil de mulheres que denunciam é risível. São as velhas relativização da violência e jogo de descrença sobre a veracidade da narrativa das mulheres, versão pós-verdade em edição de capa dura. Só na imaginação de homens ressentidos com suas próprias sombras o feminismo denuncia por ser obcecado com a imagem da mulher frágil e destituída de autonomia.

Essa imagem existe? Sim. Mas não está nem perto de ser o todo do feminismo, e precisaríamos de dados concretos para atrela-la a um padrão propulsor de denúncias. É a violência institucionalizada e naturalizada dos homens o que origina denúncias, seja de adolescentes radicais ou de ricas vencedoras do Oscar.

O chorume marinado em lágrimas de homens chateados com a própria escrotidão é caricato, mas se torna ameaçador visto que angaria simpatizantes que convenientemente esquecem dos riscos reais que mulheres correm para solidarizarem-se com o chororô de uma minoria que se sente atacada quando está simplesmente sendo exposta, seja por suas violências ou pela cometida por seus pares.

É preciso parar de confundir a falácia argumentativa ad hominem com o apontamento de que homens violentam, abusam, oprimem e matam mulheres. A perspectiva de certos homens não é negada por eles serem homens, mas por ser equivocada. São suas falas o que demonstra a surdez seletiva em relação às denúncias que fazemos.

O que desqualifica o livro de Bosco não é o fato de ele ser ter sido escrito, como o próprio autor descreveu, “por um sujeito de fora”, mas por ser fraco. O que homens como ele pensam ser o direito ao contraditório com registro de complexidade não passa de uma panaceia de referências pinçadas com seletividade para manter as coisas como elas são.

O falso diálogo está exposto, e não temos tempo ou disposição conversar com quem nos trata como idiotas. Angela Davis salienta que mais do que não ser racista, é preciso ser antirracista. Tampouco basta não ser machista, é preciso aprender a deixar de ser conivente com ele. E muito ajuda quem não atrapalha. Ou escuta de fato, ou adeus, mano velho.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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É fundadora da Casa da Mãe Joanna e mestre em Gênero, Mídia e Cultura.

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