A visão prosaica do presidente da Petrobrás sobre o preço do petróleo

' Castello Branco costuma falar do mercado do petróleo como se estivesse fazendo uma análise microeconômica do mercado de bananas'

Roberto Castello Branco, demitido da presidência da Petrobras. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Roberto Castello Branco, demitido da presidência da Petrobras. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Opinião

Por José Luis Fiori e Mahatma dos Santos

No dia 10 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde diagnosticou a existência de uma pandemia de escala global que estava dando seus primeiros passos fora da China, onde havia sido identificada nos últimos dias do mês de dezembro de 2019. Em seguida, a suspensão quase automática da atividade econômica urbe et orbi provocou uma queda instantânea e imediata da produção, do emprego e do consumo, com um efeito em cascata mais rápido, acentuado e universal do que na grande crise econômica da década de 1930.

Como já é amplamente sabido, esta desativação instantânea da economia mundial teve um impacto gigantesco sobre a demanda do petróleo, provocando uma queda vertiginosa dos preços, que chegaram a ser negativos durante alguns dias: queda de 40,04% do preço médio do barril de petróleo no mês de março de 2020, seguida de nova queda de 29,23% em abril. Com isso, o valor do barril do petróleo desabou de 63,60 de dólares, em fevereiro, para 23,34, no mês de abril do mesmo ano.

Depois disso, apesar do agravamento da pandemia em todo o mundo, em particular nos Estados Unidos, que se transformaram no epicentro mundial de propagação da doença, os preços do petróleo se recuperaram de forma lenta e gradual durante todo o ano de 2020, com exceção dos meses de setembro e outubro, quando houve pequeno recuo de 7,16%, no primeiro mês e de 1,51% no segundo. Depois desta pequena flutuação negativa, os preços retomaram sua tendência ascendente, alcançando a casa dos 50 dólares no último mês do ano.

No início de 2021, vários estudos e análises feitas por consultorias privadas – Deloitte, Barclays Bank e Wood Mackenzie – e organizações internacionais e nacionais – Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e a Agência Internacional de Energia (EIA, em inglês) – evidenciaram o enraizamento social, político e geopolítico das decisões econômicas no setor de petróleo e gás (P&G) na variação dos preços do barril desde o início da pandemia global do coronavírus.

Todas essas organizações apontam que a determinação dos preços internacionais dessa commodity ao longo de 2020 e nos dois próximos anos estará intimamente ligada aos efeitos da crise sanitária da Covid-19 e às condições geopolíticas e geoeconômicas do setor. Isto é, a capacidade controle do vírus (e suas novas variantes) e velocidade da vacinação; disputas geopolíticas em torno do petróleo, seja em relação ao nível de produção e à transição energética; e a incidência de eventos climáticos inesperados serão preponderantes para definir o nível dos preços do petróleo no médio prazo. Aquelas variáveis estritamente técnicas, tecnológicas, de gestão empresarial ou de mercado são consideradas secundárias.

 

 

 

Tais efeitos negativos, tanto da pandemia, como das condições geopolíticas e geoeconômicas, foram mitigados e permitiram uma lenta e gradual recuperação dos preços ao longo de 2020. Os avanços nas pesquisas de imunizantes ao vírus, a contenção relativa da velocidade de transmissão do vírus em alguns países e, principalmente, os ajustes estratégicos de alguns atores centrais na economia política do petróleo – os estados membros da Opep, os demais grandes estados produtores e consumidores de petróleo, e também suas grandes petroleiras estatais ou privadas – explicaram a recuperação os preços.

A Opep+ (os 13 membros da Opep acrescidos da Rússia e de outros grandes produtores), primeiro em abril, realizou um corte de cerca de 10% da oferta global de petróleo e, depois, em dezembro de 2020, repetiu a dose, com novo anúncio de corte de 500 mil barris/dia da oferta global, que caiu de 7,7 MB/d para 7,2 MMb/d. Ademais, nessa conferência de dezembro, a Opep+ anunciou que pretendia, em 2021, retomar de forma gradual a produção adicional de 2 milhões de b/d, condicionada a avaliações periódicas realizadas por todos os países membros em reuniões mensais. Em março de 2021, as medidas de contenção da oferta, aplicadas em janeiro e fevereiro, a despeito de pressões da Rússia, foram prorrogadas até pelo menos o mês de abril de 2021.

Durante o ano de 2020, e, em particular, depois do mês de abril, logo no início da pandemia do Covid-19, pesaram decisivamente para a lenta, mas regular retomada dos preços do petróleo, em 2020, o controle chinês da epidemia e sua recuperação econômica, que fez da China o único país do mundo com crescimento médio positivo de 2,3% do PIB.

Já no final do ano, a vitória democrata de Joe Biden, nos Estados Unidos, criou uma imediata expectativa de vacinação massiva e controle da pandemia americana, com a retomada e recuperação de sua atividade produtiva – o mesmo devendo ser dito com relação aos países-membros da União Europeia.

Além disso, a vitória do democrata criou a expectativa de afrouxamento das sanções impostas ao Irã e à Venezuela, o que permitiria aumentar a oferta global do óleo para atender ao crescimento previsto da demanda, sem que fosse necessário elevar o nível dos preços muito acima de onde estavam logo antes do início da pandemia e da crise econômica de 2020.

Ao mesmo tempo, os principais analistas do mercado financeiro e de petróleo apostaram na retomada da produção dos países da Opep+.

Por isso, o Morgan Stanley e várias outras agências e analistas do mercado petroleiro previram uma estabilização ou possível queda do preço do barril do petróleo, até o segundo semestre de 2021, em torno de 50 ou 55 dólares.

Assim mesmo, para surpresa dos analistas e de suas previsões estabilizadoras, entre os meses de dezembro de 2020 e fevereiro de 2021, o preço do óleo deu um salto de quase 35%, chegando a 73,38 dólares nos primeiros dias de março, nos mercados asiáticos.

Logo em seguida, recuou 1,6%, indo para 68,24, e tudo indica que possa se estabilizar neste patamar, caso não ocorram novas surpresas sanitárias e “solavancos geopolíticos” característicos deste mercado estratégico que opera de forma completamente diferente de outros mercados industriais.

Agora, que fatores poderão ter alterado esta rota de subida regular do preço, com um solavanco que o elevou acima dos 70 dólares no início deste mês de março? Uma soma de decisões e acontecimentos que não estavam computados nos modelos de análise e previsão utilizados pelo “ainda presidente” da Petrobrás que costuma falar do “mercado do petróleo” como se estivesse fazendo uma análise microeconômica do “mercado de bananas”.

Do lado sanitário e político: i) a rápida desaceleração do contágio nos Estados Unidos depois da posse de Biden, somada à aprovação, pelo Congresso americano, de um pacote de estímulo econômico no valor de 1,9 trilhão de dólares, elevando para 5 trilhões os gastos em programas de ajuda econômica contra a pandemia, valor equivalente a 25% do PIB americano; ii) o pacote econômico da mesma natureza – no valor de 750 bilhões de euros – que foi aprovado pelo parlamento europeu como ajuda aos países mais atingidos pelos efeitos sanitários e econômicos da pandemia; iii) e, finalmente a previsão de um crescimento de 6,5% da economia chinesa em 2021, que deve ter impacto em toda a região asiática, cujo controle da pandemia ocorreu de forma mais eficiente limitando seu contágio econômico.

Também pesaram na aceleração imprevista do preço do petróleo nos dois primeiros meses de 2021 alguns acidentes de percurso e alguns acontecimentos geopolíticos de efeito instantâneo, sem que haja nenhuma hierarquia de importância nesta lista onde se incluem:

i) a onda de frio e a queda da produção de petróleo do estado do Texas, nos Estados Unidos;

ii) as baixas temperaturas, principalmente no Japão e no Sudeste Asiático, que fizeram a demanda por energia da região crescer excepcionalmente no início de 2021;

iii) o ataque dos rebeldes Houthis do Iêmen ao porto de Ras Tanura, utilizado pela Arábia Saudita para exportação do seu petróleo;

iv) os ataques de origem ainda não identificada contra instalações petroleiras no território da Síria;

v) a perda da confiança dos analistas e investidores com relação à possibilidade de relaxamento das sanções americanas contra o Irã e a Venezuela, que poderia facilitar um aumento da oferta de petróleo por parte destes países detentores de grandes reservas;

vi) as primeiras iniciativas do governo de Biden estarem apontando na direção da manutenção ou agravamento da competição e rivalidade com a Rússia, gerando expectativas de novas sanções, sobretudo contra o grande projeto de construção do gasoduto entre a Rússia e a Alemanha, através do mar Báltico, o Nord Stream, ainda mais depois das agressões pessoais do presidente Biden ao seu contraprarte russo, Vladimir Putin;

vii) por fim, com relação à China, sobretudo depois da realização, no dia 12 de março de 2021, da primeira reunião do QUAD, “Diálogo de Segurança Quadrilateral” reunindo Estados Unidos, Japão, Índia e Austrália, que decidiram fortalecer seus laços econômicos e militares, com a construção de um novo anel militar em torno da China, e que foi seguida de uma reunião extremamente tensa, entre chefe do Departamento de Estado norte-americano, Antony Blinken, e o Ministro de Relações Exteriores chines, Wang Yi, realizada no Alasca nos dias 18 e 19 de março de 2021.

Em meados de março, a suspensão da aplicação do imunizante da AstraZeneca em alguns países da Europa, um possível endurecimento da política externa americana e o anúncio da EIA de que a retomada da demanda por petróleo ao nível pré-pandêmico deve ser bem mais lenta – cerca de dois anos – fizeram os preços voltarem aos patamares próximos a 60-65 dólares.

Mesmo assim, nada indica que os preços do barril do petróleo devam ficar muito longe desse patamar. Aliás, as análises indicam que eles devam permanecer ou flutuar entre os valores de 55-65 dólares nos próximos meses, enquanto ele estiver dependendo dos fatores exclusivamente de mercado. Mas o mais provável é que ele venha a ser afetado por alguns “soluços geopolíticos” que devem se suceder e intensificar no segundo semestre de 2021, podendo elevar este preço até 70 ou 75 dólares, para escândalo da microeconomia de botequim do Sr. Castello Branco.

 

José Luis Fiori é Professor titular do Instituto de Economia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), coordenador do Laboratório de “Ética e Poder Global”, do Nubeia (Núcleo de Bioética e Ética Aplicada) da UFRJ, e pesquisador do Ineep (Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis)

Mahatma Ramos dos Santos é Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da UFRJ e assistente de pesquisa do INEEP

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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