A vida lá fora como ela é

A mãe não vê a hora da vacina chegar para as pessoas com quarenta anos para ela poder mostrar para Eduarda a rua, os automóveis, as pessoas

(Foto: iStock)

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Opinião

Maria Eduarda tinha seis meses e pouco naquele fevereiro de dois mil e vinte. Tinha ido na Escolinha Catatau apenas duas vezes. No primeiro dia, chorou ao acordar, dormiu no carro e chorou novamente quando foi entregue aos braços da tia, na porta da Catatau. Bateu as perninhas e os bracinhos e partiu o coração da mãe. No final da tarde, dormia quando a mãe, ainda com o coração partido e na mão, foi buscá-la. Abriu os olhinhos dentro do carro, olhou desconfiada para um lado e para o outro e continuou equilibrando a chupeta na boca, cara de sono.

No segundo dia, foi bem mais tranquilo. Acordou sem choro, passou o percurso com os olhos abertos e só esboçou um choro leve quando viu o portão vermelho da Catatau abrir. Mas foi nos braços da tia sem problema, a mãe respirou aliviada. Nos dois dias, Maria Eduarda conheceu o Benjamim, o João Pedro, o Caio e o Lucas. Conheceu também a Clarice, a Sofia e a Stela.

Os dois relatórios exalavam otimismo: No primeiro dia, a Maria Eduarda comportou-se muito bem, como uma menininha já. Participou das brincadeiras com os coleguinhas, comeu maçã raspada e bebeu água na mamadeira. Não quis o pedacinho de pão que foi oferecido. Dormiu um pouco depois do lanche. Maria Eduarda está se revelando uma menina muito. No segundo dia, a Maria Eduarda gostou de comer mamão amassado com aveia e parecia pedir mais quando acabou. Engatinha com facilidade em busca de brinquedos e olha desconfiada para os coleguinhas. Parabéns, Maria Eduarda!

No terceiro dia, a Catatau ligou pra mãe informando que a escola fecharia por causa da pandemia. Não apenas a Catatau, todas. Frustração no ar. Maria Eduarda acordou mais tarde, nem percebeu que não tinha que ir pra escolinha. Brincou no berço com o Pinóquio de pelúcia, tomou a mamadeira, leite quentinho, e foi pro chão forrado com uma manta xadrez vermelha e amarela. A mãe colocou a Galinha Pintadinha na televisão, ela ensaiou uma mexidinha no corpo e logo em seguida ignorou.

Hoje, Maria Eduarda tem um ano e meio. Quando fez um ano, ganhou um velocípede, que por aqui chamam de tito-tico. Já senta nele sozinha e fica pedalando pra frente e pra traz fazendo força com o corpinho para ele andar. Já come de tudo, arroz, feijão, mandioquinha amassada, carninha picada. Adora. Entende tudo que a mãe fala e faz cara de muxoxo quando ela coloca máscara, sinal de que vai sair. Maria Eduarda passa o dia em casa enquanto a mãe trabalha no computador fechando planilhas e fazendo reuniões virtuais. Bob chegou faz um mês e pouco e ela adora correr atrás dele e puxar o rabo, o cachorro rosna e ela olha meio assustada.

A mãe não vê a hora da vacina chegar para as pessoas com quarenta anos para ela poder mostrar para Eduarda a rua, os automóveis, as pessoas, a avó, o avô, os pardais ciscando, outros cachorros, os garis, as árvores, o carrinho de picolé, o pombo cantando a pomba, a vida como ela.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Jornalista e escritor, prepara o lançamento do “Almanaque Maurício Kubrusly”, pela Panda Books.

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