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A vacina ‘de origem turca’ e o debate sobre os Outros na Alemanha

A euforia pela descoberta da vacina contra o Covid-19 foi grande. E a exploração da outridade dos pesquisadores também.

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Uma luz ofuscada por sombras insistentes, aparece nesse possível fim do túnel da pandemia do Covid-19. O Reino Unido iniciou na última semana a pioneira campanha de vacinação em massa contra o Covid-19 depois do fechamento de contrato com o grupo Pfizer/BioNTech. Enquanto isso a meticulosa Alemanha, país de origem dos pesquisadores da BioNTech, luta nas suas instâncias institucionais europeias para liberar a vacinação em massa, numa guerra de nervos contra a população e os negacionistas de plantão, que teimam em colocar em questão a efetividade da vacina.

Mas são outras sombras da luz, na encruzilhada da pandemia do Covid-19, que necessitam de holofotes. O preconceito e o racismo não dormem, especialmente numa sociedade industrializada que insiste em pôr o lugar do migrante na “outridade”, que é o caso dos pesquisadores da BioNTech, num episódio, que quase passou despercebido pelo mundo, mas que, gostaria de partilhar aqui com leitorxs desta coluna.

Ugur Şahin e Özlem Türeci,o casal de pesquisadores alemães (sim, vocês leram alemães!) e donos da BioNTech, que há meses se encontra nas notícias mundo pelo negócio bilionário com a entrada na DAX, com a descoberta e comercialização da vacina contra o Covid 19. Uma “história de sucesso dos efeitos da imigração”, celebram tabloides e jornais na Alemanha.

 

“De origem turca”. Uma frase querida e repetida diversas vezes, em quase todas as narrativas em referência aos pesquisadores, nascido, no caso de Özlen, e socializados em terras teutônicas. Essa frase define claramente um dos  marcadores de “outridade” e “racialização” que o histórico de migração que alguns grupos nascidos ou não na Alemanha carregarão em vários níveis de vida.

A euforia pela descoberta da vacina contra o Covid-19 foi grande. Mas ler as notícias a respeito, nos deram uma ideia de como a sociedade alemã percebe as contribuições de seu maior grupo de migrantes. Jornais como o Taz, Freitag, de perfil social crítico, ou o Manager Magazin foram alguns que tematizaram um certo desconforto nas narrativas atribuídas aos dois cientistas alemães, visto como “heróis” por um lado, mas “migrantes”, por outro, como se isto, fosse uma contradição.

Ozlem Tureci e Ugur Sahin (Foto: AFP)

No Taz, o jornalista e redator Volkan Agar manifesta certa indignação, no seu artigo de opinião do 11.11.2020, quando remete essa irritação contra os dois cientistas ao imaginário social alemão, ao afirmar que o “trabalho intelectual não pode ser esperado pelos filhos dos que trabalharam com as mãos”.

Refere-se assim especialmente aos filhos dos chamados “Gastarbeiter”, trabalhadores estrangeiros vindos do sul da Europa e do Mediterrâneo, como Itália, França, Grécia e Turquia de 1955 até 1977; “Trabalhadores convidados”, emigrantes que chegaram à Alemanha como força de trabalho barato para alavancar o milagre econômico do país. O autor conclui que a visibilidade  da contribuição migrante na sociedade alemã só se estabelece pela condição de que “apenas um migrante que faz muito é um bom migrante”, referindo-se à atitude “heroica” de descobrir a vacina contra o Covid 19.

A ciência, ou lugares de destaque como na diplomacia ou cooperação técnica, sempre foram marcado pela supremacia do chamado “Bildungsbürgerturm”, uma expressão do alemão para designar a elite do conhecimento: branca e “alemã”, claro. Por isso, a “surpresa” e a “irritação” de uma sociedade quando dois pesquisadores, com nomes turcos e de origem migrante, alcançam um lugar de destaque. A “descendência” é marco central nas relações interpessoais.“Prussianos”, “refugiados etíopes”, ou turcos, a hierarquização no valor social dessa “origem” social, econômica e racial é inevitável.

Certa vez, quando numa das minhas atividades profissionais no além-mar como cooperante internacional, esperava no aeroporto a visita de um importante diretor de uma grande Agência de Cooperação. Percebendo que ele não chegava, voltei ao carro do projeto. De repente um homem imenso de dread locks vinha na minha direção e perguntou se eu era a Betânia Ramos Schröder, falei que sim. Olhamos um ao outro, e rimos. Éramos dois negros “estrangeiros”, de dread locks, surpreendidos por estarmos naquele lugar, que no nosso imaginário não nos pertencia. Pois era o lugar do branco europeu ou norte-americano e não de uma sul-americana, ou de um caribenho.

É urgente a importância do olhar decolonial sobre os lugares de pertencimento.

Em muitas cidades no mundo, assim como na Alemanha multiculturalidade é um fato, mas a luta para ser parte inteira nessas sociedades é desafiada pelas sombras do “racial profiling”, dos ataques diários contra pessoas racializadas, nativas ou não, que são chamadas a voltar para os seus “países de origem”, pois aquele lugar não as pertence.

O direito constitucional é de todos os cidadãos e cidadãs, e deverá considerar a igualdade na diversidade, especialmente com vistas às transformações culturais que essas sociedades perpassam pela mobilidade humana que atinge outros níveis de dimensão e apelo socioeconômico. E seremos nós que não nos calaremos e exigiremos em todas as instâncias o nosso lugar de humanidade, onde quer que estejamos.

Betânia Ramos Schröder

Betânia Ramos Schröder
socióloga, ativista, mãe e autora, residente em Frankfurt. Há vinte anos fora do Brasil trabalhou como cooperante internacional e consultora em países como Alemanha, Angola, Turquia e Bósnia e Herzegovina nas áreas de desenvolvimento local, participação política e reconstrução nacional pós-conflitos armados. Iniciadora da coletânea de ensaios de mulheres afro-brasileiras “O legado de Marielle Franco e as Mulheres Afro-brasileiras da Diáspora em Frankfurt e Mainz”. Membra da Associação BrasilNilê e.V , Coletivo Afrobras: enegrecendo Frankfurt e da diretoria da Pan-African Women’s Empowerment & Liberation Organisation e.V.

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