Esther Solano

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Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Complutense de Madri e professora de Relações Internacionais da Unifesp

Opinião

A terceira via nasceu mais morta do que viva

Em vez dos candidatos se unirem em torno de um nome comum, cada vez há mais nomes a se engalfinhar nessa ausência de espaço

Moro, Ciro e Doria.

Fotos: Marcelo Camargo/Agência Brasil; Mário Miranda/Amcham/Divulgação; e GOVSP
Moro, Ciro e Doria. Fotos: Marcelo Camargo/Agência Brasil; Mário Miranda/Amcham/Divulgação; e GOVSP
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Com frequência alguém me pergunta o que acho das possibilidades eleitorais da terceira via. Sempre respondo: nenhuma. Sem mais, sem paliativos. Há muito tempo repito a mesma coisa. A terceira via nasceu mais morta do que viva, com escassíssima capacidade de alçar os voos numéricos nas pesquisas.

Por quê? Simplesmente, porque não há espaço. Os espaços podem ser de muitas formas, de muitas dimensões, de muitas propriedades. Há espaços físicos, simbólicos, afetivos, políticos. A terceira via não cabe em nenhum deles. Os campos sociopolíticos do lulismo e do bolsonarismo são grandes demais em termos de paixões e em termos de potencial mobilizador. Odeie-se ou não Bolsonaro, não podemos negar que ele representa uma poderosa força libidinal. Goste-se ou não de Lula, não podemos negar que ele também é outra poderosa força libidinal. E o que resta entre duas enormes correntezas libidinais? Nada. Um vazio. Muitos eleitores podem até se sentir cansados da dualidade Lula-Bolsonaro. “Queremos algo novo” é uma frase recorrente. Sim, de fato muita gente que ainda não definiu seu voto gostaria de um nome diferente, de um rosto diferente, mas a realidade é que, mesmo ao desejar esta mudança, não há espaço para ela nas mentes, nas emoções, nas perspectivas dos brasileiros, no seu presente nem no seu futuro. Existe Lula. Existe Bolsonaro. Mais ninguém.

Há certo paradoxo nessa situação. Ao mesmo tempo que a luta entre dois ­titãs esgota, ela seduz. Lula e ­Bolsonaro. Podem até cansar os nomes entre alguns setores, mas eles atraem, são como ­catalisadores, como ímãs afetivos, não dá para escapar deles. Tudo orbita no ­entorno. ­Buracos negros da política que sugam as forças de quem está por perto. Sim, o ­nome de ­Sergio Moro ecoa um ­pouqui­nho por aí, o de Ciro Gomes outro pouquinho por lá, o de João Doria, este não ecoa mesmo… Bagatela, migalhas, nada concreto, nada sólido. Dias atrás, entrevistei eleitores de Moro, que, perto do fim da entrevista, me confessaram, sem pudor nenhum, que, se o ex-juiz não subir nas pesquisas, eles talvez votem no Lula, porque “não vou perder o voto, né?” É isso, fidelidade eleitoral só uns poucos merecem.

E tudo isso sem contar que cada vez há mais candidatos na disputa pelas migalhas. Em vez de se unirem em torno de um nome comum que consiga ganhar alguma musculatura, cada vez há mais nomes a se engalfinhar nessa ausência de espaço. Curioso, não? Tanta gente a querer disputar… o nada, o vazio.

É isso, a terceira via só teria chance se ela se transformar numa segunda via. Se Bolsonaro vier a morrer politicamente e for substituído. Nesse cenário, poderia ser. Dessa forma, é curioso ver como alguns candidatos se esforçam até o limite do desespero para abrir buracos nesse vazio político. É curioso e dramático ao mesmo tempo porque há quem tente cavar buracos brincando com a vida alheia. É o caso de Doria. Quando pergunto a respeito da avaliação do governador de São Paulo nas minhas entrevistas, a resposta é unânime: “oportunista”, “mentiroso”, “artificial”, “eleitoreiro”. Há uma convergência abissal na percepção de que ele politizou a vacina, vacinou não por respeito ao povo, mas como forma de colher benefícios eleitorais do sofrimento e se beneficiar individualmente. Os entrevistados percebem, com total clareza, que ele age só para ganhar poder, que ele cobiça a faixa presidencial, que a vacina não é cura para ele, mas o caminho do Planalto. Percebem a teatralidade, a impostura, a ansiedade de vitória.

O governador de São Paulo, talvez convencido de que é mais inteligente do que o povo, o qual, certamente percebe e julga como burro, continua, no entanto, a dar os mesmos passos, uma e outra vez. Focos, holofotes, grandes declarações. Agora foi a máscara. Não precisa dela, a pandemia acabou. A máscara atrapalha a subida da rampa do Planalto, então fora com a máscara. Se for a vida que está em jogo, fazer o quê? Brasília aguarda. Só que não. Brasília aguarda, mas outro. Boa sorte com os 2%. Já vi milagre, mas esse aí teria de ser produzido por um Deus onipotente demais e intuo que Doria não se dá muito bem com esses deuses.

É isso, os nomes da terceira via continuam a se esfacelar pelo nada, pelo vazio, enquanto o cenário eleitoral define-se cada vez mais. Lula e Bolsonaro. Confesso que eu tremo cada vez que penso no que a gente vai enfrentar. Mas como eu tampouco me dou muito bem com esses deuses por aí, confio no voto, em nós. Vamos em frente.

Terceira via, descanse em paz.  •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1201 DE CARTACAPITAL, EM 30 DE MARÇO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Descanse em paz”

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Esther Solano

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Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Complutense de Madri e professora de Relações Internacionais da Unifesp

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