A Superliga Europeia e o Clube dos Treze

Os episódios são parecidos, mas muito diferentes em suas motivações e propósitos, escreve Luiz Gonzaga Belluzzo

Torcedores do Leeds United, da Inglaterra, em protesto contra a criação da Superliga. Foto: Paul ELLIS/AFP

Torcedores do Leeds United, da Inglaterra, em protesto contra a criação da Superliga. Foto: Paul ELLIS/AFP

Opinião

O fracasso da Superliga Europeia trouxe à colação o episódio de dissolução do Clube dos Treze em 2011. Com a dissolução do Clube dos Treze, o projeto da formação da Liga escorreu ladeira abaixo.
Os episódios são parecidos, mas muito diferentes em suas motivações e propósitos. Ao ler uma matéria no portal UOL desconfiei que deveria prestar esclarecimentos a respeito das diferenças. Nesse caso, o transcorrer dos acontecimentos nos obriga a inverter a dialética contraditória: uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, mesmo.

Se os jogadores ingleses ostentavam e exibiam cartazes com a palavra Greed (Ganância) em letras garrafais, um grupo de presidentes de clubes brasileiros tentava erguer as placas gravadas com as palavras Igualdade e Competitividade.

No episódio da dissolução do Clube dos Treze, indagado sobre quem manda no futebol brasileiro, o ex-jogador Alex, hoje assessor técnico do São Paulo FC, não trepidou em desdenhar a CBF (“uma sala de reuniões”) e botou os senhores da mídia no trono. “Quem manda no futebol brasileiro é a Rede Globo”.

Para bom entendedor, basta relatar a eleição para a presidência do Clube dos Treze em 2010. O Reino da Bola e o Reino Midiático juntaram suas forças em torno da candidatura do empresário Kleber Leite. A Santa Aliança tinha a missão de transformar a “sala de reuniões” no bunker inexpugnável dos generais futebol. O propósito era submeter os ainda recalcitrantes entre os clubes brasileiros a um comando sem fissuras e oposições e, melhor, sem “desperdícios financeiros”, leia-se, sem a adoção de critérios mais igualitários na distribuição das cotas entre os participantes dos campeonatos.

Em 2010, no episódio da negociação dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro, os Senhores das Imagens jogaram pesado. O Clube dos 13 teve a ousadia de propor uma licitação com regras adequadas ao complexo de mídias oferecidas pela moderna tecnologia digital. Ataíde Guerreiro, o diretor-técnico da comissão encarregada de definir os termos da negociação, teve a iniciativa de acelerar a supressão do direito de preferência, um filhote do monopólio.

A Santa Aliança fracassou: Kleber Leite perdeu a eleição. Mas como é praxe nos Brasil dos Senhoritos e Paneleiros, quem ganha no voto não leva. Os Donos da Bola implodiram o Clube dos Treze. Andrés Sanchez rezou o epitáfio da associação dos clubes ao declarar em reunião que se aliou aos “gângsteres” da Rede Globo. No carnaval de 2011, dois clubes do Rio de Janeiro chegaram ao ridículo de assinar uma carta de rompimento com o Clube dos Treze, certamente escrita no embalo das folias Momo. Em matéria de direitos de transmissão, o futebol brasileiro debate-se nas garras do Senhor das Imagens, acolitado por demônios miúdos que se enriqueceram à custa da intermediação dos direitos que pertencem aos clubes. Isso para não falar do desrespeito ao torcedor brasileiro, obrigado a ver os jogos de seu time às 22 horas, horário apropriado par uma disputa entre lobisomens e mulas sem cabeça.

Aos que ainda guardam humor suficiente para se divertir com hipocrisias, recomendo sintonizar a memória nos trejeitos e chiados da jornalista Leilane Neubarth na GloboNews. Ao tratar da questão, ela insistia em indagar quem era mocinho ou bandido nessa história, no ingente esforço Global de ocultar o problema real e jogar areia nos olhos dos incautos.

 

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Economista e professor, consultor editorial de CartaCapital.

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