A sobrecarga das mulheres na criação e sustento dos filhos

'Como educadora, não foram poucas as situações de abandono paterno que presenciei'

Foto: Elói Corrêa/GOVBA

Foto: Elói Corrêa/GOVBA

Opinião

Anos atrás participei de um jantar cujo anfitrião era um advogado branco que comemorava o ganho de uma ação. Dos incômodos que senti naquela noite, dois deles foram maiores. O primeiro foi o objeto da causa ganha: obter na justiça o consentimento para um homem não mais dispor de suporte financeiro ao filho. Segundo o festivo advogado, o jovem cursava uma universidade em período integral e apesar da maioridade, pleiteava apoio financeiro.

O advogado contava, em tom de bravata, ter argumentado que o cliente vivia com dificuldades. Enquanto saboreava uma cerveja, repetiu sorrindo a frase do juiz ao final da audiência: “Quer que seu pai pegue papelão na rua?

O segundo foi quando o anfitrião se ofereceu para pagar a conta de todos. Após seus cartões serem sucessivamente recusados, não se constrangeu ao dizer para o garçom exibindo a carteira: “ Vá tentando esses aqui. Tenho cara de quem não tem crédito?” Como nenhum cartão foi aceito, a gerencia autorizou que o jantar fosse debitado dos créditos que possuía por ser o advogado responsável pelo acompanhamento jurídico do restaurante. Finalizou o espetáculo dizendo aos convidados: “Se não dá no débito ou crédito, pague com o que você é”. 

Foram inúmeros os privilégios demonstrados naquele jantar. A certeza de que sua aparência dava a ele credibilidade. O orgulho em ter a concordância do juiz quanto à responsabilidade com a educação de um filho terminar assim que completasse 18 anos.

Debochar da mãe do rapaz que, segundo ele, disse ao filho no final da audiência que poderia contar com o suporte dela, uma mulher negra, e prometeu ampliar o número de faxinas se necessário. O privilégio de festejar em um restaurante com amigos, pagando a conta com o que ele representava socialmente.

Ao som de gargalhadas dos convidados, o anfitrião apontou para o garçom, um jovem negro, de idade similar ao estudante que perdeu a causa e disse cinicamente, que se aquele jovem estava servindo mesas, o filho do seu cliente poderia fazer o mesmo.

Na minha longa trajetória na educação, inúmeras vezes vi estudantes nas salas das diretoras das escolas, quando exigiam a presença de responsáveis familiares, acompanhados sempre por mulheres dispostas a protegê-los.

Quantas histórias de abandono paterno ouvi de mulheres que chegavam empurrando cadeiras de rodas de estudantes com algum tipo de deficiência.

Foram incontáveis denúncias de violência contra crianças e jovens com as quais me deparei nesses mais de 30 anos. A maioria delas envolvia meninas abusadas por homens, muitos deles membros da família.

Quantas e quantos jovens conheci na educação de adultos (EJA), que contaram estar em idade avançada para cursar o Ensino Fundamental, porque trabalhavam desde a infância para contribuir com o sustento da casa e apoiavam mães, com história de violência doméstica e abandono.

Eu não sei se o jovem conseguiu o diploma, ou quantas faxinas a mãe precisou fazer, mas tenho convicção de que muitos homens se sentem autorizados socialmente para reproduzirem situações como as vivenciadas por mim naquele restaurante, impactando vidas de maneira violenta, muitas vezes protegidos sob o manto da Justiça.

Sei também que o número de mulheres chefes de família neste pais não para de subir, mesmo nas casas onde há a presença de um parceiro. É uma escalada crescente na liderança familiar e nos espaços educativos, ocasionando também um aumento da escolaridade de mulheres, no comparativo com os homens, segundo o Ipea.

Estou consciente da necessidade de ampliação de políticas públicas que garantam a permanência de jovens vulneráveis na nas instituições educativas. Sabemos que homens negros ainda são espancados até a morte nos supermercados, por terem uma aparência que não recebe crédito social.

Tenho consciência também que inúmeras trabalhadoras precisam levar seus filhos ao trabalho por não contarem com uma rede de apoio, a exemplo do menino Miguel, que caiu do nono andar quando estava à procura de sua mãe, que levava o cão da patroa privilegiada que não que cuidava da limpeza do lugar onde vive, mesmo durante uma pandemia.

A boa notícia é que estamos aprendendo as lições de mulheres negras, a exemplo do que nos ensinou Toni Morrison: “Quem é mau, ama com maldade, o violento ama com violência, o fraco ama com fraqueza, gente estúpida ama com estupidez e o amor de um homem livre nunca é seguro”.

Sei também que é cada vez maior o número de homens dispostos a implodir esta masculinidade violenta forjada durante séculos, que se reconhecem alguns cedo, outros bem tarde, na canção Super Homem de Gilberto Gil: “Um dia, vivi a ilusão de que ser homem bastaria. Que o mundo masculino tudo me daria do que eu quisesse ter […]”. Esses são homens que querem criar pontes e derrubar os muros.

Nesta época em que muitos pensam no Natal, palavra que nos remete a nascimento e a boas novas, anuncio que já nasceu um tempo em que o crédito confiado, apenas na aparência do “masculino”, está com os dias contados. Esse sim será um melhor Natal!

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Pedagoga com 30 anos de experiência na área da Educação no município de São Paulo. Foi Coordenadora Pedagógica, Supervisora Escolar 10 anos. Supervisora Técnica por 4 anos. Diretora da Divisão de Normatização Técnica da Secretaria Municipal de Educação.

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Editor no site de CartaCapital. Advogado, fundou o site Justificando, onde foi diretor de redação por quatro anos. 

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