A saúde de Bolsonaro já não provoca pesar, torcida ou empatia. Isso diz muito sobre sua saúde política

Não precisamos de teorias conspiratórias para compreender o que acontece no momento. Quem precisa delas é, justamente, Jair Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro, hospitalizado por obstrução intestinal no dia 14 de julho (Reprodução/Instagram)

O presidente Jair Bolsonaro, hospitalizado por obstrução intestinal no dia 14 de julho (Reprodução/Instagram)

Opinião

O episódio já começou estranho, para dizer o mínimo. Remetia a uma espécie de escapulida calculada, nos moldes da reunião cancelada por Jair Bolsonaro em julho de 2019 com o chanceler francês – quando, alegando problemas de agenda, o presidente do Brasil apareceu sentado numa cadeira de barbeiro em transmissão ao vivo no horário em que a reunião deveria começar.

Agora, após semanas apresentando, publicamente, soluços que interrompiam suas falas e suscitavam especulações, o presidente do Brasil resolveu fazer exames médicos justamente no dia em que havia sido agendada uma reunião com os chefes dos Três Poderes após mais uma série de episódios de ataques às instituições e a autoridades do Estado por parte de Jair Bolsonaro, ministro da Defesa e membros das Forças Armadas com direito a ameaças de golpe nada veladas. 

Coincidência ou não, a certeza é de que o adiamento ou cancelamento de tal reunião foi extremamente conveniente para o presidente da República.

Muitos conspiracionistas já fazem, compreensivamente, associações entre esse episódio e a facada de setembro de 2018 — que, para eles, teria sido uma farsa. Mas não creio em encenações conspiratórias. Principalmente, ,porque é improvável que se possa controlar uma conspiração envolvendo tantas variáveis e centenas de jornalistas ávidos por um furo. Além de quê, teríamos que conceder a Jair Bolsonaro exímias competências dramáticas que ele nunca teve e nunca terá.

Sequer precisamos de teorias conspiratórias para compreender o que acontece no momento. Quem precisa delas é, justamente, Jair Bolsonaro. E é por essa chave que esse episódio precisa ser lido. 

O bolsonarismo foi forjado, fundamentalmente, por meio da comunicação em redes digitais. Da possibilidade de lutar por enquadramentos de fatos e disputar a  construção de narrativas (no sentido etimológico do termo, por favor) por meio de canais de comunicação sem filtros e maiores restrições. O oportunismo bolsonarista, que nunca deu provas de reconhecer limites no campo da ética ou da decência, sempre esteve engatilhado para converter em fatos políticos quaisquer situações aparentemente favoráveis. Não foi diferente no episódio da facada, não foi diferente quando usaram notícias e registros fotográficos de um suicida, não está sendo agora. 

Em um momento politicamente delicado, com o desvelamento de fatos comprometedores, nada mais oportuno e “abençoado” para o cristão Jair Messias Bolsonaro do que um problema de saúde para reavivar a representação de um homem hercúleo e momentaneamente combalido pelas investidas de um sistema poderoso e colossal que o golpeia porque sente que, enfim, pode ser por ele derrotado com a ajuda de um povo que sonha em se livrar da escravidão a que foi submetido por anos de socialismo. Soa patético, mas é a verdade. E aí está a primeira das duas serventias dessa estratégia. 

A segunda, já bastante manjada nos roteiros bolsonaristas, é alimentar teorias conspiratórias sobre o que poderia ter acometido, mais uma vez, o presidente. Aí, obviamente, o apelo é a uma tese de continuidade de um grande plano conspiratório, iniciado em Juiz de Fora naquele setembro de 2018. A estratégia é usar teorias conspiratórias para plantar teorias conspiratórias. 

Foi assim que procedeu o presidente, melhor dizendo, foi assim que procedeu algum de seus agentes de comunicação utilizando sua conta oficial no Twitter, que incluiu uma foto sua deitado em um leito de hospital, aparentemente convalescido, com o claro intuito não apenas de espetacularizar sua condição e encenar um vitimismo, como de ressuscitar o PT como co-autor desse plot conspiracionista. Mas não para por aí: CartaCapital mostrou que a rede bolsonarista – e possivelmente além – já tenta vender a versão de que exames médicos detectaram a presença de chumbo no organismo do presidente e que, portanto, ele teria sido vítima de alguma tentativa de assassinato por envenenamento. 

Não sou afeito a teorias conspiratórias, mas não consigo descartar o uso de hipérboles sobre a condição do presidente, afinal, a estratégia de gerar um clima de incerteza e especulações funciona para, ao menos, dividir as atenção pública que converge, cada vez mais, para um único ponto: os possíveis casos de corrupção envolvendo o presidente e outros agentes do Governo Federal e militares nas tratativas para a aquisição da vacina indiana Covaxin. 

Jair Bolsonaro, mesmo que internado, já ganhou uma batalha nesse episódio: conseguiu suspender, ou melhor, transferir sua já tradicional suspensão temporária de ataques, intempéries e ameaças golpistas diante da manifestação de autoridades dos outros Poderes para estratégias similares por meio de mensagens publicadas nas plataformas digitais. Batalha pequena, é verdade. O que parece que já não consegue mais é gerar um clima de pesar, empatia e torcida por sua recuperação como conseguiu em 2018. E isso diz muito sobre sua saúde política. 

Subscrevo Jairo Nicolau: não vejo indícios consistentes de que a facada tenha eleito Jair Bolsonaro, mas é inquestionável que o episódio gerou uma comoção nacional que lhe deu algumas vantagens, como a de evitar debates televisivos e encenar vitimizações com o apoio do jornalismo da Record. Hoje, no entanto, parece que Jair Bolsonaro está deitado numa cama de hospital muito mais solitário do que poderia imaginar. Mais convalescente do que a imagem de Jair Bolsonaro deitado em uma cama de hospital parece estar a já velha tática diversionista e conspiratória do bolsonarismo. Amém! 

Não é à toa que, pouco depois da publicação dessa, surge um bom indício do diagnóstico que faço: a conta de Jair Bolsonaro voltou a fazer ataques e a insultar membros da CPI da Covid no Twitter. Sinal de que a estratégia do “vitimismo passivo-agressivo-conspiratório” não funcionou.

Possivelmente, foi isso que Carlos Bolsonaro e sua turma de monitoramento das redes digitais constataram. Como costumam dizer no Twitter: passou recibo.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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PhD em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, membro do Grupos de Pesquisa em Democracia e Justiça (Margem) e pesquisador associado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD).

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