Presley Vasconcellos

Economista, mestre em Economia e criador de conteúdo nas redes sociais (@eupresley), onde traduz economia, finanças e investimentos de forma didática, popular e acessível.

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A ruína das Casas Bahia e a conta do capitalismo selvagem

Enquanto o pânico das redes sociais decreta a ‘quebradeira’ do País, a falência de gigantes e a ascensão dos marketplaces mostram uma transformação mais profunda

A ruína das Casas Bahia e a conta do capitalismo selvagem
A ruína das Casas Bahia e a conta do capitalismo selvagem
O brasileiro não parou de consumir. No primeiro trimestre de 2026, o consumo das famílias cresceu 1,7% em relação ao mesmo período do ano anterior – Foto: iStock
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Foi só as Casas Bahia anunciarem o pedido de recuperação judicial para aparecer, mais uma vez, o diagnóstico preferido das redes sociais: o Brasil quebrou, ninguém compra mais nada e o governo acabou com os empresários. Não importa que os dados digam outra coisa. Para esse tipo de conteúdo, uma empresa em crise basta para decretar a falência de um país inteiro e esquecer o sistema econômico que vivemos.

O Grupo Casas Bahia chegou à Justiça declarando 17,3 bilhões de reais em dívidas. Com o pedido vieram o fechamento de 298 lojas e a demissão de aproximadamente 3 mil trabalhadores. A situação é grave, evidentemente, e não acontece de maneira isolada. O Grupo Toky, dono da Tok&Stok e da Mobly, pediu recuperação judicial com cerca de 1,1 bilhão de reais em dívidas. O GPA, por sua vez, recorreu à recuperação extrajudicial para renegociar aproximadamente 4,5 bilhões de reais.

O fato de várias empresas enfrentarem dificuldades ao mesmo tempo merece atenção. O problema começa quando casos diferentes são colocados no mesmo saco e utilizados como prova de uma suposta quebradeira generalizada. Cada empresa chegou à crise por um caminho próprio, atravessado por decisões societárias, endividamento, falhas de estratégia, mudanças no mercado e, claro, pelo cenário econômico.

Na Casas Bahia, os juros tiveram um peso importante. A empresa depende de financiamento para comprar estoques, pagar fornecedores, antecipar recebíveis e sustentar o crediário oferecido aos clientes. Ela entrega uma geladeira hoje, recebe durante mais de um ano e precisa manter toda a operação funcionando enquanto esse dinheiro não entra. Com o crédito caro, a conta fica muito mais pesada.

Em maio, segundo o Banco Central, os juros médios do crédito livre às famílias estavam em 62,8% ao ano. A inadimplência nessa modalidade havia chegado a 7,6%. É evidente que uma empresa voltada para consumidores que dependem do parcelamento sentirá esse movimento com mais força.

Só que os juros não assinaram os contratos, não aprovaram os investimentos e não decidiram qual seria o tamanho da estrutura da companhia. A partir de 2019, as Casas Bahia colocaram dinheiro em tecnologia, logística e digitalização, ao mesmo tempo em que continuaram carregando uma enorme rede de lojas físicas. Parte dessa estratégia foi montada quando a Selic chegou a 2% ao ano. O problema apareceu quando o dinheiro ficou caro, a concorrência digital se intensificou e os investimentos não produziram retorno suficiente para sustentar tudo aquilo.

Em 2024, a empresa já havia renegociado aproximadamente 4,8 bilhões de reais por meio de uma recuperação extrajudicial. A operação alongou prazos e aliviou parte das despesas, mas não resolveu a dificuldade de gerar lucro. Poucos meses atrás, a administração ainda dizia que a dívida estava controlada e que a empresa iniciava um novo ciclo de crescimento. Agora, pede proteção judicial. No mínimo, houve uma enorme distância entre as projeções apresentadas e a realidade que apareceu no caixa.

O prejuízo de 10,1 bilhões de reais no segundo trimestre também foi utilizado para reforçar o discurso do colapso. Aproximadamente 9,1 bilhões vieram de baixas de ativos, provisões e outros efeitos contábeis que não representam uma saída equivalente de dinheiro naquele trimestre. Ainda assim, descontados esses efeitos, permaneceu um prejuízo ajustado de 978 milhões de reais. O número gigantesco precisa ser contextualizado, mas o problema financeiro continua existindo.

O que não aparece nessa narrativa da terra arrasada é que o brasileiro não parou de consumir. No primeiro trimestre de 2026, o consumo das famílias cresceu 1,7% em relação ao mesmo período do ano anterior. Em junho, as vendas do varejo avançaram 2,9% na comparação anual e acumularam crescimento de 1,9% no primeiro semestre.

A própria Casas Bahia oferece uma pista sobre o destino desse consumo. No segundo trimestre, sua receita líquida cresceu 1,6%. As vendas digitais próprias avançaram 15,3%, enquanto as vendas nas lojas físicas recuaram 3,2%. Portanto, o consumidor não desapareceu. Ele passou a comprar de outra maneira e, muitas vezes, em outro lugar.

É nesse ponto que a crise deixa de ser apenas um problema particular da Casas Bahia. Estamos assistindo a uma reorganização do varejo e a uma concentração cada vez maior do mercado nas mãos de empresas que não vendem apenas produtos. Amazon, Mercado Livre e Shopee controlam plataformas, meios de pagamento, publicidade, crédito, dados e logística. Em muitos casos, controlam até a ordem em que os produtos aparecem para o consumidor.

A Amazon afirma ter investido 55 bilhões de reais no Brasil e encerrou 2025 com 250 estruturas logísticas espalhadas pelo País. O Mercado Livre segue ampliando centros de distribuição, tecnologia e frota própria. A disputa já não acontece entre a loja da esquina e a loja do shopping. Uma empresa tradicional agora concorre com ecossistemas capazes de acompanhar o cliente desde a pesquisa até o pagamento e a entrega.

A própria Casas Bahia passou a vender dentro desses marketplaces. É uma solução para alcançar mais consumidores, mas também revela uma inversão. Uma das marcas mais conhecidas do varejo brasileiro agora precisa pagar para encontrar seus clientes dentro da infraestrutura de outras companhias.

Dizer que isso é apenas o mercado premiando os eficientes é confortável demais. As plataformas abrem espaço para pequenos vendedores e ampliam seu alcance, mas são elas que definem as comissões, os anúncios, as regras de visibilidade e o acesso aos dados. O pequeno empresário pode vender para o Brasil inteiro, desde que aceite operar numa avenida privada em que o dono também controla o pedágio, a publicidade e o mapa.

O varejo não está acabando. Está mudando de mãos e se concentrando

Essa transformação também alterou o trabalho. Durante muito tempo, o vendedor apresentava o produto, explicava suas funções, comparava marcas, verificava o estoque, calculava as parcelas e fechava a compra. Hoje, o consumidor faz quase tudo sozinho. Pesquisa, assiste a avaliações, compara preços, escolhe o parcelamento, realiza o pagamento e acompanha a entrega pelo celular.

Parte do trabalho foi transferida para o próprio cliente. A loja física, quando permanece aberta, pode virar showroom, ponto de retirada ou apoio logístico. Ela continua sendo útil, mas já não precisa necessariamente do mesmo espaço nem da mesma quantidade de funcionários.

Seria errado afirmar que a tecnologia, sozinha, provocou as demissões nas Casas Bahia. A crise financeira criou a necessidade imediata de cortar despesas. A digitalização, porém, permitiu que a empresa continuasse vendendo mesmo após fechar quase 30% de suas lojas.

Costuma-se responder a esse problema dizendo que a tecnologia também cria empregos. É verdade. Crescem as vagas em logística, programação, análise de dados, entregas e atendimento digital. Só que os novos postos não surgem obrigatoriamente nas mesmas cidades, não pagam os mesmos salários e não serão ocupados automaticamente por quem perdeu o emprego anterior. A transição é muito mais simples nas apresentações corporativas do que na vida de um trabalhador demitido.

A recuperação judicial existe justamente porque uma empresa grande não quebra sozinha. A legislação procura preservar a atividade econômica, os empregos e os interesses dos credores. Enquanto os advogados reorganizam as dívidas, porém, a conta já começou a circular: trabalhadores são dispensados, fornecedores ficam sem receber, lojas desaparecem e cidades perdem atividade comercial.

É aí que aparece uma das características mais perversas desse capitalismo. As decisões ficam concentradas nas administrações das empresas, mas seus efeitos se espalham pela sociedade. Quando tudo dá certo, o ganho pertence aos acionistas. Quando dá errado, trabalhadores, fornecedores e o Estado são chamados para administrar os prejuízos.

O mercado muda cada vez mais rápido, e nenhuma empresa está imune à necessidade de adaptação. Mas não há nada de natural ou inevitável em aceitar que essa transformação concentre ainda mais poder em poucas plataformas e abandone trabalhadores pelo caminho.

No capitalismo selvagem, não vence necessariamente quem oferece o melhor produto. Muitas vezes, vence quem conseguiu se tornar dono da estrada, do pedágio e do caminho utilizado para chegar ao consumidor.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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