A República aos pés de seus subordinados

Consabidamente, a história não se repete, mas no Brasil ela é recorrente e monótona, desde a colônia

Foto: Marcos Corrêa/PR

Foto: Marcos Corrêa/PR

Opinião

“Sem consenso em torno da divulgação de uma nota contra as ameaças feitas por Jair Bolsonaro à democracia, governadores de 14 Estados e do Distrito Federal decidiram ontem propor ao presidente e a outros chefes de Poderes uma espécie de reunião de pacificação e de normalização institucional do País” (O Estado de S. Paulo, 24/08/2021)

A república vive sua maior crise desde o final da ditadura de 1964. Para muitos analistas, o desassossego tem nome e sobrenome: Jair Messias Bolsonaro. Seria simples e prático reduzir assim o desafio, mas estaríamos simplesmente tomando a aparência pela realidade, pois o problema tem outra identidade, e por isso mesmo é mais grave: as forças armadas brasileiras, responsáveis pelos graves momentos de desestabilização democrático-institucional que caracterizam a história republicana. Elas respondem pelo projeto de poder que culminou com as eleições de 2018, levadas a cabo com os resultados que alcançaram graças ao emprego de modos e meios não republicanos, aos quais não estiveram alheios os fardados. E são ainda elas que emprestam sustentação ao atual regime, assumidamente lesa-pátria, que em tão pouco tempo está destruindo nossa soberania e condenando a maioria da população à pobreza: 14,8 milhões de desempregados, 30 milhões de brasileiros na informalidade, 19 milhões passando fome.

Em poucos dias somaremos 600 mil vítimas fatais da Covid, contingente superior a todas as nossas perdas na guerra da Cisplatina (na qual o exército brasileiro foi fragorosamente derrotado), na guerra do Paraguai e na Segunda Guerra Mundial. A calamidade sanitária é o tonitruante certificado da incompetência dos militares, gestores diretos da política de saúde, e do descaso (para dizer o mínimo) do capitão. Sua atuação em áreas cruciais como educação, cultura, meio ambiente e ciência e tecnologia vai além da inépcia; sugere o propósito destrutivo do país.

Não se discute mais o processo eleitoral de 2018, que verdadeiramente começa com o golpe de 2016, a deposição de Dilma e a posse de Michel Temer, o perjuro: a mobilização dos quartéis como comitês do candidato verde-oliva, a politização das forças de segurança pública, as manobras ilícitas da Lava Jato, a condenação de Lula e seu linchamento político pelos grandes meios de comunicação, o tweet do general Villas Bôas acossando o STF, e o muito mais ou menos conhecido mas que aguarda tempo para ser revelado.

O fato objetivo é que temos um delinquente na presidência da república que diariamente desafia as instituições democráticas, ameaça o processo eleitoral, agride os demais poderes e, não obstante seus crimes de toda ordem, penais, políticos e éticos, permanece intocável. Protegem-no a guarda engalanada e uma câmara dos deputados presidida por um representante do baixo clero. É a pobreza de nossas chamadas lideranças civis.

A História – incontornável e implacável – certamente esquecerá os Helenos e quejandos, como os Villas Bôas e os Bragas Neto e outros assemelhados do pelotão palaciano

Mas jamais deixará de julgar a corporação que hoje se confunde com seus chefes passageiros, e lhes dá respaldo em todos os desmandos. Todas as imprecações do capitão, até mesmo a provocação do voto impresso, têm sido referendadas pelos cinco estrelas comandantes.

Os grandes jornais noticiam, sem se darem conta do vexame seus articulistas, que uma luzidia caravana de ex-ministros e similares foi ao encontro dos comandantes militares, para, por delegação de nossos ex-presidentes (registre-se a honrosa exceção de Dilma Rousseff) perguntar-lhes se as forças amadas vão ou não dar golpe no golpe (como reiteradamente vem sugerindo o capitão, com o apoio dos engalanados do terceiro andar do palácio do planalto), e se o eleito em 2022 (“fosse quem fosse”) tomaria posse. Os delegados voltaram felizes da vida porque ouviram um não e um sim: não haveria golpe e o eleito tomaria posse. Eis a pequena estatura política do poder civil (que não se dá ao respeito) e a dimensão nanica de nossa democracia.

Em que país razoavelmente sério a república, prostrada, precisa perguntar aos militares (que vestem farda por delegação sua!) se eles vão ou não dar golpe nas instituições, se vão garantir eleições previstas na Constituição, se darão posse aos eleitos?

A tutela, pois, já prescinde da espada, introjetada, assimilada, aceita pela nossa classe dirigente, que continua desempenhando aquele papel de vivandeiras a que se referiu o ditador Castello Branco, rondando os quartéis, fazendo rapapés aos fardados, ora lhes pedindo que rompam o pacto democrático (quando suspeitam da emergência das massas), ora pedindo para que não o rompam.

Aos nossos líderes não ocorreu inverter o jogo e dizer aos golpistas de todas as instâncias que a democracia rejeita paternidade e tutela. Conquista da sociedade, projeto histórico jamais concluído, permanentemente ameaçado, sua sobrevivência é a medida da organização popular.

 

 

 

Os militares, com a inefável contribuição de políticos notáveis, transformam o Brasil a um oximoro: uma grande republiqueta.

O capitão, que foi a contingência de que se utilizaram os militares para a retomada do poder, agora é a espoleta do segundo tempo de uma peça tosca de final conhecido. Provocador, cabe-lhe a agitação. Seu papel, relevante na trama, é preparar o terreno para futuras manobras, construir o caos, instigar a insubordinação, provocar o conflito, desafiar os poderes, instaurar a anarquia. Na sequência terá que vir alguém para “arrumar a casa”, e, em face da insegurança, todos quererão a ordem: os editorialistas que hoje defendem conosco a democracia, os liberais, os socialdemocratas, a Faria Lima, o grande capital, os especuladores das bolsas, os rentistas daqui e d’além mar, o Departamento de Estado dos EUA. Aí então, possivelmente ao som de hinos gospel, nossos príncipes da política e nossos homens de negócios concertarão com os fardados mais uma traficância institucional, e assim voltaremos todos para casa e para o trabalho, para viver tudo outra vez, nessa nossa ópera grotesca sem gran finale que é a vida republicana sob a tutela militar, girando entre a comédia e o drama, a farsa e a tragédia.

Certamente sem se darem conta do real significado do papel que as circunstâncias lhes destinaram, os governadores se aprestam no palco da salvação nacional. Para denunciar as ameaças à ordem institucional? Para exigirem respeito à Constituição? Para dizer aos militares qual é o papel que lhes cabe numa república que se dá ao respeito? Para concertarem a unidade do povo em defesa de suas instituições democráticas, tão dolorosamente salvas da ditadura militar? Não, lamentavelmente, não. Sem terem uma só palavra para dirigir ao povo, os governadores se voltam ao capitão para lhe solicitarem bons modos, e chamam os demais chefes de poderes para a comunhão de boas intenções. Em nome da paz, é hora de esquecer as divergências, e jogar para debaixo do tapete os crimes que estão na ordem do dia. O auge da tensão é a hora prometida para a conciliação.

Consabidamente, a história não se repete, mas no Brasil ela é recorrente e monótona, desde a colônia. As crises se resolvem mediante a conciliação, que é também transação e traficância, ditada de cima para baixo, pela classe dominante, a casa-grande de sempre. Resolvem-se pelo alto os interesses do establishment, e empurra-se com a barriga tudo que diga respeito ao povo ou ao interesse nacional.

Os convites dos governadores para o grande convescote com os chefes dos poderes já foram expedidos e certamente ninguém se negará a “um grande entendimento”. Após cumprimentos de praxe, tapinhas nas costas, cada um voltará para seu ninho e dar-se-á por feito o que não foi feito, e tudo continuará como dantes no castelo de Abranches, até o próximo vexame que pode vir a caminho, na sela do 7 de setembro.

E o povo?

Na plateia, como de hábito, será informado no seu devido tempo do que seus representantes terão concertado em seu nome com os donos do poder.

***
Nilson Lage – Tales Faria, seu discípulo, nos manda a notícia que há cerca de dois anos temíamos receber: faleceu em Florianópolis (para onde se transferira após a aposentadoria no Rio), o escritor, professor e jornalista Nilson Lage, e com ele se vai mais um ator decisivo do moderno periodismo brasileiro. Um quadro raro, pois reunia ao texto primoroso e à argúcia do repórter um caráter absolutamente sem jaça. Fomos colegas na Escola de Comunicação da UFRJ, nas Faculdades Hélio Alonso e na Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa na Comunicação. Onde atuou, foi sempre um exemplo admirado, por isso mesmo formou uma legião de discípulos, e nos deixa mais sós e mais tristes.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Cientista político, ex-ministro da Ciência e Tecnologia e ex-presidente do PSB. Autor de "Socialismo, Morte e Ressurreição" (Editora Vozes).

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