A reentrada de Lula no Brasil: sei que estás em festa, pá

A emoção do instante é também o resultado da memória de violência e de humilhação destes últimos anos

Ex-presidente Lula ao deixar a prisão. 
Foto: Eduardo Matysiak

Ex-presidente Lula ao deixar a prisão. Foto: Eduardo Matysiak

Opinião,Política

Não foi uma saída da prisão, mas uma reentrada no mundo. No mundo, literalmente: televisões ao vivo e primeiras páginas dos jornais. Um simbolismo extraordinário. Regressado da provação, entra em palco com firmeza e de coração limpo. O que mais impressiona é a energia – vem para lutar, não para se reformar. Vem sem ressentimento, mas sabe o que não pode voltar a acontecer.

A grandeza daquele momento fez-se de muitas iniquidades. Vem da história do golpe, da presidenta destituída sem crime de responsabilidade, como se o regime fosse parlamentar e não presidencial. Vem da história da Lava Jato, operação judiciária que se revelou ser o instrumento e a oportunidade para criminalizar um partido e perseguir o seu líder histórico.

Vem da história da singular condenação de corrupção por “fatos indeterminados” e da prisão em violação da Constituição. Vem da história da cassação dos direitos políticos, rasgando com petulância o direito internacional e a determinação do comitê de direitos humanos das Nações Unidas para que o antigo presidente fosse candidato.

 

A emoção do instante é também o resultado da memória de violência e de humilhação destes últimos anos e em particular da disputa eleitoral. De um lado a direita unida, a moderada e a extremista, a que se juntou a agressividade da mídia e a vergonhosa parcialidade do aparelho judiciário. Por detrás deles surgiu ainda a sombra do partido militar que, passo a passo, em “aproximações sucessivas”, ganhou rosto e visibilidade na vida pública.

Do outro lado, rodeados de uma linguagem ameaçadora e belicista e com o antigo presidente preso, os dirigentes e militantes do partido lutaram e lutaram e lutaram para defender o seu  patrimônio de administração e a ímpar transformação social conseguida na economia, na distribuição de riqueza, nas oportunidades educativas, na redução das desigualdades, na inclusão social, na afirmação do Brasil como uma nova e jovem voz na cena da política internacional. Agora que o seu líder histórico dá um pequeno passo para a liberdade, muda tudo. Sim, parece um novo país.

Para trás fica a decisão jurídica, rapidamente engolida pela dimensão política do acontecimento. No fundo, o Supremo Tribunal demorou um tempo a provar que sabe ler: “Ninguém será considerado culpado até ao trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. Não havia mais ângulo para olhar os inacreditáveis exercícios de pantomima hermenêutica constitucional, querendo convencer-nos de que o que está escrito não é o que está escrito.

Por aqui, já que me perguntam, o tom dominante foi de regozijo. Muitos portugueses conhecem a fraude judicial e a miserável conduta de um juiz que, para chegar a ministro, instrumentalizou a sua função, colocando-a ao serviço de uma caçada política. Na política institucional, o costume: o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda saudaram a libertação, a direita institucional calou-se e o Partido Socialista mostrou indiferença, grávido de Estado, nada o impressiona nesta história de direitos constitucionais. Pelo caminho ainda vi na televisão um deputado europeu vomitando ódio contra Lula, dizendo que este é, sem dúvida, corrupto – sem provas. Parece que é jurista. Como veem, não são só os brasileiros que são obrigados a lidar com pulhas.

Enfim, regressemos a Lula. Dez anos após deixar a Presidência da República, volta a ter de prestar provas perante aqueles que querem arrancar pela força o seu retrato da galeria dos presidentes. Na verdade, não lhe deixam alternativa. Não suportam a excepcionalidade de uma administração que foi além do esperado e do repetido. Todavia,  agora, depois da encarniçada batalha de três anos, começa a emergir uma nova história.

O que parecia vencido reaparece, fixando a audiência com olhar digno – estou de pé. Todos os outros parecem desaparecidos, em particular aqueles que começaram a batalha. Conseguiram o que queriam, é certo, mas à custa da democracia e da sua própria existência política – nem Temer, nem Fernando Henrique Cardoso, nem Serra, nem Alckmin, nem PSDB.

O PT perdeu as eleições, está fora do poder e, contudo, este é um dos raros momentos em que só temos olhos para o vencido e para a admirável beleza da batalha tão desigual que travou. 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Ex-primeiro ministro de Portugal (2005 a 2011)

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