Afonsinho

Médico e ex-jogador de futebol brasileiro

Colunas

assine e leia

A queda do Botafogo

Os jogadores, reunidos há pouco tempo, ficam abalados com o sobe e desce das fases boas e más. Resta ao treinador português enfrentar as procelas do mar revolto

A queda do Botafogo
A queda do Botafogo
O técnico do Botafogo Luís Castro. Foto: Reprodução
Apoie Siga-nos no

Algumas colunas atrás, falamos sobre a situação de instabilidade no Flamengo. Agora, o exemplo da vez é o Botafogo. Até duas semanas atrás, o time vivia um tempo de grande euforia, em lua de mel com a nova direção e o elenco. Pois, em 15 dias, o Botafogo saiu da confortável posição de figurar entre os quatro primeiros da tabela para mergulhar no fim da lista, entre os quatro últimos. A queda aconteceu depois de quatro derrotas seguidas.

A primeira delas foi em casa, contra o Goiás, que andava entre os últimos colocados – aí é que mora o perigo. A partir disso, o time entrou em uma zona de instabilidade na tabela e então desceu ladeira abaixo. Nessa hora, há algumas situações interessantes de serem observadas. O futebol, como tenho dito, espelha a tumultuada vida brasileira. No caso do Botafogo, depois do período de empolgação, o que parece estar na origem da instabilidade atual é o próprio excesso de novidades de uma só vez.

Em plena ascensão, jogando bem contra um adversário teoricamente mais frágil, o time partiu para vencer – o futebol se parece cada vez mais com o boxe. Fazendo isso, acabou por sofrer em uma das bases fundamentais do jogo: atacar e defender ao mesmo tempo. No fim, faltou equilíbrio ao time ou, como diria o brilhante e saudoso João Saldanha, “cobertor curto quando cobre a cabeça deixa os pés de fora”.

Não é à toa que os torcedores vêm pedindo “um 10”, um meia que harmonize um time novo e jovem. Em outros clubes, andam pedindo “um 9”, pois sentem a falta de centroavantes autênticos, de artilheiros natos. Pode ter havido algum equívoco na avaliação do técnico Luís Castro, mais um patrício importado da boa escola lusitana que ainda tem pouco tempo de trabalho.

O time, no entanto, mostrou-se bem treinado. O que se antevia, durante o jogo, era que o entrosamento esboçado levasse ao gol do Botafogo. Mas o que se viu foi o contrário: o time levou o gol de contra-ataque, tão comum no futebol. Enfrentando adversários mais preparados nas partidas seguintes, o Botafogo perdeu, como poderia ser lógico, até revelar claramente a instabilidade emocional descrita pelo treinador após outra derrota em casa, contra o Avaí, mais um adversário em má situação na tabela. “Estamos muito pressionados”, disse o técnico.

Por mais que os torcedores, desestabilizados além da conta pelos motivos óbvios, se voltem contra o treinador e contra os jogadores, não há motivo para desespero. O mais instigante, na busca de soluções, é analisar as mudanças necessárias tendo em vista pelo menos duas ­opções. Pode-se buscar uma saída à moda antiga, com aquele volante mais assentado, equilibrando o ataque e a defesa, ou pode-se recorrer à alternativa mais moderna dos volantes – um ou dois deles, com mais liberdade de chegar ao ataque.

No fim das contas, tudo vai depender da qualidade dos jogadores do elenco. Como dizia o velho Neném Prancha, quanto mais sabores, melhor a sorveteria. Nos comentários a respeito da última partida, chamou atenção a nota comum dizendo que o excelente Luís Oyama havia errado muitos passes. Trata-se de sintoma evidente de que ele estava perdido no arranjo do time. O passe primoroso é, afinal de contas, sua grande qualidade.

Evidentemente, os jogadores reunidos há pouco tempo, sem muita convivência e sem a liderança estabelecida em campo, devem ter dificuldades para superar o sobe e desce de fases boas e más. Resta ao treinador português enfrentar as procelas do mar revolto em que acabou se metendo.

Outro ponto a se discutir em nosso futebol vem do jogo entre Vasco e Cruzeiro, pela Série B do Brasileirão, no domingo 12. Poucas vezes vi um jogo de tão baixa qualidade técnica, a começar pelo físico completamente estranho dos jogadores de ambos os lados. A sensação era a de estar vendo uma partida de rúgbi.

O que víamos em campo eram atletas quadrados, sem nenhum jogo de cintura. Parece que estamos pagando os pecados de quando dizíamos que os gringos eram duros, sem molejo.

Saindo um pouco do Brasil, tivemos, nesta semana, a repescagem para a Copa do Catar. Classificaram-se as duas últimas seleções, seguindo a mesma linha. Austrália e Costa Rica venceram seus jogos e fecharam o grupo de 32 seleções do torneio no Catar.

Na terça-feira 14, a Costa Rica, com um futebol clássico de jogadores habilidosos, venceu heroicamente, por 1 x 0, a Nova Zelândia, recheada de gigantes de pouca técnica.

Na véspera, o Peru havia perdido para a Austrália num jogo levado aos pênaltis pelas duas seleções. Abdicaram do jogo com a bola rolando. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1213 DE CARTACAPITAL, EM 22 DE JUNHO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “A queda do Botafogo”

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

ENTENDA MAIS SOBRE: , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

2026 já começou

Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.

A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.

Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.

Assine ou contribua com o quanto puder.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo