Opinião

A que experiência Bruno Covas se refere?

‘Não se faz gestão apenas em cargos públicos’, escreve o doutor em planejamento urbano e regional Rodrigo Faria

O prefeito da cidade de São Paulo, Bruno Covas (PSDB). Foto: Governo do Estado de São Paulo
O prefeito da cidade de São Paulo, Bruno Covas (PSDB). Foto: Governo do Estado de São Paulo

Por Rodrigo Faria G. Iacovini*

Passado o primeiro turno, um argumento ganha centralidade no debate das eleições municipais de São Paulo: a experiência de gestão. Bruno Covas, com o crescimento da campanha de Guilherme Boulos, tem continuamente reiterado esse ponto, se apresentando como o candidato com maior experiência, enquanto o adversário não disporia do mesmo currículo. Mas de que experiência Bruno Covas fala?

João Dória Jr., atual governador de São Paulo e ex-prefeito da capital, sob cuja sombra Covas foi eleito como vice-prefeito, não havia disputado qualquer cargo público antes de 2016. Sua trajetória na administração pública se resumia a cargos ocupados na década de 1980, mais de 30 anos atrás, quando a administração pública brasileira era muito diferente da que dispomos hoje. O discurso que sustentava sua campanha era de que traria a modernidade da gestão empresarial – onde havia permanecido nas últimas três décadas – para a prefeitura de São Paulo.

Se afirmava em 2016 que a experiência na gestão empresarial seria importante para modernizar a condução da administração municipal, por que não aceitar que a experiência de Boulos na gestão social do maior movimento urbano do Brasil é importante para humanizar São Paulo?

Para quem não acompanha o cotidiano de movimentos sociais e populares no país, pode realmente soar estranho o argumento. No entanto, coordenar um movimento da envergadura do MTST em nível nacional significa lidar com toda sorte de desafios impostos a uma gestão municipal: escassez de recursos; necessidades e demandas que se multiplicam diariamente; mediação de conflitos entre interesses divergentes; planejamento e implementação simultânea de ações e iniciativas coordenadas em diversas frentes de trabalho; diálogo e negociação com diferentes atores sociais, públicos e privados. A lista de desafios é infinita, mas, ainda por cima, ela tem que ser vencida ao mesmo tempo em que se estimula a renovação da esperança de todos os integrantes do movimento.

A máquina pública é muito diferente da estrutura institucional de movimentos, é fato. Há uma multiplicidade de instâncias, agências, normativas, procedimentos, todo um aparato complexo de ser apreendido quando se adentra na administração pública. A experiência para lidar com esse aparato é extremamente importante, especialmente para comandar uma cidade com o tamanho de São Paulo.

Entretanto, o discurso sobre a suposta inexperiência de Boulos esconde que, ainda mais relevante que a familiaridade do candidato com a gestão pública, é a experiência do grupo político que o cerca. Grande parte da política desenvolvida ao longo de um mandato municipal é feita por secretários e outros gestores públicos, e não diretamente pelo prefeito ou prefeita.

Uma das gestões com a melhor avaliação na história de São Paulo foi feita por Luiza Erundina, vice na chapa de Boulos. Outros apoiadores e pessoas engajadas na campanha também possuem larga experiência na administração pública, como Raquel Rolnik, Luiz Eduardo Soares, Renato Janine Ribeiro, Ana de Hollanda, Ermínia Maricato, Leda Paulani, além de outros apoios que se somaram agora no segundo turno, como Fernando Haddad, Jilmar Tatto, João Whitaker.

Não é possível, portanto, falar que falta experiência a Boulos. O que está subjacente ao desprezo à sua experiência é a incapacidade de aceitar o novo, de compreender que as mudanças são provenientes da sociedade civil, e não do estado. A experiência de Boulos é de renovação da esperança, da humanização da política, da reconstrução da cidade, fazendo da escassez um rico tecido sociopolítico. E é disso que São Paulo precisa nesse momento.

*Rodrigo Faria G. Iacovini é doutor em planejamento urbano e regional pela USP, coordenador da Escola da Cidadania do Instituto Pólis e assessor da Global Platform for the Right to the City. Foi coordenador executivo do Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico e trabalhou na Relatoria Especial da ONU para o Direito à Moradia Adequada

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