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Opinião

A professora sem alunos, o aluno sem escola

Esta quarta-feira 29 de novembro é o Dia Internacional de Solidariedade com o Povo Palestino

Foto: Reprodução/NewsInfo
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Por Cristina Castro* e Táscia Souza**

“Quando a minha avó chegou aqui, depois do Holocausto, a agência judaica prometeu-lhe uma casa. Ela não tinha nada, toda a sua família foi exterminada. Ela esperou muito tempo em uma barraca, em situação extremamente precária. Depois levaram-na para Ajami, em Jaffa, numa linda casa de praia. Ela viu que sobre a mesa ainda estavam os pratos dos árabes que ali moravam e haviam sido expulsos. Então ela voltou para a agência e disse: me leve de volta para a loja, eu nunca farei com ninguém o que fizeram comigo. Este é o meu legado, mas nem todos fizeram essa escolha. Como poderíamos ter nos tornado aquilo a que nos opomos? Essa é a grande questão.”

O depoimento é da israelense Hadar Morag, de família sionista. E, talvez por ter sido escrito por uma cineasta, tem o poder assombroso de evocar imagens. Imagina-se logo a câmera percorrendo os cômodos recém-esvaziados, os pratos ainda sujos sobre a mesa, os restos de refeição não terminada. Ultrapassando os limites do audiovisual, consegue-se sentir até mesmo o calor dos assentos ainda quentes. Consegue-se pensar no que a cena mostra de ausência: que professora, junto com os pratos, deixou os trabalhos dos alunos, corrigidos pela metade, para trás? Que criança deixou o dever de casa por fazer, de uma escola que não haveria mais?

Mais adiante, o filme mostraria a Faixa de Gaza transformada em gueto, uma grande prisão a céu aberto onde seres humanos são perseguidos, torturados e mortos há décadas, muito antes do dia 7 de outubro de 2023. E exibiria, provavelmente em preto e branco, o cenário de desolação. A diferença é que, nessa produção, a criança de casaco vermelho caminhando pelos destroços não seria judia, mas palestina.

A frase escrita por Marx em O 18 Brumário de Luís Bonaparte é proferida à exaustão, mas não custa fazê-lo de novo: “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. Os bárbaros crimes cometidos pelos nazistas, com a cumplicidade ou o silêncio conivente de outras nações, inclusive o Brasil (basta lembrar a entrega de Olga Benário aos alemães pelo Estado Novo), são uma mácula irreparável na história da humanidade. Tragédia, sim, porque, embora, do ponto de vista religioso, a tradição judaico-cristão seja incompatível com a ideia do trágico, uma vez que sua fé e seu apostolado partem do princípio da bondade ilimitada de Deus, a dor da shoah é irremediável.

No entanto, o holocausto palestino também é uma tragédia. Se lá crianças era mortas em câmaras de gás, agora bebês prematuros são abandonados em incubadoras dentro de hospitais evacuados e deixados para morrer lentamente, de fome e de frio, até a decomposição. Volta-se à pergunta de Hadar Morag: “Como poderíamos ter nos tornado aquilo a que nos opomos?”.

Diante do horror, a acusação de antissemitismo a toda e qualquer pessoa que aponte os crimes de Israel é uma farsa encenada para escamotear ou justificar, como se isso fosse possível, as atrocidades cometidas pelo governo de extrema-direita, expansionista, racista e colonial, comandado por Benjamin Netanyahu, com o aval e conivência dos Estados Unidos. Não é autodefesa, é projeto político de extermínio. Crimes de guerra, sim, mas mais do que isso, já que nem sequer assistimos a uma guerra de fato. O que está em curso é um massacre; um genocídio. Esses crimes são contra a humanidade. 

Este 29 de novembro é o Dia Internacional de Solidariedade com o Povo Palestino. A cineasta israelense Hadar Morag, judia, é solidária ao povo palestino. O jornalista brasileiro Breno Altman, judeu e perseguido pela Confederação Israelita do Brasil (Conib), é solidário ao povo palestino. Judeus, cristãos, muçulmanos, agnósticos, ateus de todo o mundo, em manifestações que têm reunido milhares de pessoas pelo fim do massacre em Gaza, são solidários ao povo palestino. E à imaginária, mas existente, professora sem alunos. E ao imaginário, mas existente, aluno sem escola.

*Cristina Castro é professora do Ensino Fundamental, coordenadora da Secretaria de Relações Internacionais da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (Contee), integrante da Diretoria Plena do Centro Nacional de Estudos Sindicais e do Trabalho (CES) e também da Comissão Executiva da Confederação Sindical de Educação dos Países de Língua Portuguesa (CPLP-SE)

**Táscia Souza é doutora em Estudos Literários e jornalista da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (Contee)

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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