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A pós-verdade e a persistência da misoginia

Opinião,Sociedade

O Dicionário Oxford escolheu “pós-verdade” como o vocábulo de 2016. Segundo os linguistas da publicação, a expressão sintetiza estes 12 meses de 2016, altamente inflamados por fenômenos políticos como o Brexit e a eleição presidencial dos EUA.

Ambos os momentos foram marcados por mentiras proferidas por seus principais representantes e pela disseminação desenfreada de notícias falsas nas redes, refletindo as tendências socioculturais e político-econômicas de 2016.

Esta é uma das muitas explicações para o ano da surrealpolitik, que variam da fragmentação das esquerdas ao retorno de um espírito de nacionalismo fascista, do fim da globalização ao triste triunfo da supremacia branca, da emancipação do ódio desenfreado à implementação forçosa de projetos econômicos neoliberais.

E “pós-verdade” talvez seja mesmo a expressão que melhor define a sensação de incredulidade diante do que testemunhamos no decorrer do ano que ainda não acabou.

Ainda vai levar um tempo (e uma enxurrada de análises) para que a escalada conservadora que constituiu 2016 seja integralmente explicada.

Por ora, o clichê “quem não está confuso está mal informado” parece ser adequado por explicitar o quão assombrados ficamos diante de tantos golpes, trapaças e discursos fumegantes.

Um elemento central a todos os debates sobre política em 2016 pode ser também uma chave para nosso entendimento acerca de questões comuns no processo de retrocesso que o Ocidente vem enfrentando. Este elemento é gênero.

A volta dos que não foram

A vitória de Donald Trump pelas mãos da maioria dos colegiados eleitorais frustrou a possibilidade de os EUA elegerem pela primeira vez uma mulher para presidente, meses depois de a primeira presidenta do Brasil ter sido deposta de seu segundo mandato, para o qual havia sido eleita pelo voto popular.

E apesar das inúmeras diferenças entre um contexto e outro, o tratamento discursivo oferecido às duas, tanto na mídia quanto nos debates públicos, foi igualmente misógino.

A linguagem oriunda das eleições americanas e do nosso processo de impeachment revela o quão arrigado o machismo ainda está na sociedade. Ou, melhor dizendo, o quanto ele constitui isso que chamamos de civilização.

Uma pesquisa da Universidade Harvard confirmou que Clinton recebeu mais mídia negativa do que a soma de seus concorrentes, e muito dessa negatividade foi preenchida com misoginia.

O próprio Trump chegou a chamá-la de “nasty woman” (“mulher maldita”) durante um debate.

Essa misoginia também pôde ser verificada em discursos anti-Dilma, nos memes e capas de revista que destilavam o mais puro ódio ou desprezo pela figura feminina (quem consegue esquecer os adesivos em protesto ao aumento do preço da gasolina, que poderiam constar num dicionário de imagens ao lado do vocábulo “cultura do estupro”?).

A tendência a um retorno da aceitabilidade acerca de um linguajar misógino não é exclusividade da política.

Um estudo da Cambridge University Press publicado este ano para coincidir com as Olimpíadas (lembra que esse ano teve Olimpíadas das Mulheres?) revela atitudes semelhantes em relação às atletas.

Segundo o relatório, o linguajar sobre as mulheres do contexto esportivo concentra-se, de forma desproporcional, em aparência, indumentárias e vidas pessoais, colocando mais ênfase em estética (e fofoca) do que em atletismo.

A mensagem é praticamente a mesma: mulheres são bem aceitas ou não, em diferentes espaços, dependendo de uma combinação entre o espaço e padrões de feminilidade.

No esporte, mulheres são bem aceitas como musas, mas nem tanto como atletas. Na política, como complementos, mas não agentes.

Nem na economia simbólica temos equidade, e até nela a violência é contra nossos corpos e sexo. O simbólico afeta e molda o material, e vice-versa.

Feministas falam tanto sobre violência simbólica por isso – por sabermos que os xingamentos de “vaca”, as imagens de um feminino pejorativo, a cultura do estupro e o feminicídio são faces de um mesmo fenômeno: a misoginia.

As formas com que o processo do impeachment de Dilma Rousseff e a eleição de Donald Trump se deram ilustram bem o que há anos as feministas vêm declarando: há muita relutância para a realização de rupturas significativas nos papeis tradicionais – e opressivos, dependendo de quem você é – de gênero.

Mas com tanta informação disponível, é possível ver quem reluta – e as evidências confirmam algumas suspeitas.

O fim do mundo

O linguista Noam Chomsky e a jornalista Naomi Klein em suas declarações sobre a eleição de Trump lembram que o fim do mundo pode estar realmente próximo, visto que o republicano parece acreditar que o aquecimento global é uma invenção.

É consenso entre a comunidade científica que sustentabilidade não é um jargão, mas uma necessidade, e que se não desacelerarmos nossa emissão de poluentes os efeitos serão irreversíveis e apocalípticos – centenas de gigantes corporativos já urgem que Trump mantenha o acordo climático de Paris.

O aquecimento global não deveria estar em disputas narrativas, pois olha lá os fatos…

Precisamos esperar para ver o que acontecerá, mas se o presidente do país mais poderoso do mundo da pós-verdade opera na fantasia e suas crenças pessoais valem mais do que o conhecimento produzido oficialmente, estamos mal.

E pior: é tudo tão infantil.

O apocalipse climático do planeta azulzinho é uma potencial consequência urgente da eleição do candidato alaranjado, mas infelizmente não é a única a fazer piscar a luz vermelha.

Um dos maiores riscos de viver num mundo onde Trump ocupa tão alto cargo é que quem compartilha de suas fantasias está, oficialmente, legitimado para liberar a suas fantasias no mundo.

Se Trump – o arremessador de chicanos e agarrador de xoxotas – é presidente da power nation, imagina o que seu fã-clube de trolls (para não falar de organizações que o apoiam, como o Partido Nazista (!) dos EUA) vai fazer?

Desde a eleição mais crimes de ódio foram cometidos do que no pós-11/9, e grupos da Ku Klux Klan vêm realizando paradas em honra à sua vitória. Não é mais alarmante. Está aí.

Sabemos muito bem que liberar uma violência simbólica é liberar também violências materiais. As duas violências são reais.

É infantil e teimoso não aceitar isso. Assim como é infantil e teimoso não aceitar que o apocalipse climático pode estar próximo. São os fatos. Não deveria haver disputa.

Backlash

Vocabulário misógino e o uso de violência simbólica são velhos conhecidos nossos. Feministas e outras ativistas avisam há anos que existe gente nos perseguindo, nos abusando, tentando nos silenciar.

É medonho ver que aqueles que nos ofendem e que não aparentam ter um pingo de respeito pela dignidade humana estejam – e muito bem – representados.

Há anos viemos apontando para o crescimento de comportamentos misóginos, infantis e violentos na internet. E o ódio destilado pelos trolls nas redes está bem materializado na realidade.

A gente sabe porque convive com essas pessoas. Todo mundo conhece algumas. Feministas são frequentemente ameaçadas ou cerceadas por elas. E muitas mulheres padecem em suas mãos.

É possível analisar objetivamente a simbologia com que Trump revelou sua misoginia, racismo, xenofobia e [adicione aqui preconceito sistêmico que causa opressão estrutural], assim como é possível traçar uma série de violências de volta para elas. É uma questão de olhar os corpos, e contar os mortos.

Esta onda conservadora da pós-verdade não representa apenas um retrocesso simbólico, e a luta de verdade vai acabar sendo entre aqueles cuja vida real está ameaçada e aqueles cuja vida ideal está ameaçada.

Os valores e o ideário que Trump representa também são velhos conhecidos nossos.

Vínhamos apontando para o backlash que viria. O backlash é um contra-ataque organizado que postula que são os valores feministas a fonte dos problemas que afligem as mulheres.

A autora do termo, Susan Faludi, ensina que ele é um ataque preventivo às conquistas das mulheres, que interrompe seus avanços antes mesmo de eles serem atingidos.

Nos últimos 10 anos vimos um crescimento exponencial de adesão feminista. Os milhares de sites e blogs dedicados à equidade de gênero aumentaram velozmente. Os efeitos desse crescimento puderam ser observados em vários locais.

Na mídia houve um aumento de filmes, seriados e documentários que ou tratam da temática ou aplicam metodologia feminista na sua produção.

Nas ruas esse crescimento também foi notório, e a primavera feminista de 2015 foi capa de revista. (Um resultado concreto e positivo deste movimento pôde ser visto, no Brasil, e ainda que muito timidamente, nas urnas.)

Na música – especialmente no universo pop onde as divas sempre tiveram proeminência – as mulheres vêm dando recado atrás de recado: de Beyoncé a Karol Conká a cena é quase 100% feminista.

Seriados como Orange Is The New Black, Jessica Jones, Scandal e The Fall mudaram as formas como mulheres são escritas para narrativas audiovisuais.

Mas era em debates como os que aconteceram no lançamento da versão de 2016 do filme Caça-Fantasmas que a presença de machistas conservadores ficava mais notória.

Muita gente se ofendeu profundamente com o elenco principal composto inteiramente de mulheres, e reclamou na internet. Agora, é um filme. Cuja versão masculina já existe. Não existe problema no lançamento de uma versão feminina.

Se reclamar de algo assim não reflete o machismo e o conservadorismo da nossa ordem social de gênero então eu não sei o que reflete.

Era nessas discussões que se podia começar a ver o backlash crescendo – e ele anda se concretizando com a forte onda de retomada do poder masculino.

Masculinidade hegemônica, primeiro-damismo e supremacia branca

O conceito de masculinidade hegemônica é parte de uma teoria geral da ordem de gênero proposta por R.W. Connell, e pode ser definido como qualquer que seja a configuração atual de práticas de masculinidade que legitimem a posição dominante dos homens na sociedade e justifiquem a subordinação das mulheres (todas as mulheres) e outras formas marginalizadas de ser um homem.

É observável que seja figuras que encarnam a masculinidade hegemônica descrita por Connell quem estão, mais uma vez, firmemente sentado no troninho oficial do poder.

Independentemente de como chegamos aqui (embora isso seja importante), é notório que os corpos que habitam estas posições também emanam valores patriarcais.

O backlash de 2016 representa a volta dos que não foram.

O backlash de 2016 representa a volta dos que não foram.

Homens assim nunca saíram do poder, é evidente – a diferença é que, discursivamente e materialmente, as mulheres estão sendo forçosamente removidas de lá.

Para Connell, a feminilidade é sempre organizada como uma adaptação ao poder dos homens – assim, nenhuma feminilidade aceita jamais as vai permitir ocupar as mesmas posições de poder que eles.

O fenômeno da construção discursiva e simbólica de feminilidades aceitas e organizadas para serem submissas às masculinidades hegemônicas já foi descrito em mais de uma instância, e a mais notória delas é esmiuçada no clássico A Mística Feminina, de Betty Friedan.

No Brasil o furor causado pela matéria da revista Veja que qualificava a então primeira-dama interina Marcela Temer como bela, recatada e do lar fornece outra evidência deste acontecimento que se repete.

Após dois anos de muitas manchetes misóginas contra mulheres na política surge uma narrativa aceitável para mulheres como objetos decorativos de políticos.

O primeiro-damismo resgata a mística feminina e confirma a teoria de Connell: fomos colocadas de volta ao lugar discursivo de onde materialmente mal tínhamos saído.

Nos contexto das eleições norte-americanas – apesar da diferença de idade dos atores envolvidos ser praticamente a mesma – é a filha de Donald Trump, muito mais do que sua terceira esposa, quem encarna este papel, e de formas ainda mais coniventes com a noção da pós-verdade.

Ivanka se posicionou durante toda a campanha como uma mãe que trabalha, e assim cativou os votos de uma fatia da população que viu em seu discurso de “empoderamento feminino” um passe para depositar o voto no papai misógino.

Para a escritora Jessica Valenti isso é devido ao fato de que, neste momento, a compreensão mainstream do feminismo é menos sobre política e mais sobre a ideia nebulosa de “empoderamento”.

Talvez isso ajude a explicar as tantas mulheres brancas que optaram por votar em Trump – mais da metade delas votou em um machista manifesto e amplamente acusado de estupro, o que é revoltante, mas nem tão surpreendente.

É assim que funcionam os privilégios sobre os quais também tanto falamos. No que depender dos discursos de campanha, a administração Trump vai, definitivamente, privilegiar pessoas brancas…

Este resultado ilustra magnificamente a necessidade urgente pela aplicação, na prática, de outro conceito: o feminismo interseccional, termo cunhado pela professora norte-americana Kimberlé Crenshaw que indica que mulheres experimentam opressão em configurações variadas e com diferentes graus de intensidade.

Para Crenshaw, padrões culturais de opressão não apenas estão interligados, mas unidos e influenciados uns pelos outros – o que ela chama de “sistemas interseccionais da sociedade” – e exemplos deles incluem raça, gênero, classe, capacidades físicas/mentais e etnia.

As mulheres negras votaram esmagadoramente em Clinton, o que coloca em perspectiva uma fala batida: a de que mulheres brancas mal apresentam sororidade para com mulheres negras.

Aqueles que argumentavam que não havia muita diferença entre Trump e Clinton evidentemente não estavam considerando a autonomia corporal de todas as mulheres.

E agora?

Gênero é um fator crucial para a análise e os debates sobre política, e nos últimos tempos a misoginia direcionada às mulheres na política vem ficando cada vez mais explicitamente evidente.

Nos discursos que acompanharam as eleições norte-americanas e o processo de impeachment brasileiro há registros abundantes do quão apegados a valores patriarcais ainda estamos.

O machismo visível e mensurável, tanto na derrubada de Rousseff quanto na derrota de Clinton, foi amplamente denunciado, por elas e por muitas mulheres.

O machismo visível e mensurável, tanto na derrubada de Rousseff quanto na derrota de Clinton, foi amplamente denunciado, por elas e por muitas mulheres.

Será interessante prestar atenção em como a mídia retratará outras figuras femininas na política daqui por diante.

Angela Merkel, cuja posição como líder acidental da Aliança Atlântica pós-Brexit vai colocá-la ainda mais em evidência, deu as boas vindas ao novo presidente dos EUA declarando que fomentará a cooperação entre aquele país e a Alemanha contanto que sua administração tenha como base valores como democracia, liberdade, respeito pela lei e pela dignidade dos seres humanos independentemente da sua origem, cor, religião, gênero ou sexualidade.

Mas ainda aí vêm Marine Le Pen e Frauke Petry, ambas representantes da extrema-direita europeia e seus velhos valores patriarcais e supremacistas brancos.

Vamos ficar atentas às diferenças de tratamento dadas àquelas que batalham por mais equidade e aquelas para quem a ordem patriarcal de gênero continua apresentando poucos obstáculos.

Ainda que Clinton seja uma figura contestada, seu discurso pós-eleições salientou preocupações feministas.

Nele, Hillary declarou para as jovens mulheres que puseram fé em sua campanha que nada jamais a deixou mais orgulhosa do que representá-las, e se despediu com um mensagem esperançosa:

“Para todas as garotas que estão assistindo isso, nunca duvide do seu valor e do seu poder e de que você merece todas as chances e oportunidades do mundo para ir atrás dos seus sonhos e conquista-los.”

Querem-nos belas, recatadas e do lar, mas sabemos que esse desejo é nada além de uma fantasia patriarcal, e um que cabe direitinho no conceito da pós-verdade.

O jargão feminista que diz que somos “nós por nós” permanece. Então avante, mulheres, pois a luta continua.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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É fundadora da Casa da Mãe Joanna e mestre em Gênero, Mídia e Cultura.

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