

Colunas
A patriotada sem chuteiras
Incapaz de celebrar sem ressalvas o maior jogador de seu tempo, parte do Brasil prefere transformar elogios a Pelé em consolo patriótico
Por
José Guilherme Pereira Leite
17.06.2026 13h00 | Atualizado há 1 horas
Apenas a doença do chauvinismo impede que alguns brasileiros reconheçam a grandeza de Messi. Ontem, na transmissão da CazéTV, revelou-se que expressivos 49% dos espectadores torciam pela Argentina mas, infelizmente, 51% diziam secar os vizinhos. Paralelamente, muitas pessoas escreviam, no chat da emissora, frases de estrutura adversativa: “Não torço para a Argentina, MAS torço pelo Messi”, “Não gosto dos Argentinos, MAS Messi é incrível” etc. Essa necessidade de lavrar a ressalva, antes do elogio, revela o ambiente conflagrado das redes, como na política: antes de enaltecer, as pessoas se sentem no dever precavido de distanciar-se. Do contrário, a resposta ou comentário vem crivada de ofensas.
Minutos após seu feito esplendoroso, Messi afirmou que as estatísticas iludem e que, em sua modesta visão, tornar-se o maior artilheiro das Copas não faz dele o melhor jogador da história. O “ET” alviceleste mencionou em sua fala Ronaldo, que perdeu a posição de recordista em 2014, suplantado pelo banheirista Miroslav Klose no fatídico 7×1. Mbappé, que horas antes anotou mais dois e ultrapassou a marca de Pelé em mundiais, foi na mesma direção do argentino: “Pele é Rei, o maior de todos”, disse, com um gesto de “fim de papo”, passando apressado pelo corredor da imprensa.
Ambas as declarações fizeram a alegria coitada do verde-amarelismo. O mesmo chauvinismo que impede o deleite com Messi, sem ressalvas, levou patriotas ligeiros a interpretar essas declarações como odes ao imbatível futebol brasileiro. É em parte natural que seja assim, nesse momento, para um futebol moribundo ou já morto. O torcedor brasileiro tenderá cada vez mais ao sebastianismo ou à fúnebre celebração de uma grandeza pregressa, como já ocorria com os uruguaios e passou a ocorrer com os italianos.
As declarações de Messi e Mbappé enaltecem, obviamente, essas duas personagens gigantescas do futebol mundial e brasileiro – Pelé e Ronaldo Nazário – mas não são destinadas a exatamente isso. Seu sentido é maior e melhor: são dois belos “puxões de orelha” nos maníacos da estatística. Futebol, beleza, encanto, qualidade, magia não são coisas exatamente quantificáveis. A obsessão com os números é uma deturpação da vida, criada pela cultura da performance. As novas gerações precisam ser alertadas sobre isso.
É importante que essas manifestações tenham vindo da boca de dois jogadores que ostentam estatísticas poderosas. Do contrário, seriam desacreditadas moralmente e tratadas como ressentimento (hoje, quase toda crítica é rebaixada a ressentimento). Mais importante ainda é que venham de jogadores plásticos e poéticos, cada um à sua maneira, atletas que desafiam a ideia tola de que apenas o Brasil seria capaz de produzir craques imensamente refinados, estonteantemente dançarinos ou espacialmente geniais.
Essa ideia, já completamente obsoleta, é a contraface traiçoeira de um certo identitarismo nacionalista — e, por incrível que pareça, aparece onde menos se espera. Nessa casca de banana escorregou Milly Lacombe, ao afirmar, em entrevista recente, que um italiano — Ancelotti — não teria sido capaz de entender a identidade do jogador brasileiro. Nessa ilusão, tudo se passa como se houvesse esquemas táticos próprios a cada país, como se “essa tal identidade” já não tivesse sido diluída pelas dinâmicas econômicas do futebol globalizado e, acima de tudo, pelos erros de condução da cartolagem brazuca, na esculhambação cotidiana do futebol jogado no Brasil.
Ancelotti pode ser criticado, é claro. Mas o prisma do “caráter nacional” é de uma simploriedade insustentável. O italiano, já está claro, será responsabilizado pela eventual derrota desta Seleção insípida. Deveria ter firmado com a CBF um adicional por insalubridade, um “bônus bode expiatório”. Se, por algum milagre — ou por uma injusta tragédia —, esta horrível Seleção for campeã nos Estados Unidos, continuará sendo exatamente isto que é: o bom retrato da mediocridade e do descaso com que o Brasil vem tratando a si mesmo e aos seus talentos. Deixem os estrangeiros fora disso.
PS. É ilusório pensar que a Argentina só tem Messi. O jogo de ontem demonstrou um futebol exuberante, com De Paul, Mac Allister e Enzo Fernandes comendo a bola.
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
2026 já começou
Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.
A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.
Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.
Assine ou contribua com o quanto puder.
Leia também
Esporte
‘Injustiça’ e ‘desastre’: o desabafo dos iranianos após a estreia na Copa
Por CartaCapital
Esporte
‘São estatísticas e nada mais’, diz Messi ao igualar Klose como artilheiro das Copas
Por AFP
Fora da Faria
O dinheiro explica as dificuldades do futebol brasileiro
Por Adalberto Viviani
Colunas



