Drauzio Varella

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Médico cancerologista, foi um dos pioneiros no tratamento da AIDS no Brasil. Entre outras obras, é autor de "Estação Carandiru", livro vencedor do Prêmio Jabuti 2000 na categoria não-ficção, adaptado para o cinema em 2003.

Opinião

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A obesidade e o câncer

Um estudo mostra que a redução do IMC, entre os obesos, diminui a incidência de variados tipos de tumor. No Brasil, 63% da população adulta apresenta excesso de peso

Foto: IstockPhoto
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A obesidade virou epidemia em países ricos, remediados ou pobres. E hoje sabemos que ela aumenta a incidência de diversos tipos de câncer: mama em mulheres na menopausa, cólon, reto, rim, fígado, vesícula biliar, pâncreas, ovário, corpo do útero, tireoide, mieloma múltiplo e cárdia (transição entre esôfago e estômago).

Como cirurgias bariátricas provocam, em média, reduções de 20% a 25% do peso corpóreo, o grupo de Ali Aminian, da Cleveland Clinic, conduziu o estudo Splendid, para avaliar o impacto da bariátrica na incidência de câncer.

No grupo-cirurgia foram incluídos 5.053 pacientes de 18 a 80 anos, com IMC entre 35 e 80 no momento da cirurgia (para chegar ao IMC de 80, um homem de 1,75 metro precisa pesar 245 quilos). O grupo-controle foi formado por 25.265 participantes obesos não submetidos a cirurgia bariátrica, com características individuais comparáveis.

Considerados todos os participantes, a média de idade foi de 46 anos e o IMC médio 45 (um homem de 1,75 metro precisa pesar 137 quilos para chegar a este IMC). Mulheres representaram 77% da amostra, e 73% dos participantes eram de cor branca. O acompanhamento durou mais de 17 anos (de 2004 a 2021).

Nesse período, os participantes do grupo-cirurgia perderam, em média, 27,5 quilos, enquanto no grupo-controle a média de perda foi de apenas 2,7 quilos.

O seguimento mostrou que, no decorrer de um tempo médio de dez anos, ocorreram, no grupo-cirurgia, 96 casos dos cânceres citados, ante 780 no grupo-controle. Esses números correspondem às incidências de 2,9% e de 4,9%, respectivamente.

Comparado com o grupo não operado, o da cirurgia bariátrica teve 30% a menos dos cânceres citados e mortalidade 20% mais baixa. Quanto mais acentuada a perda de peso, mais baixa a incidência de câncer. De todos os tipos de câncer com incidência mais elevada em pessoas obesas, o câncer de corpo do útero (endométrio) é o que mais guardou relação direta com a obesidade, tanto no Splendid como em estudos anteriores.

Os mecanismos pelos quais a obesidade aumenta o risco de tantos tipos de câncer são pouco conhecidos. Em indivíduos geneticamente suscetíveis, o acúmulo de tecido adiposo pode acelerar o aparecimento de tumores malignos por induzir inflamação crônica, aumento da liberação de hormônios como o estrogênio e a adipocina, além de aumentar a resistência das células à insulina, processo que leva ao diabetes do tipo 2.

No Brasil, a prevalência de obesidade é assustadora. No período de 2003 a 2019, a obesidade (IMC igual ou acima de 30) entre os adultos aumentou de cerca de 12% para 27%. Se somarmos a eles os que estão na faixa classificada como excesso de peso (IMC entre 25 e 29,9), os números, no mesmo período, foram de perto de 43% para 63%.

Podemos dizer então que, em cada quatro brasileiros com mais de 18 anos, um está obeso. Esse contingente que corresponde a 41 milhões de pessoas. Se juntarmos a eles aqueles com excesso de peso, chegaremos a 63% da população adulta, portanto, 96 milhões de mulheres e homens. Ou seja, apenas um em cada três brasileiros, aproximadamente, não precisaria perder peso.

Se lembramos que a obesidade é um pacote que aumenta o risco de doenças cardiovasculares, diabetes, câncer e de complicações como infarto do miocárdio e acidentes vasculares cerebrais – doenças que estão entre as principais causas de morte –, não é difícil ter a dimensão da gravidade desse problema, de seu impacto na qualidade de vida da população e dos custos que o sistema de saúde precisa enfrentar.

Como o Sistema Único de Saúde (SUS) e os convênios sobreviverão para arcar com as despesas de assistência médica causadas pelas complicações dessas enfermidades? De onde virão os recursos para atender os casos de infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral, diabetes, problemas ortopédicos, amputações, limitações de mobilidade e de outros males que afligem os brasileiros obesos que envelhecem?

A ciência demonstrou que a obesidade está ligada a alterações moleculares de alta complexidade que envolvem fatores genéticos, metabólicos, psicogênicos e ambientais. Está longe de ser um castigo para os exageros alimentares. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1212 DE CARTACAPITAL, EM 15 DE JUNHO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “A obesidade e o câncer”

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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