A nova ágora docente em tempos de pandemia

O ensino remoto e o uso das diversas tecnologias não substituem a presencialidade. Mas em meio a crise global, há uma oportunidade 

Sala de aula no Espírito Santo. Créditos: divulgação Sedu

Sala de aula no Espírito Santo. Créditos: divulgação Sedu

Educação,Opinião

Entre as mudanças ocasionadas pela pandemia da Covid-19, em todo o planeta, destaca-se a transformação substancial da prática docente. Sua ágora, antes em um espaço físico sólido, carregado de subjetividade, muda para uma tela digital, também coletiva, mas com rostos emoldurados, onde nem sempre a afetividade é favorecida.

A ágora, termo grego que designa “reunião”, seja ela de qualquer natureza, era geralmente empregada por Homero como um encontro ou assembleia de pessoas, e foi essencial para a constituição dos primeiros estados gregos.

No contexto da educação, a docência é algo encantador, que remete a uma liberdade de pensamento que atravessa tempos, épocas, momentos históricos, políticos e até mesmo epidemiológicos. A sala de aula é o espaço de oratória, de professar ensinamentos e conhecimentos, a ágora do encontro entre docentes e estudantes.

Durante décadas, os docentes foram tratados como deuses gregos, donos do conhecimento, como Athena, divindade da sabedoria, da inteligência, do senso de justiça e das artes, nascida do cérebro de Zeus. Aos olhos da comunidade, pais e estudantes, o professor sempre foi visto como o detentor do conhecimento, sobretudo aqueles com o título de doutor ou com PhD.

 

Diante dos desafios impostos pela pandemia da Covid-19, o docente passa a ser um dos sujeitos a integrar um leque de mudanças, além das genéricas, como o isolamento social, mas também as que demandam protagonismo no ensino-formação-educação, tendo que modificar seu labore para práticas pedagógicas online, mediado por Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC).

A fragilidade, a temporalidade histórica e conjuntural e a era da informação davam sinais de que seria necessário recriar a ágora docente. No último século, visitamos diversas modalidades de ensino, tanto na educação básica, técnica e universitária, algumas delas sem fundamentar-se em uma dimensão epistemológica de teóricos da educação.

A lacuna desses modelos, contudo, logo se apresentava, por deixar de lado a autonomia do estudante e não levar em conta a experiência acumulada, a cultura social e histórica instituída e vivenciada por este ao longo de sua vida. Esses modelos não responderam às necessidades individuais dos estudantes e nem do mercado de trabalho, pois não foi traduzida na prática diária.

Tentamos sair do “ensino bancário”, na definição de Paulo Freire, com depósitos “conteudistas” e negação ao diálogo. Buscou-se uma pedagogia libertadora, problematizadora e conscientizadora, utilizando metodologias ativas de ensino e aprendizagem. No entanto, o ensino bancário, culturalmente, está impregnado da tradição da prática docente.

Durante décadas, os docentes foram tratados como deuses gregos, donos do conhecimento (Créditos: EBC)

Some-se ao ensino bancário o modelo flexneriano (criado pelo educador Abraham Flexner, em 1910, nos EUA), que reforçou ainda mais a prática didática na saúde voltada para a expertise do professor transmissor, conteudista, com ensino fragmentado, segmentado, especializado, com excesso de conteúdos teóricos em detrimento às práticas, distante da realidade e territorialidade sanitária em que os estudantes estão inseridos.

No Brasil, na área da saúde, o paradigma do ensino bancário-flexneriano, com suas bases pedagógicas atuais, continua presente, refletindo fortemente no escopo de práticas profissionais durante o processo saúde-doença-cuidado, sobretudo no rol de ações de promoção da saúde e na Atenção Primária à Saúde. Tal modelo impede a construção e tessitura de uma rede de atenção forte, com saberes intercomplementares, apesar das diferentes densidades tecnológicas e cognitivas.

Apesar da persistência desse modelo curricular, a aprendizagem significativa voltada às demandas do Sistema Único de Saúde (SUS) e da população, vem tomando espaço com práticas, a exemplo de ações como o Programa Nacional de Reorientação da Formação Profissional em Saúde (Pró-Saúde), entre outros. Nesse contexto, o docente passa a ser facilitador da aprendizagem, visando preparar, motivar e empoderar o estudante, o que felizmente vem ganhando espaço em diversas universidades.

Com o docente como curador de conhecimento, a aprendizagem significativa passa a ser estratégica, pois com ela o estudante relaciona as informações a um aspecto relevante previamente existente em sua estrutura cognitiva, ancorando-se nos conhecimentos que já lhe pertencem. Nenhum aprendiz deve ser tratado como um copo vazio. Seu repertório deve ser considerado e explorado. Desse modo, o estudante passa a ser protagonista em seu território, cartografado de relações e sentimentos.

De repente, o professor se sentiu falando sozinho diante de uma tela de laptop

Com o avanço da internet, das mídias sociais e das TIC passamos a incorporá-las em nossas atividades pedagógicas, como elementos fundamentais, para fomentar o conhecimento e alargar as possibilidades de aprendizagem e de interação entre estudantes-docentes-comunidade-universidade-mundo do trabalho.

Crises aceleram tendências

Em meio ao que estava aparentemente cômodo, tácito e regular, o mundo se depara com uma emergência sanitária, demandada pela pandemia da Covid-19. Necessitamos ressignificar nosso modo de viver, a fim de mitigar a doença e reduzir os riscos de adoecer e morrer. Para isso, passamos a adotar medidas iniciais não farmacológicas, como o isolamento social e o uso de máscara.

Entre as ações estratégicas com o intuito de mitigar a propagação dos casos, temos a suspensão das aulas nas Instituições de Ensino Superior (IES) pelo Ministério da Educação (MEC), ou a substituição das disciplinas presenciais, em andamento, por aulas em meios digitais, enquanto durar a pandemia.

Um estudo (COVID-19: 20 countries’ higher education intra-period digital pedagogy responses) realizado em 20 países, incluindo o Brasil, sobre as respostas dadas pelos provedores do ensino superior durante a pandemia, mostrou a variabilidade de ações dentro das nações e apontou desde a falta de respostas até as estratégias de isolamento social no campus universitário e a rápida reformulação do currículo para transição para as aulas totalmente online.

Mesmo com o distanciamento social, os docentes travam, assim como Athena, diversas batalhas

Neste momento, em que as IES planejam, organizam ou já executam o ensino de modo remoto, híbrido, os docentes que já vinham sendo desafiados pela necessidade de mudança no ensino, se viram diante de uma demanda de transformação ainda maior, que exigiu ajustes radicais no ambiente de ensino, estratégias educacionais e entrega de aulas, com um efeito significativo na experiência de aprendizagem dos estudantes.

Deixou-se de lado o status quo entre quatro paredes, com os estudantes organizados em um quadrilátero de carteiras, em roda ou enfileirados, e migrou-se para uma ágora virtual, em uma tela com rostos emoldurados, entre fotos, “tarjas pretas” ou sorrisos no “ao vivo”. A ágora digital envolve um complexo de computadores, tablets ou smartphones, mídias digitais, internet e uma nova interação, mais subjetiva.

O docente teve de inovar e se reinventar durante o processo de ensino, em tempo real, atuando de modo híbrido entre a tela e a realidade, o virtual e o real, a docência e os afazeres domésticos e relações familiares. De repente, se sentiu falando sozinho diante de uma tela de laptop, às vezes sem sentimentos e afetos, sem a possibilidade de trocar gargalhadas ou abraços em uma dinâmica presencial em grupo. Vivenciamos uma afetação coletiva à saúde mental, que nos causa ansiedade, angústia e solidão entre pixels e vozes digitais.

Mesmo com o distanciamento social, os docentes travam, assim como Athena, diversas batalhas, entre a sabedoria e a construção de uma nova civilização do conhecimento, “aprendendo com” e “ensinado com”, ressignificando sua práxis pedagógica, em busca de novos sentidos para a docência, utilizando habilidades pessoais diversas, às vezes desconhecidas, e outras recém-incorporadas.

Do outro lado da tela, foi possível conhecer retratos das famílias e lares dos estudantes em suas diversas realidades. A ágora encastelada da sala de aula passou a transitar por muitos territórios de vidas, de práticas e de arquiteturas residenciais e humanas, cartografadas entre subjetividades diversas.

Como, então, pensar em um ensino colaborativo e interprofissional em meio à pandemia e no pós-pandemia? A divindade da docência se reconstrói no panteão digital, em meio às ruínas deixadas pela crise da Covid-19. Aos poucos caminhamos para uma cultura digital, com uma educação que necessita afirmar a (nova) identidade docente. É preciso repensar radicalmente não apenas as abordagens de ensino, mas também as crenças sobre o que contribui para a aprendizagem eficaz dos estudantes.

Vale recorrer à pedagogia libertadora de Freire, em um processo de conscientização e humanização, em que mestre e estudante se refletem e interferem, tornando-se sujeitos de sua própria história. É urgente utilizar diversas estratégias de ensino e aprendizagem, levando em conta os mais vulneráveis, buscando respeitar às desigualdades, para não causar mais exclusão social e digital, gaps educacionais e precarização do ensino, mas sim inclusão.

O ensino remoto e o uso das diversas tecnologias não substituem a “presencialidade” que a universidade impõe, como espaço de humanização, trocas e de construção coletiva. Mas em meio a crise global, há uma oportunidade de usufruir de recursos compartilhados vivenciada em todo o mundo, transcendendo o atual momento epidemiológico e histórico.

O momento exige que docentes inspirem os estudantes, que os afetem e sejam afetados por eles, com efetividade, mostrando o real valor da educação e a garantia da qualidade do ensino público, para evitarmos a evasão dos estudantes. O ensino remoto, portanto, aponta para a necessidade de um maior protagonismo das universidades nesse momento de crise, para os desafios presentes e futuros, com a construção de redes tecnológicas e ajustes nos projetos pedagógicos, com maior responsabilidade política e social.

Vivemos uma era da educação como resistência, com novos desafios e novos sentidos, que vai além de uma pedagogia de bytes e pixels. Uma era que exige a reinvenção da ágora docente para os desafios contemporâneos e futuros, tanto pandêmicos como pós e extra pandemia.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Enfermeiro sanitarista, professor e pesquisador da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA).

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