Nikkole Presotto

Fotógrafa e cinegrafista, apaixonada por arte, cinema, rock do fim dos anos 60, poesia e cultura psicodélica. Estudou Direção Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema (AIC).

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A música como tecnologia psiconauta 

Reduzida muitas vezes ao imaginário dos anos 60, a psicodelia atravessou décadas e segue viva como experiência sensorial e estado de escuta

A música como tecnologia psiconauta 
A música como tecnologia psiconauta 
Parcerias. Em 2023 e 2024, Clapton fez turnês pelo mundo. Ao longo da carreira, tocou com outros grandes, como B.B. King e Jimi Hendrix – Imagem: Redes Sociais Eric Clapton
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Quando se pensa em música psicodélica, intuitivamente evocam-se grandes nomes do rock como The Beatles, Os Mutantes, The Doors, Pink Floyd, Secos & Molhados, Jefferson Airplane, The Jimi Hendrix Experience, Ten Years After, Grateful Dead e Cream — nomes associados ao final dos anos 60, ao imaginário do Woodstock ou, mais recentemente, à música eletrônica de festivais e raves. 

Mas a influência da era hippie vai muito além desse recorte histórico. Nos anos 70, se desdobra no progressivo contemplativo do Camel, no jazz elétrico e quase espiritual de Miles Davis e nas repetições hipnóticas do Can. Há também um ponto de virada fundamental: o surgimento da música eletrônica como linguagem. Kraftwerk não apenas cria sons — cria estados. 

Nos anos 80, a psicodelia não desaparece, apenas se desloca: surge no neo-psicodélico do The Teardrop Explodes, nas texturas etéreas do Cocteau Twins e nas paisagens ambientais de Brian Eno. 

Nos anos 90, ela se fragmenta e se reinventa: The Orb, Spiritualized, Nação Zumbi. 

Nos anos 2000, torna-se digital e expansiva: Shpongle, Animal Collective, Boards of Canada. 

Nos anos 2010, transforma-se em Tame Impala, King Gizzard & the Lizard Wizard, Boogarins. 

No fundo, nunca foi apenas sobre drogas. A música, por si só, induz estados: transe, catarse, êxtase. Na rave, isso se expande; no quarto, isso se aprofunda. 

Mais do que um gênero, a música psicodélica se revela como um dispositivo de percepção. Ainda que tenha sido historicamente catalisada por substâncias, ela própria se torna indutora de estados alterados de consciência. 

Na pista de dança, isso se amplifica: luzes estroboscópicas, repetição rítmica, corpos em movimento coletivo — um ritual contemporâneo. Mas essa experiência também se dá no íntimo: na escuta solitária, no quarto escuro, nos fones de ouvido. Um álbum do Pink Floyd ou do Camel pode conduzir a estados meditativos, visionários e oníricos. 

A verdadeira herança da psicodelia não está nas drogas, mas na cultura que se moldou a partir dela — na escuta, na observação, no sentir. Na capacidade da música de reorganizar a percepção, dissolver fronteiras e produzir, por si só, uma viagem interior. E, no fundo, sempre foi assim: nos tambores xamânicos, no batuque africano, na flauta hipnótica, nos coros que elevam, no sax delirante do jazz — e também nas ruas, nos amplificadores improvisados, em experiências vivas como a Picanha de Chernobill, que transformam o espaço urbano em um campo sensorial coletivo.

É isso que atravessa décadas: a música como tecnologia de consciência — seja como ritual coletivo ou como mergulho introspectivo. 

A experiência psicodélica não se limita à ingestão de uma substância. Ela atravessa todas as fronteiras — conhecidas e desconhecidas — entre o mundo palpável e o etéreo, entre o tangível e o abstrato. Coexiste dentro e fora, dissolvendo essa própria separação. Está por toda parte, como um campo em expansão — um estado de percepção que se desdobra no infinito.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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