Thiago Rodrigues

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Doutor em Relações Internacionais pela PUC-SP e Sorbonne Nouvelle e professor na Universidade Federal Fluminense (UFF)

Opinião

A morte política de Paulo Gustavo

O humorista passa a ser um símbolo coletivo. Não apenas como ‘ídolo que morre antes do tempo’, mas como mártir da Covid-19

Créditos: Reprodução / Instagram Créditos: Reprodução / Instagram
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A morte do ator e humorista Paulo Gustavo comove o Brasil. Como é comum quando um ídolo nacional morre, é imenso o volume de mensagens de pêsames, homenagens de famosos e anônimos. Essa fatalidade, entretanto tem elementos que a tornam singular quando comparada à morte violenta ou inesperada de outros “símbolos” nacionais.

Quando Ayrton Senna ou os Mamonas Assassinas morreram, a comoção foi gigantesca. Houve demonstrações de luto coletivo semelhantes apenas à morte de Tancredo Neves e de Getúlio Vargas. No caso de Senna, a perda era a de um “herói”, alguém que representava o Brasil com altivez e sucesso, mas ainda assim, com humildade. Senna simbolizava o lado positivo da autoimagem do brasileiro, resumida na famosa cena na qual o exausto piloto subia ao pódio com a bandeira nacional erguida com esforço e emoção.

Quanto à banda, o choque se deu pela morte acidental no auge da carreira. A juventude dos músicos, somada à alegria e à descontração que encarnavam, fez dessa tragédia um trauma nacional.

Nos dois casos, a morte foi abrupta, violenta, fruto de um acidente fatal.

Na morte de Paulo Gustavo, a violência foi ressignificada. Não se trata de uma vida ceifada num acidente, mas de uma morte provocada pelos efeitos de uma infecção viral que já tirou a vida de mais de 410,000 brasileiros. A violência, então, é sentida no acúmulo das mortes e, principalmente, pelas circunstâncias nas quais essas elas têm ocorrido.

Paulo Gustavo morreu no dia em que começou a CPI que investiga a responsabilidade do governo Bolsonaro na resposta à pandemia. E poucos dias após marchas bolsonaristas demandarem a abertura do comércio, entre as mesmas palavras de ordem autoritárias a que fomos habituados desde as marchas de 2015 e 2016 contra Dilma Rousseff.

A morte de Paulo Gustavo provoca uma forma diferente de luto coletivo. Não se trata apenas do “herói nacional” ou de um “ídolo popular”, mas alguém cuja existência reúne elementos políticos fundamentais.

Paulo Gustavo foi vítima não apenas de um vírus, mas de uma morbidez nacional. O país tornou-se um cemitério onde 3 a cada 4 brasileiros contam com a morte de uma pessoa próxima em decorrência do coronavírus. Paulo Gustavo adoeceu quando vacinas já estavam disponíveis no mercado, mas não acessíveis à população por conta daquilo que a CPI aponta como ação deliberada do governo Bolsonaro.

Apesar dos cuidados que tomou, Paulo Gustavo se infectou num país onde o presidente é um negacionista militante. A morte de Paulo Gustavo, portanto, não é uma mera fatalidade, mas um acontecimento político.

Acontecimento ainda mais evidente pela pessoa que ele era: humorista, gay, casado, pai de dois meninos e que não escondia seu posicionamento político progressista.

Paulo Gustavo reúne todos os elementos para ser odiado por apoiadores de Jair Bolsonaro.

Essa parcela da população expressa sem pudores características daquilo que Umberto Eco chamava de “Ur-Fascismo”. O “Ur-Fascismo” se revela pelo discurso/prática do ódio à alteridade, pelo conservadorismo hipócrita, pela compensação histérica de frustrações e recalques, pela exaltação da vingança e da morte.

Parte do Brasil é “Ur-Fascista”, parte do Brasil comemora a morte de Paulo Gustavo. Calada ou vociferante, uma parcela dos brasileiros considera que Paulo Gustavo morreu, justamente, por ser artista, gay, casado, pai de dois meninos e progressista.

Nesses estranhos tempos pandêmicos, as demonstrações de luto pela morte de Paulo Gustavo habitarão não a praça pública, mas o ágora eletrônico das mídias sociais. Ali haverá dor, luto e, também, haters. Paulo Gustavo passa a ser símbolo coletivo não apenas como “ídolo que morre antes do tempo”, mas como mártir da Covid-19.

Thiago Rodrigues

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Doutor em Relações Internacionais pela PUC-SP e Sorbonne Nouvelle e professor na Universidade Federal Fluminense (UFF)

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