‘A mesa não tá posta para todo mundo’: as Lorenas deixadas para trás

Morte de Lorena Muniz, abandonada em um incêndio, é mais uma prova de que alguns corpos, no Brasil, são feitos para serem esquecidos

Lorena Muniz/Divulgação

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Diversidade,Justiça,Opinião

As aspas são para a frase do brilhante Prof. Dr. Fábio Mariano. Uma frase que me atravessou profundamente porque denuncia a realidade de muitos grupos historicamente ‘nascidos para morrer’ e provoca a reflexão sobre o que é precarização para a população trans deste país.

Lorena Muniz, uma mulher transexual que teve a morte cerebral confirmada no último domingo 21, após ser abandonada sedada na sala de cirurgia de uma clínica em São Paulo, durante o início de um incêndio, é mais uma prova de que alguns corpos, no Brasil, são feitos para serem esquecidos.

O que esperar de um País que, por 28 anos, tratou a transexualidade de modo patologizante e somente a retirou desse rol oficialmente, em 2019? O que esperar de um País que ocupa o 1º lugar do ranking dos países que mais matam pessoas trans no mundo? Ou de um País onde a expectativa de vida de uma pessoa trans é de 35 anos? Se for uma trans mulher, preta, gorda, deficiente ou portadora de HIV para quanto cairá esse índice?

Segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais – ANTRA, as mulheres trans e travestis negras representam 80% dos assassinatos contra pessoas trans no Brasil. O que significa dizer que a transexualidade também precisa ser analisada pela perspectiva de gênero e raça.

Eu, enquanto militante dos direitos humanos e sociais, me questiono acerca da complexidade do fenômeno da precarização e de seus desdobramentos, quando sua materialização recai sobre corpos marcados por diferentes opressões tidos como abjetos, como descartáveis e  invisibilizados. E, ainda, como esse processo é consentido por um Estado ratificador e reprodutor dessa lógica estigmatizante.

Assassinatos de travestis e transsexuais crescem 70% em 2020. Foto: Agência Patrícia Galvão

 

À Lorena, assim como a todas as pessoas trans, não é dada outra opção, senão a de lutar para existir, porque, neste País, uma pessoa trans, desde a infância, ainda em ambiente familiar, enfrenta diferentes processos de exclusão. O direito à educação lhes é retirado nos primeiros anos de vida escolar, local onde são violentadas física e psicologicamente. Não por acaso, temos ridículos 0,02% de transexuais e travestis nas universidades, e a aberração de 72% sem concluir o ensino médio.

Óbvio que esses números impactam diretamente suas condições de trabalho. Em 2020, apenas 4% das transexuais estavam nos empregos formais e 6% nos informais. E aos 90% resta a prostituição como fonte de renda primária. Pasmem! À população trans sequer é dado o “privilégio” da informalidade.

Daí, mais uma vez, me questiono: direitos celetistas para quem? Reconhecimento do vínculo empregatício para quem? O processo de precarização, neste País, é tão absurdo que torna a luta pela manutenção de direitos sociais– que, frise-se, é uma luta por migalhas sociais – um “privilégio” frente àquelas e àqueles para quem a precarização sempre foi regra.

Enquanto a academia debate a pertinência ou não da justa causa contra o empregado que se recusa a tomar vacina (sem discutir, obviamente, qual a penalidade cabível ao empregador que se recusar), mais de 70% das trabalhadoras transexuais ficaram e permanecem à mercê da pandemia, sem perceber qualquer medida de auxílio do governo, ou por falta de acesso à internet; ou à documentação ou por dificuldade no preenchimento do formulário que não tem espaço para inserção de seu nome social.

Claro que a clínica, os médicos e todos os envolvidos precisam ser responsabilizados, mas, quando nos daremos conta da nossa responsabilidade nisso tudo? Quando nos daremos conta que essa forma de sociabilidade que negocia o básico para sobrevivência, decidindo quem come, quem estuda, quem vive e como vive e, sobretudo, quem morre não deu, nem dará certo.

Até quando ratificaremos uma sociedade que nos molda para tolerar o intolerável?

E ainda, há quem venha a público, sem qualquer constrangimento, dizer que a rua é uma opção desejada. Mesmo sabendo que não há opção para quem é apagado, violentado e aniquilado todos os dias de diversas formas. Não há opção para quem tem a morte precoce como destino. Não há opção para quem ou morre pelas mãos da transfobia ou pelas mãos do Estado e de sua política do “deixar morrer”.

Para quem nunca teve mesa, quiçá posta, nunca houve opção e nem haverá, enquanto a profunda precarização refletir sua própria história de vida.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Doutoranda em Relações do Trabalho, Desigualdades Sociais e Sindicalismo pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Mestra e Especialista em Direito do Trabalho pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Pesquisadora voluntária no Núcleo de Pesquisa e Extensão "O trabalho além do Direito do Trabalho: dimensões da clandestinidade jurídico-laboral" da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP). Advogada.

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