A magia da riqueza

Em sua concretude, o dinheiro perturba os homens em suas certezas 

(FOTO: iStockphoto e Banco Central do Brasil)

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Economia,Opinião

Hans Christoph Binswinger, no magnífico livro Dinheiro e Magia, faz uma analogia entre os alquimistas e o poder de criação monetária: “Hoje, a alquimia é rejeitada como superstição. A ciência moderna mostrou finalmente, segundo nos dizem, que a fabricação do ouro é uma ilusão, motivo pelo qual ninguém mais deseja perder tempo com projetos tão abstrusos. Mas proponho um argumento diferente: as tentativas de produzir ouro artificial não foram abandonadas por serem inúteis, mas porque a alquimia, sob outra forma, mostrou-se tão bem-sucedida que a árdua produção de ouro no laboratório deixou de ser necessária… Não é mais vital para o objetivo da alquimia, no sentido de aumentar a riqueza, que o chumbo seja realmente transmutado em ouro. Será suficiente que uma substância sem valor algum se transforme em outra dotada de valor: papel, por exemplo, em dinheiro”.

A relação débito-crédito é um exemplo, sem rival, da chamada abstração real, uma vez que todas as relações entre os agentes são transfiguradas em relações monetárias e patrimoniais. E sob essa roupagem passam a comandar os destinos das economias, das sociedades e dos humanos.

Um exemplo pedestre pode demonstrar como a ampliação da oferta de moeda se dá endogenamente, pelo funcionamento cotidiano do sistema financeiro.

Considere a compra de CDBs, títulos remunerados com juros, emitidos pelos bancos para captar dinheiro do público.
Ao captar recursos e realizar empréstimos, o banco oferta liquidez e poder de compra para quem deseja, por exemplo, empreender. Passa a existir na economia um novo ativo, patrimônio do empreendedor, que pagará sua dívida a partir da receita auferida por esse novo negócio.

Esse novo ativo foi financiado com os recursos do banco, que ao conceder crédito não reduziu o patrimônio do comprador do CDB, mas apenas a migração para um ativo financeiro relativamente menos líquido, remunerado com juros (justamente por essa razão). Esse valor poderá se converter em bens, serviços, salários e outros, a depender das múltiplas vezes que sua expressão enquanto moeda circular.

Nesse período, o banco permanece com uma dívida perante o proprietário do CDB e um crédito com o dono da empresa devedora. O banco será remunerado ao cobrar do segundo uma taxa de juros superior à que pagará ao primeiro.

O banco, ao conceder o empréstimo, não apenas realocou recursos da poupança de um indivíduo para o investimento de outro, mas criou um poder aquisitivo adicional na economia. As instituições financeiras desempenham o papel de metabolizar a liquidez para o sistema econômico.

A alavancagem financeira consiste em criar poder aquisitivo adicional sobre uma riqueza existente. Cria um desequilíbrio, um buraco no sistema que só será estabilizado pela confirmação das diversas apostas de quem renunciou temporariamente à forma líquida da riqueza, ou colocou a risco seu patrimônio, acreditando na possibilidade de sua valorização.

A renúncia à liquidez é uma ponte entre a riqueza velha e a geração de riqueza nova, apoiada na crença no outro, na confiança mútua. É um salto de fé no futuro desconhecido, sustentada por uma sucessão de apostas interdependentes.

O comprador do CDB dá crédito ao banco, no sentido de acreditar que a instituição terá capacidade de retornar seus recursos devidamente remunerados pelos juros. O banco concede crédito ao empreendedor por acreditar na viabilidade do negócio. O empreendedor aposta na demanda da comunidade.

Considerava-se que a usura contrariava a lei natural, por vender o tempo comum a todos

Essa compreensão não é trivial, pois, além da própria multiplicação da riqueza lastreada no mesmo recurso que representa apenas uma fração dela, a ampliação do poder de compra e da liquidez depende, contra-intuitivamente, do desejo daqueles que a controlam de despendê-la.

Ainda durante o próprio processo de dispêndio, antes de as diversas apostas de credores e investidores se revelarem bem-sucedidas, ocorre um impacto positivo na renda e na estrutura da riqueza, decorrente do aumento do poder aquisitivo de diversos agentes, fruto da socialização da riqueza e, por outro lado, uma restrição na liquidez pela metamorfose da riqueza líquida em outras formas de ativos.

Há um impacto óbvio decorrente dos salários e despesas pagas pelo dono do restaurante. O que é gasto, na ótica do proprietário, vira receita e renda para empregados e fornecedores, que também terão seu poder aquisitivo ampliado.
No atual estágio de desenvolvimento do sistema financeiro, as expectativas de ganho com juros dos credores são gradativamente contabilizadas nos títulos que registram o empréstimo, mesmo antes da sua quitação total ou parcial.

Seja pela marcação do preço dos títulos de dívida que são negociados no mercado, trocando de mãos após sua emissão (mercado secundário), seja pela capitalização dos juros. Essas oscilações do valor do título de dívida provocam efeitos patrimoniais e na riqueza de seus detentores.

Os salários e as despesas pagos pelo empreendedor e os juros percebidos pelo banco e o investidor no CDB causam impacto na riqueza agregada.

Escreve o filósofo italiano Leo Essen em seu site Goku que os povos do Ocidente medieval, entre os séculos XII e XV, rejeitavam o negociante de dinheiro porque ele obtinha seu ganho hipotecando o tempo que pertence apenas a Deus.
William de Auxerre, em sua Summa Dourada, composta entre 1215 e 1220, diz que a usura age contra a lei natural universal, porque vende o tempo que é comum a todas as criaturas.

A criação de riqueza abstrata é uma aposta em um futuro que ainda não existe, cuja concretização depende das nossas próprias ações, não como indivíduos, mas como sociedade. A ideia de uma abstração concreta é inquietante para quem quer a certeza se algo “realmente” existe. Se as pessoas­ acreditam nela e agem de acordo com a sua existência, então mesmo uma ideia abstrata se faz presente na vida concreta.

Em sua concretude, o dinheiro perturba os homens em suas certezas e simplificações. Já disse alguém: “A natureza particular do dinheiro evidencia-se de novo na separação dos negócios do dinheiro das relações mercantis propriamente ditas. Vemos, portanto, como é imanente ao dinheiro realizar suas finalidades à medida que simultaneamente se empenha em negá-las; se autonomiza em relação às mercadorias; de meio, se torna fim; realizar o valor de troca das mercadorias ao se ­separar dele; facilitar a troca ao cindi-la; superar as dificuldades da troca imediata de mercadorias ao generalizá-las; autonomizar a troca em relação aos produtores na mesma medida em que os produtores se tornam dependentes da troca”.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1172 DE CARTACAPITAL, EM 26 DE AGOSTO DE 2021.

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Economista e professor, consultor editorial de CartaCapital.

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