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A liberdade começa no amor
O poder pode impor obediência e o dinheiro pode comprar influência, mas ambos fracassam diante daquilo que não se compra: autonomia, afeto e consciência
“Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.”
João Guimarães Rosa
São muitas as formas de amor, mas duas categorias sobressaem: amor individual e amor coletivo.
Entre essas duas, muitas possibilidades existem.
No entanto, estamos condicionados pelo medo da solidão, que assimilamos a solitude, sendo aquela negativa e esta, positiva.
O amor coletivo traduz-se no interesse público, que vai desde nossa comunidade até aquelas mais longínquas.
O individual pode ser familiar ou de casal, que pode compreender mais de uma pessoa (um trisal, por exemplo).
Na vida, o que nos inspira? O que nos motiva?
Talvez a sociedade competitiva em que vivemos nos faça pensar que é a busca pelo dinheiro ou pelo poder que nos mova.
Um erro evidente. Basta chegarmos lá para percebermos.
O poder divide e o dinheiro não compra o principal: o amor.
Em A Hora da Estrela (Editora Rocco), Clarice Lispector relata o diálogo entre os namorados Olímpico e Macabéa: “…eu sei no certo que vou vencer. Bem, e você tem preocupações? — Não, não tenho nenhuma. Acho que não preciso vencer na vida”.
Macabéa é Clarice em seu último livro e no auge de sua imensa sabedoria, acumulada ao longo de uma vida extraordinária, em que a busca pela verdade norteou amores individuais e coletivos.
Clarice também assimila solidão a solitude naquela obra, mas deixa claro a qual das duas se referia: “…Então, no dia seguinte,…ela teve pela primeira vez na vida uma coisa a mais preciosa: a solidão”.
Para isso, é necessária consciência. Sem ela, não vivemos nossa própria história ou aquela coletiva — a História, da qual todos deveríamos ser agentes, cônscios de que por ação ou omissão, de fato o somos.
Vivemos uma quadra muito difícil. A força — o contrário do amor — impõe-se no âmbito internacional, e o Brasil tem enorme dificuldade em compreender as relações internacionais, principalmente porque está distante dos vizinhos e, também por isso, tem reduzida capacidade de atuação em foros multilaterais, por não contar, ademais, com um sistema de defesa minimamente adequado.
Pior, também internamente, o crime organizado, por meio da famiglia Bolsonaro, conseguiu aglutinar em torno de si a extrema direita e a direita, tendo esta sido hegemonizada por aquela, após adotar práticas externas à democracia, como a não aceitação de resultados eleitorais.
Em Como nasce um miliciano (Editora Bazar do Tempo), Cecília Oliveira recorda: “No mundo, o crime organizado transnacional movimenta cerca de US$ 900 bilhões anualmente. As atividades ilegais movimentam tanto a economia que a União Europeia passou a estimar o tráfico de drogas no PIB, o equivalente a 0,4%. Essa conta dos europeus vai ao encontro do que José Cláudio Souza Alves disse sobre o dinheiro que circula na Baixada Fluminense não ser uma ‘para-economia’. É a economia, ponto, já que não é nada paralelo. Ele bate duro na tecla de que Estado paralelo não existe, poder paralelo não existe e, então, uma paraeconomia também não. São agentes que estão na folha de pagamento do Estado, movimentando a economia das cidades, geridas por esse mesmo Estado”.
A autora cita o depoimento do matador da vereadora Marielle Franco, Ronnie Lessa, então vizinho de Jair Bolsonaro no condomínio Vivendas da Barra, para demonstrar como o crime organizado está infiltrado no Estado: “Ao ler o relatório final da Polícia Federal sobre o caso Marielle Franco, mais uma peça se encaixa sobre as apostas econômicas das milícias: a questão imobiliária, em especial o Projeto de Lei da Câmara (PLC) 174/2016, projeto sobre a regularização de loteamentos em Vargem Grande, Vargem Pequena, Itanhangá e Jacarepaguá, proposto pelo acusado de mandar matar a vereadora, o deputado federal João Francisco Inácio Brazão, o Chiquinho Brazão. Em sua delação, Ronnie Lessa contou que receberia lotes de terrenos como pagamento pelo assassinato da vereadora…”.
É contra essa estrutura poderosa que as forças democráticas terão de lutar nestas eleições de 2026, em que mais uma vez, o candidato que empregou a família do maior matador do Rio de Janeiro em seu escritório, pagando com dinheiro público, Flávio Bolsonaro pretende chegar ao Planalto e transformar o Brasil novamente em colônia, a ser ainda mais explorada pelos Estados Unidos da América (EUA).
É Clarice Lispector que nos guia, no livro citado, pelos caminhos da autodeterminação, que tanto vale para nós, seres humanos, individualmente quanto coletivamente: “Porque, por pior que fosse sua situação, não queria ser privada de si, ela queria ser ela mesma”.
Não é isso que a sabedoria dos anos nos aconselha? Não é melhor errarmos, se for o caso, mas termos livre-arbítrio? Os que tanto falam em liberdade, por que querem aprisionar, roubar, colonizar?
A vitória, de quantas derrotas não se compõe? Por que temos tanta dificuldade em encará-las como sendo o próprio alicerce da conquista?
Teremos um mês de provações pela frente, mas não cabe esmorecer, pois as luzes sempre vencerão as trevas, na física como na política — e nas relações afetivas.
Cabe a nós estarmos conscientes da História e do papel que ela nos determina, hoje e sempre, coletiva e individualmente.
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