Opinião

A inflação dos alimentos

“Seca e calor” prolongados, mesmo nós urbanóides, podemos perceber. Imaginem o campesino que trabalha sol a sol para produzir hortifrútis

Aumento dos preços nos supermercados. Foto: iStock
Aumento dos preços nos supermercados. Foto: iStock

Percebem a seca? A falta de chuvas? Duro, né? Mas entronizadas há séculos nas vidas de quem se dedica à agricultura, e amenizadas a cada século pelas novas tecnologias que surgem. 

Irrigação alta ou por gotejamento, técnicas de manejo e épocas de plantio regionalmente adequadas, maiores graus de precisão e informação pela meteorologia, variedades de plantas e sementes criadas para diminuir o estresse hídrico, integrações como a lavoura-pecuária-floresta, produtos orgânicos e organominerais protetivos e estimulantes da biota dos solos, a baixíssimos custos e vantajosos na produtividade.

Notem que, no primeiro parágrafo, mencionei ‘amenização’ baseada em séculos. Poderia referir-me a décadas, não fossem as ações do homem contra o meio ambiente e a biodiversidade, anulando os ganhos tecnológicos de caráter benéfico.

Por que, então, de janeiro a setembro deste deletério ano de 2020, do Regente Insano Primeiro (RIP), depois das vilanias de arroz, feijão, etanol, carnes bovinas, aves, peixes, leite e derivados, tiveram preços majorados que vão de 30% a 80%, quando, ao mesmo tempo, temos o discurso  governamental a indicar inflação controlada quando medida pelo IPCA (índice de Preços ao Consumidor Amplo), que pondera os preços a seu bel-prazer? Serão os expurgos da alimentação básica, causados por orgasmos pós-pandêmicos?

Senhoras e senhores, procurem culpar outras freguesias, e não aquelas que produzem para comercializar a preços aviltados, e ainda serem estigmatizados, dia e noite, em folhas e telas cotidianas

O colunista menor lê no Valor (7/10/20) a manchete “Seca e calor afetam a produção, e preços de hortifrútis sobem”. Certo é que meias-verdades, dependendo do caráter do poder incumbente, viram mentiras.

Apesar de meu isolamento social, a completar sete meses, tenho com quem conversar e pesquisar. Uma boa rede de informantes, especializados em agricultura, sobretudo, voltados aos hortifrútis. Os produtores, lavradores, aqueles que junto às suas famílias plantam para nossas mesas, todos, enfim, evito o palavrão que seria muito mais digno… estão ferrados.

“Seca e calor” prolongados, mesmo nós urbanoides do gueto digital em home office, podemos perceber. Imaginem o campesino que trabalha sol a sol para produzir hortifrútis. Mais: como ficam seus anos seguidos de prejuízos, sem apoio nenhum, pois nessas específicas lavouras sempre a Federação de Corporações viveu mais na abundância de preços baixos, do que na escassez de preços altos. 

Diz a alarmante matéria de Marina Salles e Fernanda Pressinott: “Nos nove primeiros meses do ano (…) a acumulação [sic] chegou a 5,2%”, com base no índice Ceagesp, de São Paulo.

Então tá, mas aonde foi parar a diferença? Com os agricultores é que não. Entre janeiro e maio de 2020, o Índice Ceagesp, que mede a oscilação de preços de uma cesta com mais de 100 produtos, variou negativos 1,3%. De junho a setembro subiu escandalosos 2,9%. 

Senhoras e senhores, procurem culpar outras freguesias, e não aquelas que produzem para comercializar a preços aviltados, e ainda serem estigmatizados, dia e noite, em folhas e telas cotidianas. 

Jornalistas de pouco interesse investigativo, olhem para os preços dos insumos agrícolas dolarizados, os custos de distribuição, as cadeias atravessadoras, as indústrias agregadoras de valores, os pontos de vendas. Verão o quanto a seca e o calor afetam suas margens de contribuição.

Notem que, coincidentemente, a escalada de preços inicia em junho, justo quando o auxílio emergencial começa, mesmo que claudicante, a ser distribuído. Qual empresário brasileiro, depois de anos seguidos de pífio crescimento econômico por falta de consumo, e ainda mais agravado pela pandemia, originalmente desdenhada por RIP, não irá recompor seus preços e margens em cima do lombo de produtores agropecuários e consumidores finais?

A mais recente, não citada na matéria, mas foco do noticiário matutino da TV Globo (08/10): o leite – de retireiros que sempre conheci pobres e se queixando dos baixos preços que recebem. Pois bem, mais de 15 minutos derramando a xícara da base da alimentação infantil, para de lá chegarem aos queijos, de parmesãos e gorgonzolas, até chegar às mozarelas e, às triunfais pizzas.

Donos de cantinas e pizzarias choravam às mancheias. Condoí-me.

Inté!   

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