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A importância de ser atento e solidário com as tristezas alheias em uma Terra martirizada
Locomovemo-nos sem parar, mas o que buscamos? Não é uma conversa longa, sem tempo para acabar, livre?
“É o anseio que nutre a nossa alma, não é o seu cumprimento” – Arthur Schnitzler
Talvez a esperança possa ser comparada a um navio que parte com destino a um porto, mas termina chegando a outro.
Por sorte, não dominamos todos os mecanismos da vida.
Se incompletos como somos, a arrogância é um traço de nosso caráter, imaginemos se tivéssemos ainda mais poder e controle sobre nossas vidas.
Neste ano de muitos feriados estendidos, cabe refletir sobre a apropriação deles pela população.
No caso de 21 de abril, o feriado de Tiradentes, tudo não passou de um feriadão.
Nenhuma reflexão sobre a luta anticolonial que o herói empreendeu, mesmo no momento em que a recolonização empreendida pelos Estados Unidos da América e a Europa Ocidental tenta submeter o Sul, novamente, aos seus desígnios, para a continuação da pilhagem das nossas riquezas.
Por aqui, os vende-pátria, com Flávio Bolsonaro à frente do projeto de recolonização do País, estão em campanha, para assim se locupletarem ainda mais dos bens públicos, facilitando o roubo deles pelas potências do Norte, EUA em primeiro lugar.
Ainda pior, a antiga metrópole, Portugal, que enforcou e esquartejou o Tiradentes, agora cede a base das Lajes, em seu território, para que a aviação do império possa atingir o Irã.
Sobre essa flagrante violação do direito internacional, silêncio — aqui e na Terrinha.
O Tiradentes morre mais uma vez, novamente sob olhares silentes e covardes.
Em O palhaço e o psicanalista (editora Paidós), Christian Dunker e Cláudio Thebas refletem:
“O hospedeiro é aquele que se torna protagonista da experiência vivida, pois se apropria da herança deixada pela experiência. Ser protagonista, na cultura da competição, é ocupar o centro das atenções, ter o microfone para si a ponto de levá-lo para casa. Mas ser protagonista na cultura da cooperação é ser, conforme a etimologia da palavra, aquele que, por conter em si o conflito, também o propaga e representa. Protagonista vem de proto (portador ou precursor) e agon (conflito).”
Na mesma obra, os autores nos chamam atenção para a travessia da vida: “O desconhecido aguça nossas percepções e nos retira do ponto futuro — o que queremos que aconteça — e do ponto passado — o que projetamos que acontecesse — para vivermos o que está acontecendo neste exato instante.”
Em um mundo virtual, em que estamos aqui, mas também estamos nas redes, torna-se muito difícil ter consciência da presença — e dos momentos únicos com os outros.
Antes do telefone móvel, a dificuldade em encontrar o outro, mesmo quando na mesma cidade, nos dava uma noção de maior valor para os momentos de encontro.
Entretanto, isso se diluiu e agora estamos com as pessoas, mas também estamos conectados com outras pessoas — diluímos o estar e assim reduzimos o ser.
Fruímos menos o estar junto, a intensidade dos encontros — e até dos desencontros.
Sem estar, não podemos ouvir e sem a escuta não pode haver conexão.
Assim, ambos recordam na obra em apreço:
“A importância da escuta para os povos tupi se traduz no termo que utilizam para designar o cacique: Acanguatara. Esta palavra significa Cabeça boa de escutar. Aqui se torna irresistível fazer uma comparação com os ‘homens brancos’ que admiram líderes que ‘falam bem’ enquanto nossas populações ancestrais consideram líder aquele que melhor lhes escuta.”
De fato, temos um déficit de sermos vistos e escutados.
Os jovens muitas vezes resolvem a questão da visibilidade com tatuagens, roupas e cabelos vistosos.
Mas a escuta ainda permanece restrita, razão pela qual a procura de profissionais, como psiquiatras e psicólogos, parece aumentar sempre mais.
Locomovemo-nos, também, sem parar, mas o que buscamos? Não é uma conversa longa, sem tempo para acabar, livre?
Mas, no fundo, não tememos a liberdade, suas múltiplas possibilidades, sua adesão à verdade, até o limite da violência?
Sobre essa acepção de violência, seria a de uma ruptura com o senso comum: abrir nossa mente para a verdade radical, como o Cristo o fez, por exemplo, ao se relacionar com prostitutas que teriam vendido o corpo, mas não a mente, como fizeram os fariseus, dóceis à implacável lei judaica e àquela do império romano.
Sobre a comunicação, Costică Brădătan, em Elogio do Fracasso (editora Vozes), faz interessante digressão: “Não apenas a solitude é definida na relação com os outros, mas porque somos obrigados a empregar a linguagem — um produto definitivamente social — para pensar ou falar, até mesmo com nós próprios.”
Com efeito, somos nossos maiores “faladores” e “escutadores”. Estamos em constante diálogo com nós mesmos.
Quem teve a experiência de falar outro idioma sabe que às vezes adotamos até o idioma estrangeiro para nossas conversas internas.
Aquele autor ainda enfatiza: “Fora do grupo, a vida é, nas famosas palavras de Hobbes, ‘solitária, precária, desagradável, cruel e breve.'”
Não nos iludamos: estar incluídos, vistos, escutados são nossos desejos, mas precisamos ser recíprocos e, de fato, estarmos presentes, atentos e solidários com as alegrias e tristezas alheias, onde quer que se encontrem os nossos outros nesta Terra martirizada.
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